ruim no amor
Autorais, Livros

Autoria: Sou ruim no amor

É, eu não sei como essas coisas funcionam direito, ele disse. Eu sou ruim no amor, sempre cometo os mesmos erros.

Perguntei como assim. Não era possível que uma pessoa espetacular, como aquela que se apresentava pra mim nas entrelinhas das mensagens fosse “ruim no amor”. A narrativa não batia com a vida real e dessa vez era de uma forma positiva, ao contrário de quando um livro não condiz com um filme, por exemplo.

Leia ouvindo: Bad At Love, Halsey

Foi então que ele começou sua narrativa no dia em que perdeu a virgindade com o menino que seria seu amor por três anos a partir daquela fatídica noite. Eles eram muito diferentes, mas mesmo assim tudo tinha corrido bem e continuou correndo. Ele nunca o apoiou no sonho de ser escritor, achava que deveria desistir daquele curso de marketing na faculdade e seguir carreira na loja de carros do pai.

Mas ele queria mesmo era escrever. Assim como eu, sentia muito, transparecia pouco. As pessoas achavam que ele era besta. Achavam que aquela voz de sono e aquele jeito de quem não liga pra nada sob o moletom preto com rosa escondiam só mais um garoto fútil que tinha ficado preso no ensino médio. Não, eu não era assim. Sempre fui mais que as coisas podiam transparecer, ele falava, como se precisasse provar algo pra mim, para si mesmo.

Eles ficaram juntos por muito tempo até que o garoto começou a exigir algumas coisas bem esquisitas. Você precisa malhar mais essa bunda. Não gostei do seu corte de cabelo. Eu não vou tocar em você se você não de depilar por completo, credo… Isso é só a ponta do iceberg de coisas que ele me falava, sabe? Eu não podia ser eu mesmo, ele choramingava pra mim entre uma frase e outra no mensageiro verdinho.

A saída daquele calabouço veio de quem ele menos esperava. Do ex-namorado do seu então namorado. Nós estamos juntos há três meses agora. Mas eu já terminei tem mais de um ano.

O ex do ex veio a se tornar seu melhor amigo. Ele ouvia todas as lamentações e acariciava seu cabelo cor de mel naquelas noites que não eram tão silenciosas assim. As coisas pareciam ficar mais fáceis quando ele estava por perto e agora, ele parecia se convencer que estava apaixonado. Ele me pediu em namoro depois de uma briga, a gente estava em um evento público, disse e eu imaginei que ele estava corando.

Eu não sei se ele estava perdidamente apaixonado pelo ex do ex nessa altura do campeonato, mas me parecia que não. Ele queria mais, queria conquistar o mundo, queria escrever quatro livros, viajar para o Egito e conhecer a França. Queria assinar contrato para ter seus livros adaptados para o cinema. Queria vender os direitos para a Warner produzir parques temáticos…. Mas estava ali, preso de novo.

O ex do ex era só um algoz liberando de outro algoz. E eu não entendia o porquê. Eu não sabia porque ele estava me contando aquilo, então lhe perguntei. A gente só tinha se trombado na saída da faculdade ontem e começamos a conversar sobre Taylor Swift. Minha van chegou e eu precisei ir, mas deixei meu número com ele. Estamos conversando desde então. E já estamos na segunda aula do segundo dia.

Daqui a pouco são vinte e quatro horas, só interrompidas para o sono dos justos.

Você pode me encontrar no meu carro? Ele disse. Eu disse que sim e saí da sala com a minha bolsa laranja no ombro. E eu nem sabia que ele tinha carro.

Por que ele estava esperando a van se ele tinha carro, afinal?

Eu saí e fui em direção ao pátio e depois em direção ao portão. Eu o vi e achei que fosse sorrir, mas senti minha cara arder.

Ele beijava um garoto uma cabeça menor que ele, com piercing no septo e uma camisa xadrez amarrada de forma brega na cintura. Não, não era o ex do ex. Era outra pessoa e eu imaginei que era pra ser eu.

Era pra ser eu.

Ele era ruim no amor, afinal.

Anterior Seguinte

Você também pode gostar de...

Comentários do Facebook







Sem comentários

Deixar um comentário