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Gabu Camacho

autoconfiança
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Um dia de cada vez: Autoconfiança

“Um dia de cada vez” é uma editoria escrita por pessoas que contam histórias em sua jornada de autoconhecimento, convivência ou recuperação de transtornos mentais. Os relatos são anônimos e enviados por leitores do blog. Hoje, leremos um relato de autoconfiança, que oscila entre dias bons e ruins.

Acho engraçado como minha mente funciona às vezes. A gente fala tanto de autossabotagem, fica ciente que estamos nos sabotando e mesmo assim, em alguns dias, a autoconfiança simplesmente sai pra passear e não volta. Tem semanas que quero me afastar de tudo que criei e venho criando pra mim. Mesmo sendo aquilo que eu sempre quis.

A gente tenta não colocar tanta pressão assim. Entender que está tudo bem dar uma pausa de vez em quando. Mas a gente quer criar, quer começar outras coisas, quer ir além. Dá pra entender uma mente assim? Eu quero me dedicar a muitas coisas, mas ao mesmo tempo, não quero me dedicar tanto a alguma coisa específica porque e se não der certo? O que eu vou fazer se fracassar, Deus?

Talvez eu não nutra essa autoconfiança por conta da minha autossabotagem. Eu me saboto, pra não ter que percorrer o caminho até dar certo. Eu não sei dar certo. Eu tento, tento, tento e me contento com dar errado porque sei que hora ou outra eu vou desistir de tudo e acolher esse triste destino que já estou acostumado.

Por que não tentar mais um pouco? Por que tentar de novo? Por que seguir tentando? O que eu quero preencher com todas essas tentativas? O que eu quero nutrir com todas essas falhas?

Eu quero falhar e depois me culpar alguns dias. Outros dias, só quero focar naquilo que sei fazer bem e que quero fazer. Por que eu fico querendo focar em outras coisas e ignorar as coisas que quero fazer e faço bem?

Será que eu enjoo rápido das coisas? Será que eu me coloco muita pressão?

Será que eu só quero me sabotar? Onde está minha autoconfiança daqueles dias que acordo cedo e limpo a casa inteira? Que saio dançando pela sala?

Eu sei, está tudo bem.

Um dia de cada vez.

Um dia de cada vez.

Tem um relato da sua jornada e quer compartilhar com outras pessoas aqui no “Um dia de cada vez”? Envie para [email protected]. *Os relatos são publicados de forma anônima.

finge que não me conhece
Autorais, Livros

Você fez o que fez e finge que não me conhece

Muito tempo já se passou desde que você fez o que fez. Agora você finge que não me conhece e que eu nunca cruzei sua existência. Desculpa quebrar essa pra você: eu cruzei e tem sido mais difícil que eu pensava.

Eu me mudei. Mudei de cidade, também. Mas, resolvi passar vinte dias na casa nova da minha mãe. Sabia que ela comprou uma casa enorme pra morar com a minha irmã? Pois é. Fui passar férias lá e minha irmã me chamou pra ir nessa festa onde tudo foi meio atravessado.

Leia ouvindo: Processed Beats, Kasabian

Eu relutei, mas depois eu topei. Sei que meu noivo ia querer ir junto, mas ele estava em outro país, viajando a trabalho. Fui com a minha irmã na festa, com uma roupa meio ralé e minha bolsinha de ombro. Sim, aquela de tantos anos que a gente comprou juntos na viagem do décimo terceiro. Esperei por horas naquela fila. Você se lembra de todas as vezes em que estivemos juntos nessa fila? Eu me lembro, mas não queria. Claramente não tenho mais idade pra isso. Acho que você não se lembra, afinal, você fez o que fez e agora finge que não me conhece.

Quando chegou minha vez de pagar e entrar, eu precisava muito ir no banheiro. Deixaram que eu entrasse e voltasse para pagar depois. Corri para a cabine… Tudo estava tão diferente de quinze anos atrás, quando a gente era adolescente e nos beijávamos na fila para o mesmo banheiro. O banheiro não era o mesmo. Eu não era o mesmo. Será que você lembraria das coisas caso viesse aqui da forma que estou lembrando?

Saí e voltei para a recepção. Minha neurose continua a mesma. Preciso das coisas certinhas. Droga, esqueci a bolsa no banheiro, pendurada atrás da porta da cabine. Voltei e você estava lá, dentro da cabine. Você sabia que a bolsa era minha e que eu precisaria falar com você para pegar. Você me olhou maliciosamente como se eu não fosse falar.

Mas eu falei e peguei a bolsa. Você ficou estático, não respondeu. Me olhei no espelho antes de sair e eu não estava tão bem vestido quanto você, e você percebeu. Me olhou da cabeça aos pés. Socorro, eu estou preso! Você quebrou meu diálogo interno, gritando no banheiro.

Um menino que estava ao lado correu para a sua cabine e sua cabeça estava meio presa entre a porta. O que você estava tentando espiar do lado oposto da cabine? O seu novo crush da vida fazendo xixi? É, deve ser isso.

Eu fui mais perto, tentando ajudar o menino que te puxava e você gritou mais uma vez. Não deixa ELE se aproximar de mim. Demorou um pouco mas eu entendi. Você se referia a mim. Eu não podia me aproximar para te ajudar. Então, parei, estático. Eu posso ajudar, ele não vai conseguir te soltar sozinho, te respondi, mas você não se dignou a me dirigir a palavra.

Deixa qualquer um entrar, menos ele. Ele não pode me ver assim. E eu entrei na cabine, mesmo contra sua vontade, para tentar ajudar aquele que te puxava antes que tivéssemos que chamar uma ambulância. NÃO, EU TÔ PELADO!

De todas as coisas, você só pensava nisso. As coisas não mudam. Não tinha nada ali que eu não tivesse visto de todas as formas possíveis. Em todos os ângulos e com todos os meus sentidos. É, você fez o que fez e finge que não me conhece. Finge que não conhece cada centímetro da minha pele. Finge que nunca transamos em cada pedacinho daquela cidade de todas as formas possíveis.

A gente conseguiu te soltar. Você se vestiu e eu me afastei, me arrumando no espelho. Eu precisava voltar, pagar e tomar uma bebida. Parecia inacreditável tudo aquilo. Qual é a chance do seu ex-namorado da adolescência entalar a cabeça na cabine do banheiro da balada que vocês iam, ainda por cima pelado? Certas coisas só acontecem comigo, mesmo.

É, parece que só um de nós melhorou o estilo. Você me mediu de cima aos pés, disse isso com desdém e saiu porta afora. Você fez o que fez e se esqueceu. Se esqueceu de que já te vi em todos os ângulos, de todas as formas, com roupa ou sem.

É. Você fez o que fez e finge que não me conhece.

final feliz
Autorais, Livros

Muito para o meu final feliz

“Ele vai estar na faculdade, desencana”. Você se lembra de quando a sua melhor amiga de infância me disse depois que você comemorou que ia estudar em outro estado? Foram exatamente essas palavras. Eu estava feliz por você, mas não sabia que era isso que estávamos comemorando. Eu sabia que era fruto do seu esforço e que você merecia isso.

O problema é que eu gostava mesmo de você. Pra valer. Você me acordava com um sol no rosto todas as manhãs e eu queria isso pra sempre. Eu estava caindo rápido por você, como naquela música da Avril Lavigne.

Em um mês, você era meu porto seguro. Eu sentia que você sempre estaria lá por mim. E agora você está indo embora. Não é pra sempre, não é por algo ruim. Você não morreu e essa é a coisa certa a ser feita. Lembra que você viu que eu estava triste, estragando a sua despedida e você então, me chamou num canto e perguntou, como você me vê?

Eu não soube responder. Minha vontade de chorar estava insana. Como eu te via? Como alguém que eu estava perdidamente apaixonado. Condenado, como você me disse uma vez no parque, que sem você saber, agora considero como nosso.

Eu amo ser exagerado, mas não é exagero quando digo que realmente gosto muito de você. E acho que é muito para o meu final feliz. Eu não valho tudo isso, você diz e eu sempre discordo na mesma hora. Hoje em dia, eu sei que você não vale a roupa que veste. Mas eu sempre te enxerguei mais do que você era.

Houve uma época em que eu sempre discordaria disso, porque você está marcado em mim. Sei que você vai ler tudo isso, apesar de não dever. Só sei que me sinto dentro de um livro daqueles que chorei muito ao ler. E Deus sabe o quanto eu desejava estar dentro de um deles, mas precisava ser tão ao pé da letra?

Hoje eu sei que devia ter deixado você ir embora. Na época, eu não sabia.

Eu seria hipócrita de dizer que não sentirei saudades dos nossos sábados em São Paulo, dos cafés na Starbucks, de dormir com você e de te beijar na praça de alimentação do shopping. Está tudo guardado dentro de mim.

Sei que esse parece um texto triste, mas não é. Estou orgulhoso de você. Mas hoje, não estou orgulhoso da pessoa que você se tornou como eu achei que estaria anos atrás.

Eu sempre achei que você era muito para o meu final feliz. Mas a verdade é que eu era muito. Muito pra você merecer. Eu é que era muito para o seu final feliz.

os últimos momentos
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Anti-heróis: Os últimos momentos

Todo mundo tem uma história trágica de amor. Aquele romance que tinha tudo para dar certo e não deu. Aquele romance que deu certo por muito tempo e algo trágico separou. Alguém, que mesmo com o passar do tempo e das circunstâncias ainda faz seu coração bater mais forte. Nós queremos ouvir a sua história e publicar aqui, no Beco Literário na nossa nova seção: anti-heróis.

Baseado no álbum novo do Jão, Anti-herói, que conta a história de um amor que devastou e foi embora, nós vamos ouvir a sua história e reescrevê-la aqui no Beco Literário para que possa ser eternizada e ressignificada, afinal todo mundo tem o seu the one that got away.

ATENÇÃO: O RELATO ABAIXO TEM GATILHOS DE AGRESSÃO, BEBIDAS, DROGAS E VÍCIOS. NÃO PROSSIGA CASO VOCÊ SEJA SENSÍVEL A UM DESSES ASSUNTOS E NÃO DISPENSE AJUDA PROFISSIONAL.

Quando ela viu aqueles olhos verdes, ela sabia que seria dele e jamais poderia imaginar como seriam os últimos momentos daquele romance. A paixão veio instantânea, mas com o tempo, ela só crescia.

A distância não ajudava, a saudade estava cada dia maior. Como ficar longe de um amor tão avassalador assim? Qualquer distância parece ser maior que mil oceanos. Em três meses, veio a surpresa: ela estava grávida.

Aquela gravidez não era algo esperado ou planejado, mas era o fruto desse afeto que parecia queimar cada partícula do dois enamorados. Mas, com essa surpresa, veio uma consequência: O que nós faremos agora? Como vamos criar esse filho? Não precisaram nem responder. O aborto espontâneo levou toda a surpresa e esperança de dissecar a distância embora. Mas claro, nada podia separar esse grande amor.

Os anos se passaram rapidamente, o amor aumentou até certo ponto e depois parou. Parou, mas prevaleceu, firme e forte, por um fio. Mas um fio de aço, maleável, que aguentava todos os trancos da vida. Mas com os anos, veio a convivência. Com a convivência, vieram as brigas, as diferenças, os desafetos… Junto com tudo isso, também surgiram algumas coadjuvantes: as bebidas e as drogas.

Ela o amava muito, talvez mais que a si própria. Talvez, porque ela não conseguia ver o amado sofrer de tal forma. Será que fujo porque me amo? Será que fujo porque não quero o ver se destruir assim? Será que amar é destruir? Ela não sabia. Pegou a filha que o tempo devolveu, pegou a mala de mão e tudo o que pode empacotar e fugiu. Saiu pela porta da frente, querendo voltar, mas sabendo que talvez nunca voltasse, sabendo que aqueles poderiam ser os últimos momentos…

E ele se acabou ainda mais. Bebidas, drogas, bebidas, drogas, bebidas, bares…. De bar em bar, suas dores ficavam na mesa, abafadas pelo consolo rápido. Pela anestesia. Até que chegou o fatídico dia em que tudo mudou.

Francisco*, vem cá se tu é homem mesmo! E ele foi. Não podiam ferir sua masculinidade. Carregado pelo surto de adrenalina fortalecido pelas bebidas e pelas drogas, armado pela realidade turva da qual ele tanto se anestesiava. Ele foi, mas não voltou. Teve sua vida ceifada a uma única garrafada.

Ele ali, no asfalto, jogado, viu sua vida passar diante dos seus olhos. E antes de morrer, nos seus últimos momentos, ele falou Joelma*, Nataly*…. Como se pedisse desculpas para a amada e para a filha.

Hoje, as únicas coisas que sobraram foram as lembranças. Aquelas que estão na mente e aquelas que estão eternizadas em mim, sua única filha.

E minha mãe ainda chora pelo seu amado há 10 anos….

Tem uma história como “Os últimos momentos” e quer contar aqui na “Anti-heróis”? Envie para [email protected]. *Os nomes foram e serão trocados para manter as identidades devidamente preservadas.

você sabia
Autorais, Livros

Você sabia (e usou isso ao seu favor)

“Eu vou te ajudar com isso e você vai ganhar esse concurso”, e eu queria mesmo te ajudar naquele dia. Eu tinha prometido naquele dia que você me chamou pra ir na Starbucks. Cada centímetro meu estava implorando pela próxima vez que nos veríamos. Ok, implorando não. Eu só estava torcendo muito, e você sabia disso. E ela veio mais rápido que eu imaginei, porque você conhecia alguns lugares que poderíamos ir em segurança.

Você me disse que queria ir no cinema e eu topei, sem pensar duas vezes. Me atrasei, como sempre, mas cheguei no shopping com aquele sorriso no rosto que eu mantinha desde a última quarta-feira e que todo mundo tinha reparado, em todos os lugares.

Leia ouvindo: I know places, Taylor Swift

Cheguei e te abracei. Corri tanto pra pegar aquele ônibus. Poucas vezes eu corri assim por coisas que eu realmente queria. Ajudei você com o que você precisava para ganhar o tal concurso. Você me deu brownie na boca enquanto eu trabalhava. Você sabia que aquilo me deixava balançado.

Fomos para o cinema. Antes do filme começar, você me beijou ali na porta. Você me abraçou. Eu deitei no seu colo, você passou a mão no meu cabelo. Eu sequer me lembro do filme que estávamos assistindo, se não era sobre o nosso amor. Eu estava gostando mesmo de você. E você sabia.

Eu achava tão fofa a maneira com a qual você me tratava. Você me beijava, não só na boca. O filme ficou em segundo plano e eu não sabia que estava no cinema. Eu só queria guardar aquelas memórias o máximo possível porque meu inconsciente devia saber que nós tínhamos um prazo de validade. Eu disse que você era alguém saído de um livro da Jane Austen.

Aquele lugar era tranquilo, com você. Era um refúgio, de tudo o que o mundo podia fazer. Aquele abraço que você fechou com os nossos rostos enquanto segurava a minha mão e eu cantarolava Taylor Swift. Just grab my hand and don’t ever drop it… DON’T EVER DROP IT. Talvez tenha sido uma das melhores noites da minha vida. E você sabia disso.

Eu poderia ficar aqui, escrevendo páginas e páginas sobre como me senti, como me descobri ou ainda poderia escrever a próxima continuação de Cinquenta Tons de Cinza. Eu poderia descrever em detalhes quando o filme estava próximo de acabar e você me puxou pela mão e me beijou com gosto de cereja na porta de saída do cinema, no escuro. Quantas reticências.

O meu sorriso estava dez vezes mais forte que qualquer outra vez na minha vida e era interminável. Nada conseguia tirar o meu bom humor naquele momento, porque eu sou assim quando estou gostando pra valer de alguém. Parece que tenho poderes mágicos. Crio histórias, danço no ritmo da música, tudo ganha um significado especial em forma de palavras. E droga, você sabia disso.

O meu rosto se ergue feito botox, a pele melhora, o sono some ou vem avassalador com os sonhos do futuro perfeito. Nós éramos infinitos aquela noite, aceitando o amor que achamos que merecemos, nem parecia que a página seguinte do meu capítulo estaria manchada de lágrimas.

Eu te acho perverso. Como alguém que me beijou com gosto de cereja na porta do cinema e me deu brownie na boca poderia ser tão… frio? Você fez tudo isso comigo e com mais outras cinco pessoas nos outros dias da semana. Você sabia que eu estava me apaixonando. Você sabia que me tinha na mão, que eu era seu, que eu sempre fui. Até hoje eu não sei o porquê.

Porque você sabia. E isso te dava mais vantagem nesse jogo que eu não queria ser o ganhador.

pulsão
Atualizações, Sociedade

Você sabe a diferença entre instinto e pulsão?

Quando iniciamos o estudo em Psicanálise e começamos a aprofundar nas temáticas, logo conhecemos o famoso termo “pulsão”, que chegou no que Sigmund Freud definiu como Teoria das Pulsões. O conceito de pulsão, seria a de um “representante psíquico das excitações provenientes do interior do corpo e que chegam ao psiquismo” (ZIMERMAN, 1999, P.82). Mas, e na prática? O que é uma pulsão e como ela se difere do instinto? Por que pulsões e instintos não são a mesma coisa?

Entendendo a pulsão

A pulsão, como o próprio nome sugere, é como se fosse um impulso. Uma espécie de força que precisa ser dirigida para um representante – seja ele um afeto ou uma ideia – para se manifestar. Resumindo, ela nos mobiliza para uma direção e busca um representante para a energia se manifestar. Ela advém de um desejo e quer satisfazer esse desejo por meio de um objeto.

Uma mulher viciada em comprar bolsas, por exemplo, mesmo tendo várias bolsas novas em folha no armário. Qual é o desejo que ela busca saciar dentro de si mesma e os realiza por meio da compra excessiva de bolsas novas? Afinal, bolsas são bolsas, servem para carregar coisas. Ter uma ou duas, no máximo, seria mais que suficiente. Essa energia que a faz comprar a bolsa para satisfazer seu desejo inconsciente é a pulsão.

Antes de entendermos o instinto, é importante saber que a pulsão nasce a partir dele, mas se constitui acima dele. Essa demanda que vem do corpo ao psiquismo para saciar os prazeres é a pulsão.

Entendendo o instinto

O instinto, por sua vez, é determinado pela hereditariedade. Vem com todos os seres vivos. Um leão se alimenta única e exclusivamente por instinto. Ele sente fome, caça e come, saciando sua fome. Possivelmente, ele nem sabe que aquele sentimento é fome. Talvez seja apenas um desconforto que sua hereditariedade faz com que ele coma a fim de acabar com aquela sensação. Ele tem um cunho biológico que dirige o organismo para um fim particular, com um objeto de representação bem específico. O leão come porque tem fome. Só por isso.

Os instintos são uma espécie de força que incita o ser vivo a tomar uma ação, ele inicia a necessidade da ação, sem determinar qual ação e com qual intensidade de força essa ação precisa ter para se realizar.

Instinto e pulsão: colocando os pingos nos “Is”

Agora que entendemos os conceitos separados de instinto e pulsão, vamos relaciona-los, lado a lado. Enquanto o instinto é uma pressão que vai dirigir o organismo de um ser vivo para um fim específico e particular, pela necessidade, a pulsão é uma força que vai tender o ser humano para um alvo específico, com uma direção e um representante.

O instinto, portanto, é a força que inicia a NECESSIDADE de uma ação. Sem predeterminar qual ação em particular e qual é a força dessa ação. Já a pulsão, terá aspectos mentais, como um impulso, um desejo. A força da pulsão precisa ser dirigida para um representante para a energia se manifestar. Voltando ao exemplo das bolsas, ninguém compra bolsas por instinto. Mas também, voltando ao exemplo do leão, as pessoas não comem somente por instinto, como os animais.

Um bebê, quando nasce, por exemplo, vai sentir um desconforto e chorar. Sua mãe, por meio de toda conexão que existe entre criança e mãe vai interpretar aquele desconforto como fome e vai oferecer seu seio para que a criança possa mamar. Enquanto ela amamenta, ela passa a mão na cabeça do filho, ela olha com ternura e afeto, ela canta, ela oferece seu colo, no sentido literal e figurado. O bebê chorou de fome, pela primeira vez, mesmo sem saber que aquilo era fome, por instinto. Da segunda vez em diante, ele vai chorar pelo desconforto, mas não vai ser somente o alimento que ele deseja: ele vai desejar também o colo da mãe. A pulsão, nesse caso, ficou sobre o instinto.

Além disso, nós, como seres humanos, imaginamos saber o que é fome. Mas será que esperamos estar morrendo de fome para irmos atrás de alimentos? Não. A gente interpreta nossos sinais e nos alimentamos, na hora que bem entendemos. Sabemos que é necessário, mas não comemos só quando é necessário: comemos quando nos sentimos felizes, tristes, para comemorar…. Por que você acha que as pessoas saem para beber quando estão felizes? Por uma mera necessidade? Ou por satisfazerem seus desejos inconscientes de socialização, extroversão e diversão? Se você ainda estiver em dúvida, a segunda opção é a correta!

Podemos pensar de forma resumida e compacta da seguinte forma:

– Um instinto inicia a necessidade da ação, sem predeterminar qual ação e qual é a sua força. Ele só sabe que precisa fazer alguma coisa;

– Uma pulsão tem a função de realizar um desejo, de causar prazer, por meio de um objeto representante (afeto ou ideia);

– Instintos são puramente necessidades, pulsões tem aspectos mentais, o que comumente podemos denominar como desejos.

O conceito de pulsão passou por várias variantes dentro do estudo de Freud com o nascimento da psicanálise, como pulsões de auto conservação, pulsões sexuais e posteriormente, pulsões de vida e pulsões de morte. No entanto, esse debate é propício para outro artigo, já que neste aqui vou me ater a somente diferenciar pulsão de instinto, conceitos muito parecidos que podem facilmente causar dúvidas.

ruim no amor
Autorais, Livros

Autoria: Sou ruim no amor

É, eu não sei como essas coisas funcionam direito, ele disse. Eu sou ruim no amor, sempre cometo os mesmos erros.

Perguntei como assim. Não era possível que uma pessoa espetacular, como aquela que se apresentava pra mim nas entrelinhas das mensagens fosse “ruim no amor”. A narrativa não batia com a vida real e dessa vez era de uma forma positiva, ao contrário de quando um livro não condiz com um filme, por exemplo.

Leia ouvindo: Bad At Love, Halsey

Foi então que ele começou sua narrativa no dia em que perdeu a virgindade com o menino que seria seu amor por três anos a partir daquela fatídica noite. Eles eram muito diferentes, mas mesmo assim tudo tinha corrido bem e continuou correndo. Ele nunca o apoiou no sonho de ser escritor, achava que deveria desistir daquele curso de marketing na faculdade e seguir carreira na loja de carros do pai.

Mas ele queria mesmo era escrever. Assim como eu, sentia muito, transparecia pouco. As pessoas achavam que ele era besta. Achavam que aquela voz de sono e aquele jeito de quem não liga pra nada sob o moletom preto com rosa escondiam só mais um garoto fútil que tinha ficado preso no ensino médio. Não, eu não era assim. Sempre fui mais que as coisas podiam transparecer, ele falava, como se precisasse provar algo pra mim, para si mesmo.

Eles ficaram juntos por muito tempo até que o garoto começou a exigir algumas coisas bem esquisitas. Você precisa malhar mais essa bunda. Não gostei do seu corte de cabelo. Eu não vou tocar em você se você não de depilar por completo, credo… Isso é só a ponta do iceberg de coisas que ele me falava, sabe? Eu não podia ser eu mesmo, ele choramingava pra mim entre uma frase e outra no mensageiro verdinho.

A saída daquele calabouço veio de quem ele menos esperava. Do ex-namorado do seu então namorado. Nós estamos juntos há três meses agora. Mas eu já terminei tem mais de um ano.

O ex do ex veio a se tornar seu melhor amigo. Ele ouvia todas as lamentações e acariciava seu cabelo cor de mel naquelas noites que não eram tão silenciosas assim. As coisas pareciam ficar mais fáceis quando ele estava por perto e agora, ele parecia se convencer que estava apaixonado. Ele me pediu em namoro depois de uma briga, a gente estava em um evento público, disse e eu imaginei que ele estava corando.

Eu não sei se ele estava perdidamente apaixonado pelo ex do ex nessa altura do campeonato, mas me parecia que não. Ele queria mais, queria conquistar o mundo, queria escrever quatro livros, viajar para o Egito e conhecer a França. Queria assinar contrato para ter seus livros adaptados para o cinema. Queria vender os direitos para a Warner produzir parques temáticos…. Mas estava ali, preso de novo.

O ex do ex era só um algoz liberando de outro algoz. E eu não entendia o porquê. Eu não sabia porque ele estava me contando aquilo, então lhe perguntei. A gente só tinha se trombado na saída da faculdade ontem e começamos a conversar sobre Taylor Swift. Minha van chegou e eu precisei ir, mas deixei meu número com ele. Estamos conversando desde então. E já estamos na segunda aula do segundo dia.

Daqui a pouco são vinte e quatro horas, só interrompidas para o sono dos justos.

Você pode me encontrar no meu carro? Ele disse. Eu disse que sim e saí da sala com a minha bolsa laranja no ombro. E eu nem sabia que ele tinha carro.

Por que ele estava esperando a van se ele tinha carro, afinal?

Eu saí e fui em direção ao pátio e depois em direção ao portão. Eu o vi e achei que fosse sorrir, mas senti minha cara arder.

Ele beijava um garoto uma cabeça menor que ele, com piercing no septo e uma camisa xadrez amarrada de forma brega na cintura. Não, não era o ex do ex. Era outra pessoa e eu imaginei que era pra ser eu.

Era pra ser eu.

Ele era ruim no amor, afinal.

contrato psicanalítico
Atualizações, Sociedade

A importância do contrato psicanalítico

Tudo o que fazemos na vida envolve um contrato, seja ele o que chamaremos de “formal” ou “informal”. No caso das ações formais, escrevemos em um pedaço de papel todos os direitos e deveres, assinamos com todas as partes envolvidas e reconhecemos em cartório. No caso das ações mais corriqueiras, do dia a dia, estabelece-se um vínculo, um compromisso.

É importante notar que, apesar de diferenciar como ações formais e informais, moralmente falando, os vínculos e compromissos tendem a ser levados mais a sério que contratos escritos. Talvez isso se deva a cláusula de encerramento que todos os contratos ditos “formais” devem ter. Eles já começam com hipóteses muito claras de como terminarão. E esse não é o caso do contrato psicanalítico, que, apesar de se estabelecer no que chamo de “ação informal”, não se sabe quais caminhos enveredarão até seu final e sua conclusão.

Psicanálise: a técnica pela fala

A psicanálise é a ciência da interpretação e do inconsciente. Não é exata, ela reside nas particularidades de cada ser humano. Nas “impressões digitais psíquicas”. E para acessar essas particularidades, que estão no inconsciente, escondidas, recalcadas, usa-se da fala por meio da associação livre. O paciente começa falando, associando suas ideias livremente e o analista, uma vez estabelecida a transferência, entra nesse mundo de significantes e significados ajudando a desatar os nós.

Essa associação livre de induções e de julgamentos é o caminho para se conhecer o inconsciente, isto é, as “impressões digitais psíquicas” de cada ser humano. Uma vez encontrado esse caminho, é a hora de colocar as mãos na massa. É hora do paciente se conhecer, com a ajuda de seu analista.

A entrevista na psicanálise e a transferência

Ao começar qualquer tipo de terapia, é comum que o paciente queira conhecer seu terapeuta. Ver se “o santo bate”, se “rola o feeling”. No entanto, esse processo não deve e não pode ser unilateral. Precisa acontecer dos dois lados e é para isso que a entrevista psicanalítica é feita antes do processo de análise propriamente dito começar.

O processo do “santo bater”, é nada mais que a transferência entre analisando e analista. Aquele dá permissão para que este entre e fique imerso em sua rede de significados, símbolos e significações. Dessa forma, o psicanalista pode indagar de forma mais assertiva, propor interpretações e ajudar no debate do paciente consigo mesmo. E o direcionamento desse processo acontece durante a entrevista psicanalítica.

Chamada por Freud de “tratamento de ensaio”, a entrevista era um processo em que se conhecia o analisando e o “admitia” em análise. Era quase como se fosse uma prova, para ver se ele estava apto para prosseguir. Depois, Lacan chamou esse processo de “entrevista preliminar”, que selaria o contrato psicanalítico em si, procedimento que é usado até nos dias de hoje, com suas devidas adequações.

Posto isso, podemos dizer então que a entrevista psicanalítica é aquele primeiro encontro entre analista e analisando para ver se o “santo bateu”, para que a transferência aconteça de forma direcionada àquele analista em específico. Da mesma forma que o sujeito procura com suas preocupações iniciais, o analista, por sua vez, identifica a demanda de análise com aquele paciente em uma hipótese diagnostica. Ele precisa conhecer a motivação inconsciente (desejos, disponibilidades, expectativas), o funcionamento psíquico (vínculos afetivos, modo de se ler e de ler o mundo) e a organização da personalidade (quadros neuróticos, psicóticos, perversos) para então estabelecer um corte, com o fim da entrevista, para dar entrada no método analítico, com o discurso analítico em si. Isto claro, se o paciente for aceito em análise, como debateremos no próximo item.

A hipótese diagnóstica e a histericização do discurso

O sujeito a ser analisado é quem procura o analista, quase que na totalidade dos casos.  Com isso, ele se apresenta por meio dos seus sintomas, dos seus significantes. A entrevista começa a partir desse instante. Nela, o paciente associa livremente e o analista deve falar o menos possível, apenas para manter o futuro analisando falando. Nesse primeiro momento, não se interpreta o seu discurso, deixa-se que o sujeito apenas introduza os significantes e as suas estruturas, conforme explicamos no tópico anterior.

Com a fala do paciente, entra a questão diagnóstica em jogo e cabe ao analista formular as primeiras hipóteses em sua cabeça. Com isso, ele decide se irá ou não receber aquela demanda de análise. “O fato de receber alguém em seu consultório não significa que o analista o tenha aceito em análise” (Quinet, 1991, p.15). Caso o analista perceba a presença de riscos pelos quais não poderá se responsabilizar ou caso o paciente se encontre num estágio em que se torna difícil levar a análise adiante, o psicanalista pode não se autorizar a estar naquele processo.

No entanto, caso o analista se autorize para aquele analisando, sela-se o contrato analítico. Nesse primeiro momento, no início do processo, o sujeito analisando pode colocar o analista em uma posição de autoridade, como se tivesse todas as respostas do mundo. É preciso então, começar uma construção, por meio da fala, de ligar significantes e significados com o analisando para que ele possa, sozinho, reconhecer de onde vem os sintomas de sua demanda analítica, por exemplo. Com isso, aos poucos, o analista vai entrando nessa “teia” do paciente e estabelece-se de uma vez por todas, a transferência, que é primordial para que a análise aconteça. A partir de então, os sintomas analíticos passam a ser um enigma para o paciente, que será apontado para uma divisão, isto é, para um processo de decifração.

Feito isso, o analista vai induzindo e questionando o analisando a entender seu discurso e a compreender esse enigma da sua mente. Claro que, o analista, em um primeiro momento, pode compreender algo mais depressa que o analisando, mas não deve “contar” a ele. Pode ser que ainda não seja o momento e que ele não esteja preparado para receber a informação.

O analista deve guiar, mas o nó precisa ser desatado pelo analisando no final das contas.

Há um problema que assola a maior parte dos jovens escritores
Há um problema que assola a maior parte dos jovens escritores
Livros

Lançamentos: 5 leituras para se inspirar em 2021

O ano virou e a expectativa de uma vacina se tornou iminente, porém o isolamento social ainda é uma realidade sem previsão de acabar. Mas não é por isso que devemos ficar em casa sem novas leituras. O ano de 2021 reserva lançamentos que animam todos os tipos de leitores.

Para você não perder esses grandes lançamentos, Eduardo Villela, book advisor com mais de 15 anos de experiência no mercado editorial, separou algumas leituras imperdíveis com previsão de estarem nas prateleiras este ano. Vamos a elas:

The Last Days of John Lennon

Como o título sugere, a obra detalha os últimos momentos de uma das personalidades mais reconhecidas de todos os tempos. John Lennon morreu de uma forma trágica cercado de polêmicas. Essa história é contada por três autores consagrados: James Petterson, Casey Sherman e Dave Wedge. A publicação foi lançada em inglês em três edições (e-book, capa dura e capa normal) e já está disponível para o público brasileiro.

Minha Mocidade

Nessa obra, uma das maiores figuras históricas do século XX, Winston Churchill, relembra momento de sua infância, os estudos, os anos como correspondente na África do Sul durante a guerra dos Bôeres e o início da vida política. O livro descreve a formação de um grande líder inglês ou nas próprias palavras do autor ” panorama de uma época extinta”. Minha mocidade será lançado pela editora Harper Collins em 15 de janeiro, nas versões digital e física.

Jack Kirby: A Épica Biografia do Rei dos Quadrinhos

Talvez você não conheça Jack Kirby, mas com certeza, já ouviu falar de alguma de suas criações. Junto com Stan Lee, Jack deu vida a personagens como Capitão América, Thor, Pantera Negra e muitos outros. Mas a vida do quadrinista não se resume apenas aos “gibis”. Jack viveu nas ruas de Nova York durante a Depressão, lutou na Segunda Guerra Mundial antes de chegar nos escritórios da Marvel e fazer história com Stan Lee. Como não poderia deixar de ser, a sua história também foi contada em quadrinhos por Tom Scoli. A Biografia será lançada dia 20 de janeiro, pela editora Conrad nas versões digital e capa dura.

Como evitar um desastre climático: As soluções que temos e as inovações necessárias

Esse livro é para aqueles que se interessam e se preocupam pelas mudanças climáticas. O autor dispensa apresentações, é o bilionário da Tecnologia, Bill Gates. Essa obra é o resultado de 10 anos de pesquisa de Bill Gates com ajuda de pesquisadores e especialistas de diversas áreas, com o objetivo de listar ações para evitar um desastre ambiental global. O lançamento será feito dia 19 de fevereiro pela Cia da Letras, nas versões digitais e físicas.

Kamala Harris: La vida de la primera mujer vicepresidenta de los Estados Unidos

Esse livro exige do leitor compreensão do idioma espanhol, mas vale a pena. É a biografia da primeira vice-presidente americana, Kamala Harris. A obra traz a trajetória da filha de imigrantes que se tornou uma das políticas mais importantes da atualidade. O livro será lançado no formato ebook no dia 19 de fevereiro pela Editora Roca Editorial.

garoto da faculdade
Colunas

Anti-heróis: O garoto da faculdade

Todo mundo tem uma história trágica de amor. Aquele romance que tinha tudo para dar certo e não deu. Aquele romance que deu certo por muito tempo e algo trágico separou. Alguém, que mesmo com o passar do tempo e das circunstâncias ainda faz seu coração bater mais forte. Nós queremos ouvir a sua história e publicar aqui, no Beco Literário na nossa nova seção: anti-heróis.

Baseado no álbum novo do Jão, Anti-herói, que conta a história de um amor que devastou e foi embora, nós vamos ouvir a sua história e reescrevê-la aqui no Beco Literário para que possa ser eternizada e ressignificada, afinal todo mundo tem o seu the one that got away.

Eu fazia faculdade de administração. Em 2018, eu estava no penúltimo ano da faculdade e eu conheci um garoto chamado Ricardo*. Ele era um ano mais novo que eu. Ele tinha entrado na faculdade aquele ano e eu estava quase me formando.

Eu tinha notado o tal garoto da faculdade no primeiro período, mas nunca tinha conversado. Ele era muito bonito, se encaixava no meu conceito de homem. Moreno, um pouco mais alto e com barba.

Da primeira vez que eu o notei, em abril de 2018 até a primeira vez que conversamos, em novembro, levou um tempinho. Ele me chamou no Instagram e conversamos muito. De lá, fomos para o WhatsApp.

No dia 9 de novembro ficamos pela primeira vez. Ele me levou para lanchar. Estava chovendo no dia. Depois disso, passamos a ficar várias e várias vezes.

Eu esperava que ele me pedisse em namoro. Ao meu ver, tudo se encaminhava pra isso. Estávamos saindo todas as semanas. Chegou dezembro, o final do ano… Chegou janeiro, chegou fevereiro e nada. Ele não me pediu em namoro. E eu desabei pela primeira vez. Eu não sabia o que fazer. Termino tudo ou continuo? Resolvi continuar. Eu gostava demais dele e quis acreditar que uma hora o pedido ia chegar.

Eu tinha decidido, por conta própria, não ficar com ninguém. A última pessoa que eu tinha ficado, além dele, foi em janeiro.

Nessa espera interminável, pela mudança de ideia que eu não sabia se viria, chegamos em abril. Eu o pedi em namoro, então. Ele me disse que não queria namorar no momento. Estava bom do jeito que tava. Mesmo assim, eu continuei. Eu me permitia acreditar no que eu sentia. E eu sentia muito. Meu sentimento era de sobra, então eu podia suprir o que ele não sentia ainda, né?

Chegou o dia dos namorados e minha faculdade fez um evento. A pessoa que quisesse mandar uma frase romântica para o seu amor ou paixão platônica procurava a organização e sua mensagem era entregue de forma anônima. Quando eu recebi o coraçãozinho com uma frase que eu gostava escrita, eu soube que era ele. Isso me deixou muito feliz. É incrível como a gente pega migalhas e vê como se fosse muita coisa.

Conversei com uma amiga minha sobre meu “relacionamento”, nesse dia. Ela disse que ele não me merecia. Que ele não gostava de verdade de mim. Eu queria algo sério, ele não. Pensei nisso por um mês, mais ou menos e decidi tocar no assunto do namoro mais uma vez.

Não, Luísa. Não é isso que eu quero no momento. Eu gosto de ser livre. No relacionamento, tudo muda. Não estou disposto a abrir mão da minha liberdade por nada, nem ninguém.

E pra mim, não dava mais. Terminei tudo e já estávamos em agosto. Eu não queria mais sentir demais e receber de menos. Setembro chegou, seu aniversário. Pelejei para não mandar mensagem pra ele. Passamos separados.

No final de outubro, a gente voltou. Eu estava morrendo de saudade. Não aguentava mais ficar longe. Passamos a agir mais como namorados. Ele ia na minha casa. Saíamos juntos para comer ou fazíamos o jantar em casa. Isso sem falar das nossas noites de amor. Eu confiava tanto nele. Tanto. 

Agíamos como namorados, mas não éramos. O garoto da faculdade não queria se envolver comigo.

Em dezembro teve uma confraternização na sala dele e ele podia levar pessoas de fora. Eu jurava que ele ia me levar, mas não. Não vou levar ninguém, Luísa. Melhor assim. Ele levou dois amigos.

Eu ia me formar em fevereiro e precisava decidir sobre meu baile de formatura. Era meu plano leva-lo, então, o convidei. Não sei. Posso pensar e te respondo depois, Lu?

Passamos o ano novo em cidades diferentes e eu queria estar com ele. Mas tive me contentar com uma mensagem fria na tela do celular. Feliz ano novo.

No dia 8 de janeiro, minha amiga me contou que soube que ele tinha ficado com uma colega minha de sala. E conversou com outra amiga sobre mim. Eu estou com a Luísa só porque ela não quer terminar, sabe? Eu nunca namoraria, ainda mais com ela. Parecia que ele estava comigo por pena.

Fiquei revoltada e mandei mensagem para ele. Ele confessou e desde então, nunca mais vi o garoto da faculdade. Me formei e ficou tudo por isso mesmo. Nunca demos um ponto final, de fato, mas eu não quis mais.

Eu vivia triste, chorando pelos cantos, principalmente nos meses finais do nosso “relacionamento”. Ele estava tão frio, distante… Como se estivesse ali fazendo um favor. Ele ainda teve a coragem de jogar na minha cara que não éramos namorados e que todas as vezes que disse que gostava de mim, ele tinha mentido.

Eu sabia que ele ficava com outras. Ele nunca foi só meu como eu fui só dele. Mas saber é diferente de ter certeza. Na última vez que ficamos, eu descobri uma marca no pescoço dele, mas não quis acreditar.

Eu continuei o amando.

De lá pra cá, conversei poucas vezes com o garoto da faculdade. Numa dessas, ele me disse que talvez o nosso futuro seja passar um ao lado do outro.

Mas eu não quero mais. Apaguei nossas fotos e tudo que me deu da minha vida. Joguei as migalhas aos pássaros e os ouvi cantar na minha janela.

Hoje, eu sei quanto isso só me fez bem.

Tem uma história como “Eu queria ele morto” e quer contar aqui na “Anti-heróis”? Envie para [email protected]. *Os nomes foram e serão trocados para manter as identidades devidamente preservadas.