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Crônica: Amanhã não é o ontem
Imagem: Pinterest / Google Imagens

Leia ouvindo: Darlin’, Avril Lavigne

Antes de começar, saiba que eu sei. Eu sei de tudo. Não vou mentir dizendo que não foi minha intenção, porque eu fiz exatamente o que eu queria fazer. Sabe, as pessoas sempre falam que você deve pensar primeiro em si mesmo e eu, no auge dos meus 16, com aquela estima tão baixa que um termômetro do polo norte teria inveja, resolvi testar como é ser frio. E eu fui, mesmo.

Criança, pré-adolescente, você nunca pensa direito nas consequências de um ato seu. Não há respeito e você jamais imagina que um fantasma pode voltar e te assombrar aos 25, nove anos depois. Mas pode. Não só pode, como vai.

Naquela tarde de sol, quando encontrei Brendan pela primeira vez em uma praça próxima a escola, fugindo dos compromissos que a vida cismava em me pregar, apenas conversamos. Por duas horas. Eu tinha trinta minutos a princípio, mas se tem uma coisa que a gente aprende, é dar valor aos momentos singulares da vida, mesmo que ainda novinho.

Conversamos sobre a vida. Sobre dinheiro. Trabalho. Amigos. Inimigos. Escorpiano tem é inimigo, mesmo sem intenção. Dar mergulhos profundos em águas rasas é com a gente mesmo, e ele sabia. Fui embora.

Os dias se passaram de maneira calma, e sempre conseguíamos conversar por mensagens de texto entre o intervalo de uma aula e outra, nos encontrávamos no horário do almoço e lanche, trocávamos aquelas polaroids repetidas que eu insistia em dizer não. Atravessávamos correndo de mãos dadas na faixa de pedestre, seu rosto batia no meu pescoço quando me abraçava com os braços quase dando duas voltas na minha cintura. É, as coisas evoluem rápido nos mergulhos profundos em águas profundas.

Brendan era o tipo de pessoa oposta, mas complementar. Leve, mas profunda. Inteligente, mas fingindo não ser. Eu,  já havia bebido de tudo, beijado todos, experimentado o excesso de estar jogado numa sarjeta depois da balada. Ele, nunca sequer havia ido a uma festa, senão infantil. E fomos, de identidade falsa e cara lavada.

Na verdade, eu fui. Ele chegou depois.

Por mim.

Rodeado das pessoas que eu era incapaz de fugir, fingi que era apenas um conhecido. Olá, tudo bem? Quanto tempo, amigo. Rodeado das pessoas que nos apoiavam, Brendan fugiu. Fugiu para a vida, para as experiências que nunca tivera, e jamais se apaixonou outra vez, ou deixou alguém penetrar em suas águas profundas. Tornara-se raso, mas não da maneira com a qual um rio seca, mas da forma com a qual um oceano congela, e ainda permanece profundo por baixo da grossa camada de gelo.

Eu fiz o que queria fazer e Brendan pagou o preço. Preço de uma dívida que não era dele.

Dias depois, seu rosto sumiu das minhas redes sociais, e sua respiração no meu pescoço sumiu dos meus dias de sol, que agora eram dias cinzas, como se o mundo chorasse por mim. E esse é o preço que pago, em cima do preço pago por Brendan, até hoje.

Sinto muito.

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Gabu Camacho

Sobre Gabu Camacho

Team Captain e estudante de Jornalismo que lê, escreve, e se ilude com personagens fictícios desde os quatro anos. Usa coroa na rua e chapéu em casa enquanto sofre por antecipação esperando a próxima visita do carteiro. Autor de "O garoto que usava coroa" e "Predestinado".