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Gabu Camacho

Atualizações

O Fake News está relacionado ao desrespeito pelo legado da filosofia e a educação

Muitas vezes ouvimos falar de nossos pais e avós que os tempos mudaram e que hoje já não há mais respeito, que os jovens são irreverentes e que a consideração pela opinião do outro deixou de existir. Será isso tudo verdade? Será que estamos vivendo dias em que há julgamentos mediante ao que se acredita, sem abertura para questionamento, observação ou estudo? É possível.

O neurofilósofo e estudioso de padrões comportamentais da sociedade Fabiano de Abreu demonstra preocupação com a irreverência da geração atual e o descaso com o conhecimento ancestral: “Me preocupa a nova filosofia cultural que se irradia a ofender todo o ideal filosófico de grandes nomes como Sócrates, Platão e Aristóteles. Eles eram pensadores precursores no que hoje chamamos de educação. A filosofia é a primeira matéria que originou todas as outras que nos alimentam não só de conhecimento, mas nos ajudam na sobrevivência. Vivemos a realidade abstrata da deturpação onde estudiosos interpretam a mensagem da maneira que melhor convém a necessidade própria em relação a personalidade esquecendo que a filosofia nasceu do questionamento e do argumento sem uma razão que não seja a final, racional, estatística, livre de qualquer entorno plural interpretativo. “

Mídias sociais como ferramentas da desinformação

Segundo Abreu, apesar de ser positivo que a mídia social tenha dado autoridade, autonomia e liberdade de expressar aos que não tinham voz, por outro lado nem todos estão aptos a exercer essa liberdade: “Acredito que a liberdade advém da consciência do que é certo e errado. Pois a liberdade não é estar solto, não é estar livre, é ter a consciência limpa, é não ser perseguido nem julgado. A liberdade nada mais é do que a falta de pendência. Nós sabemos o que é certo e errado subjetivo ao indivíduo e sua personalidade perante a cultura regional em relação a sua ética e a sua moral. É livre quem tem autoconhecimento, que sabe seus limites e que glorifica suas conquistas de forma humilde já que a própria capacidade o revela como um organismo cabível de falhas que se transformam em experiência. “

Para o neurofilósofo, posts maldosos e as chamadas fake news, que são noticias falsas em busca de destruir reputações e instituições, são armas de pessoas mau intencionadas que visam beneficio próprio através de artimanhas de manipulação: “Para muitos, a escrita é uma arma daqueles que sabem manipular, assim como um dispositivo que destrói a imagem de alguém que não a sabe usar. Mas não é de todo mau. A internet não é a vilã em si, é apenas o mecanismo de transparência que revelou o que sempre soubemos. Que precisamos de educação, precisamos de conhecimento e que somos limitados. O ser humano pensa ter um poder diante de uma consciência racional mais desenvolvida que a dos demais animais quando que, se fazemos o mal para os outros e para nós mesmos, melhor a inteligência do cão que sabe agradar e se posicionar em seu lugar. “

Respeito é fundamental

O especialista também aponta o papel do respeito na manutenção da ordem social: “O respeito é uma personalidade do curioso, do observador, que com inteligência respeita para que possa receber respeito e porque procura entender a posição do outro. Respeitar a opinião é refletir sobre ela e tentar entender, e melhor, conseguir entender, desvendar, interpretar o sentido e o motivo para, mesmo que reprovar, não ter tempo nem a vontade de retrucar já que o resultado nunca é satisfatório.”

Abreu salienta que somente pessoas que dão lugar à ignorância se acham no direito de julgar o outro com base nas suas certezas: “O julgamento sem análise e o argumento sem base é a resposta do ignorante à sua certeza abstrata a uma própria realidade. É a não aceitação do eu que é descontado no outro. A rede social não é de todo mau. Ela apenas revelou um eu que antes guardado, toma coragem de se expressar pois através de uma tela ninguém pode atravessar. “

Conhecimento é a resposta

O neurofilósofo não tem dúvidas que a única solução para os nossos dias e para trazer uma melhora na nossa sociedade e na postura que assumimos diante do outro é o conhecimento: “Não podemos mais desprezar a ciência e o conhecimento ancestral, os estudos que foram feitos por notáveis que vieram antes de nós. Quando temos conhecimento, abrimos a mente e sabemos que ele é infinito, que nunca estamos fartos. Mas quando não temos conhecimento, não vemos além, encontramos um teto, um limite, pois pensamos que sabemos tudo já que sabemos pouco. Quanto mais se sabe, mais sabemos que temos que aprender, quanto menos se sabe, mais achamos que não há muito a recorrer. “

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Anne with an “E” continua em Anne de Avonlea

Com o cancelamento de Anne with an “E” na Netflix, o público se manifestou nas redes sociais  indicando ter muito conteúdo interessante a ser explorado na história, assim desejando uma nova temporada para a série. Em meio a tantos desejos, o Grupo Editorial Coerência anunciou o lançamento de “Anne de Avonlea”, o segundo livro sobre a Anne Shirley.

Produzida mediante uma parceria entre a CBC e a Netflix, Anne with an “E” tomou grandes proporções quando o contrato de renovação para sua quarta temporada não foi assinado. A série é uma adaptação de oito livros escritos por L. M. Montgomery, mas devido ao cancelamento não conseguiu abordar toda trajetória da garotinha ruiva.

Após diversas pessoas se mobilizarem em redes sociais demonstrando interesse e motivos para a história ganhar uma sequência pela plataforma de streaming, o Grupo Editorial Coerência se propôs lançar uma nova edição dos livros em território brasileiro. Publicado pela primeira vez em 1909, “Anne de Avonlea” é o mais recente lançamento da editora.

Na obra, Anne Shirley está com dezesseis anos e meio, e começa a lidar com as responsabilidades da vida adulta e continua conquistando todos ao seu redor com atitudes admiráveis. Os exemplares já estão sendo vendidos, e comprado no site da editora o leitor ganha brindes.

Sinopse
Anne Shirley agora tem “dezesseis anos e meio”. Após desistir de cursar a faculdade para ficar em Green Gables, está prestes a iniciar suas atividades como a professora da escola de Avonlea. Guiada por seus ideais românticos, planeja atuar com métodos de ensino inovadores, mas, com o tempo, acaba percebendo que muitas vezes a teoria é bem diferente da prática. Nada, porém, é capaz de desanimar Anne, que, com o apoio de Gilbert Blythe e de outros jovens de Avonlea, conquista a confiança da comunidade e efetua diversas melhorias no distrito. Embora cheia de responsabilidades, a jovem continua conquistando todos ao seu redor com seu espírito livre e cativante. Ao lado de sua fiel amiga, Diana Barry, encontra novos espíritos irmãos conforme vai se aproximando cada vez mais da vida adulta, sem deixar para trás suas manias imaginativas e sua facilidade para se envolver em confusões.

Em seu segundo romance, L. M. Montgomery continua conquistando seu público com palavras encantadoras e um enredo bem-humorado. Como não poderia ser diferente em uma história protagonizada por Anne Shirley, a autora segue conduzindo leitores de todas as idades a refletir acerca dos valores que regem nossa sociedade.

Sobre a autora
Lucy Maud Montgomery nasceu na Ilha do Príncipe Eduardo, no Canadá, em 1874. Criada pelos rigorosos avós maternos, encontrou em sua imaginação uma forma de lidar com a solidão de sua infância. Apesar de se dedicar à escrita desde jovem, formou-se professora e atuou na área por alguns anos. Em 1908, estreou como romancista com a publicação de “Anne of Green Gables”, sucesso instantâneo que deu origem a outros livros protagonizados por Anne Shirley. Ao longo de sua carreira, publicou 20 romances, mais de 500 contos e diversas poesias. Faleceu em 1942, aos 68 anos, deixando a Ilha do Príncipe Eduardo imortalizada por meio de suas descrições sensíveis acerca da natureza e do estilo de vida de seus habitantes na época.

Atualizações, Livros

Site organiza “comunidade de leitores” durante pandemia

O Beco Literário, plataforma jovem do Vale do Paraíba, expandiu sua comunidade de leitores para incentivar leituras durante a pandemia

O baixo índice de livros lidos no ano pelo povo brasileiro é uma das nossas maiores mazelas históricas. De acordo com a última pesquisa Retratos da Literatura, desenvolvida pelo Instituto Pró-Livro em 2016, o brasileiro lê uma média de 2,43 livros por ano, e boa parte dessas leituras não chegam perto de ser eficientes para bons debates, já que é o repertório de leituras que contribui para o amadurecimento do pensamento crítico.

Pensando nessa realidade, o Beco Literário, site criado por Gabu Camacho, de São José dos Campos, organizou uma comunidade fechada para incentivo à literatura e ao debate. “Nós chamamos de Beco ‘VIPs’. Os leitores que se inscrevem no site tem acesso a nossa plataforma e podem participar de leituras coletivas, debates engajados e ainda concorrer a prêmios, sem pagar nada por isso”, conta Gabu, que criou o site em 2013.

E o incentivo a literatura com certeza rende bons frutos. Durante a quarentena as pessoas passaram a ter mais tempo livre e muitas não souberam o que fazer com esse tempo. “Tivemos um volume muito alto de inscrições desde o início da pandemia e temos aceitado todas as pessoas. Acreditamos que a leitura precisa ser engajada. O leitor precisa ler o livro, criar conexões e entender além do que está nas páginas”, completa Camacho, que também comemora os mais de 900 membros inscritos na iniciativa Beco VIPs.

Para participar da comunidade, o leitor interessado precisa acessar o www.becoliterario.com e se cadastrar no formulário da página inicial. Todas as outras recomendações são enviadas por e-mail em seguida.

Sobre o Beco Literário

O Beco Literário é uma plataforma de conteúdo jovem criada em 2013 pelo jornalista Gabu Camacho e hoje alcança mais de 3 milhões de leitores em todo o país. O site tem como principal objetivo encurtar distâncias sociais com a literatura, abordando temáticas como autoconhecimento, consumo consciente e a literatura engajada.

Atualizações

“Colocando o tijolo e o cimento, dou um tapa na cara do meu passado”

Oi amô, tô pronta! Tô aqui, na pista. Foi esse um dos primeiros contatos que tive com Igor William Lopes, 29 anos, morador do Conjunto Habitacional Bairro Treze, no Rio de Janeiro. Conheci sua realidade depois que meu namorado me enviou um print de sua história, estampada em um grupo LGBT do Facebook, dando vida a Safira O’hara, uma drag queen pedreira. “Vou respondendo aos poucos, ô Jesus, ô vida. Tô aqui numa loucura, nêgo, pra terminar esse telhado, mas vamo lá!”, disse entusiasmado, mesmo depois de responder às mesmas perguntas inúmeras vezes para jornalistas diferentes.

Igor e sua drag, Safira, ficaram conhecidos em abril de 2019, após a mesma postagem viralizar e rodar o Facebook milhares de vezes. A drag queen pedreira. Várias reportagens nos mais diversos sites. “Isso é algo motivacional. Uma quebra de estereótipos da sociedade, né? Drag pode tudo. Somos seres humanos, somos seres normais. Somos pessoas. Porque não, entendeu? Cada tijolo que eu coloco, é como se eu desse um tapa na cara do meu passado. É isso aí, vamos construir.”, relata emocionado com a possibilidade de inspirar pessoas. E construir sua história sem depender de ninguém.

“Vítima é o caralho. É partir pra cima, entendeu? É meter a mão na massa, botar o tijolo e vambora, vambora.

Igor foi expulso de casa aos 19 anos pelos familiares. Mas, como ele mesmo diz, são coisas do passado, como todo LGBT vive e conhece. Viveu 10 anos morando de aluguel, mas sempre sonhou em ter sua casa própria. “Acho que todo LGBTQI+ tem que ser sua casa própria pra ter suas liberdades, para que sua felicidade possa habitar”, confessa. Na época, já fazia teatro e nele, conheceu a arte transformista. Diz que já era transformista antes mesmo de ser. Foi se apaixonando, descobrindo sua sexualidade e se entregando a arte cada vez mais, dentro do período da expulsão. Mas frisa que não foi por isso. Foi por conta de sua sexualidade. “Aí eu tive que me virar, né? Há 10 anos, só tinha computador na lan house a um e cinquenta. Era você mesmo e se vira”, relembra Igor.

Os dias que vieram depois, não foram nada fáceis, principalmente no começo. “Tive que sair montada de casa, e isso era outro preconceito que eu sofria. Tipo assim, ‘porra, a gente tem que aturar o gay, agora tu tá virando mulé?’. Pensavam que eu tava virando mulher trans e coisas e tal”, conta de queixo erguido.

Candomblecista, o filho de Logunedé, nessa época, morava de aluguel em uma casa de pessoas evangélicas, parceria que não deu certo por muito tempo. Mudou-se após pedirem a casa, e foi em busca de outra, caindo aos pedaços, como William mesmo descreve, porém com aluguel em conta. “Mas eu sonhei em ter minha própria casa, né? E as casas eram num valor acima de setenta mil e eu nunca terei esse valor”, pondera. Mas, se tem uma coisa que Igor e Safira sempre souberam fazer é dar tempo ao tempo. E apareceu Rodrigo Miller, grande amigo, que conseguiu um terreno para eles. “Desde então, eu venho construindo a minha casa. Na vida, a gente não constrói nada sozinho”, ressalta e acrescenta emocionado, “Eu tenho ajuda, e tem histórias que me motivam. Eu vi relatos de mulheres que são pedreiras. Então por que eu também não posso ser? Se elas aguentam o rojão, por que eu não vou aguentar?”

E Igor aguenta. Sua história já chegou em grandes portais de notícia como OGlobo, Uol e Razões para Acreditar. Já recebeu milhares de histórias no Instagram de LGBTs que acreditavam que pedreiro não era profissão para eles. “Eu fiquei muito feliz, porque com isso, eu vi o relato de um menino no Instagram que é auxiliar de pedreiro, e ele chegou pra mim emocionado, falando ‘nossa, tudo bem que eu já imaginava encontrar um gay nessa profissão, mas não uma drag queen… Isso me emocionou muito, porque eu achava que trabalho de gay é cabeleireiro, maquiador, artista, balé, essas coisas assim’. Então é isso, motivar as pessoas. Motivar os LGBTs para eles terem a casinha deles.”, relembra cheio de energia para colocar o próximo tijolo.

Porra, a gente tem que aturar o gay, agora tu tá virando mulé?

Energia que ele transforma para ir pra cima dos desafios, acordando dia após dia, superando todos os seus problemas, depois das injustiças do passado. “Lá no meu trabalho tinha uma menina que o marido dela era pedreiro e ela era ajudante dele, e eles construíram a casa para morar com os filhos. Por que que eu não vou meter a mão? Vou sim. Então é bom que eu colocando o tijolo, colocando o cimento na parede, eu dou um tapa na cara do passado. Porque eu acho que o passado foi muito injusto comigo, entendeu?”, se emociona ao lembrar, mas logo se recompõe dizendo que nós, LGBT, devemos ir para cima. “Vítima é o caralho. É partir pra cima, entendeu? É meter a mão na massa, botar o tijolo e vambora, vambora. Surgiu a oportunidade, agora é construir a casa.”, retruca.

E de fato, Igor William não deixou nenhuma oportunidade escapar. Hoje, mantém uma relação saudável com a mãe, mas cortou laços com grande parte de sua família. “Eles lá e eu cá. Minha mãe não é mais aquela pessoa de 10 anos atrás e nem eu. Ela me apoia e hoje estamos bem melhores, né? As coisas mudam, nada melhor que dar tempo ao tempo”, suspira e finaliza, preocupado. “Espero que você tenha gostado da minha história, que eu tenha te interessado. Estamos aí, tamo junto!”

Sim, Igor! Estamos todos juntos nessa.

Livros

3 livros parecidos com “After”

Eu tenho certeza que você ficou desesperado(a) quando leu a série de livros da Anna Todd e logo correu para o computador buscar mais livros parecidos com After. Te entendo, fiz a mesma coisa!

After é uma série de romance do gênero new adult, publicado em 2014, depois de ser um sucesso de leituras no Wattpad como uma fanfic de One Direction. Ele conta a história da descoberta de Tessa para a vida adulta e seu relacionamento conturbado com Hardin. Cheio de problemáticas reconhecidas por muitos leitores, o livro continua a ser um dos mais lidos do mundo.

Se você gostou de After ou se não gostou tanto assim mas quer dar uma chance para outros livros do mesmo gênero, se liga nessas dicas de livros parecidos:

Trilogia Cinquenta Tons de Cinza, E. L. James

Livros parecidos com After

A estudante de literatura Anastasia Steele, de 21 anos, entrevista o jovem bilionário Christian Grey, como um favor a sua colega de quarto Kate Kavanagh. Ela vê nele um homem atraente e brilhante, e ele fica igualmente fascinado por ela. Embora seja sexualmente inexperiente, Anastasia mergulha de cabeça nessa relação e descobre os prazeres do sadomasoquismo, tornando-se o objeto de submissão do enigmático Grey.

Cretino Irresistível, Christina Lauren

Livros parecidos com After

Uma estagiária ambiciosa. Um executivo perfeccionista. E um relacionamento ardente e totalmente perigoso! Esperta, dedicada, prestes a cursar um MBA, Chloe Mills tem apenas um único problema: seu chefe, Bennet Ryan. Ele é exigente, insensível, sem consideração – e completamente irresistível. Um belo cretino. Bennet acaba de retornar da França para assumir um cargo importante na empresa de comunicações de sua família. Mas o que ele não poderia imaginar era que a pessoa que o ajudava enquanto ele estava no exterior era essa criatura linda, provocadora e totalmente irritante que agora ele tem de ver todos os dias. Ele nunca foi do tipo que se envolve em relacionamentos no ambiente de trabalho, mas Chloe é tão tentadora que ele está disposto a flexibilizar essa regra – ou quebrá-la de uma vez – para tê-la. Por todo o escritório! Mas o desejo que um sente pelo outro cresce tanto que Bennet e Chloe terão de decidir o que estão dispostos a perder para ganhar um ao outro.

O Acordo, Elle Kennedy

Livros parecidos com After

Hannah Wells finalmente encontrou alguém que a interessasse. Mas, embora seja autoconfiante em vários outros aspectos da vida, carrega nas costas uma bagagem e tanto quando o assunto é sexo e sedução. Não vai ter jeito: ela vai ter que sair da zona de conforto… Mesmo que isso signifique dar aulas particulares para o infantil, irritante e convencido capitão do time de hóquei, em troca de um encontro de mentirinha. Tudo o que Garrett Graham quer é se formar para poder jogar hóquei profissional. Mas suas notas cada vez mais baixas estão ameaçando arruinar tudo aquilo pelo qual tanto se dedicou. Se ajudar uma garota linda e sarcástica a fazer ciúmes em outro cara puder garantir sua vaga no time, ele topa. Mas o que era apenas uma troca de favores entre dois opostos acaba se tornando uma amizade inesperada. Até que um beijo faz com que Hannah e Garrett precisem repensar os termos de seu acordo.

Função da literatura
Livros

Qual é a função da literatura?

A literatura tem uma função principal de caráter político e transformador. Ela é capaz de colocar o leitor para pensar no mundo em que vive, moldar seus hábitos, faze-lo pensar de forma mais abrangente…. A literatura tem muitas funções e para entendermos todas elas, precisamos voltar um pouco no tempo.

Literatura com função hedonística e catártica

Os gregos antigos acreditavam que a função da literatura era de ser hedonística e catártica. Hedonística porque ela proporcionava prazer, retratava o belo. O belo, por sua vez, era a semelhança da obra de arte com a realidade. Quanto mais próximo, mais belo.

Já a concepção catártica vem do papel em que as tragédias tinham na sociedade grega. As tragédias são tipos de textos que são, basicamente definidos por dois conceitos: a mimese, que desperta terror e piedade no público e a catarse, que alivia esses sentimentos despertos. As tragédias aliviavam as tensões e os conflitos do mundo grego e por isso, eles acreditavam que essas eram as principais funções da literatura, como arte.

Claro que esses conceitos desapareceram na modernidade, mas a literatura como arte ainda cumpre o papel de causar prazer e aliviar tensões da vida humana. De acordo com o teórico russo Chklovski, a literatura provoca um estranhamento em face da realidade, como se saíssemos do automático e passássemos a ver o mundo com outros olhos.

Literatura com função de comunicação

A literatura é linguagem, então exerce um papel comunicativo na sociedade em que vivemos. Pode influenciar o público ou ser influenciada por ele.

O leitor de um texto literário não é um ser passivo. De acordo com o pensador russo Mikhail Bakhtin, mesmo estando em um tempo histórico diferente do contexto de produção da obra, o leitor também recria e atualiza seus sentidos de acordo com o que lê.

Também no contexto de criação da obra, o autor é influenciado pelo perfil do público que tem em mente e isso se reflete nos temas, valores e tipo de linguagem que escolhe.

Literatura com função individual e social

Segundo o escritor Guimarães Rosa, a literatura é feitiçaria que se faz com o sangue do coração humano, ou seja, a literatura é a expressão das emoções e reflexões do ser humano.

“Escrever é um processo químico; o escritor deve ser um alquimista. (…) A alquImia do escrever precisa de sangue do coração. Para poder ser feiticeiro da palavra, para estudar a alquimia do sangue do coração humano, é preciso provir do sertão.”

– João Guimarães Rosa, em entrevista a Günter Lorenz – “Dialogo com Guimarães Rosa”.

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livros como anne frank
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3 livros para quem gostou de “O Diário de Anne Frank”

O Diário de Anne Frank é um livro conhecido mundialmente como um dos registros mais fiéis do que foi a Segunda Guerra Mundial. As histórias, narradas pela adolescente Anne Frank, conquistaram o coração e os leitores ao redor de todo o planeta, causando comoção ao entender a visão de uma garota judia em um dos massacres mais sangrentos da história da humanidade.

No dia 6 de julho de 1942, Anne e sua família chegavam no anexo secreto, onde viveram escondidos dos nazistas até 1944. Hoje, fazem 78 anos que a família Frank largava tudo para trás para tentar sobreviver. De todos, apenas Otto Frank, seu pai, conseguiu.

O Diário de Anne Frank é um relato intimista que nos mostra uma face da Segunda Guerra Mundial que é desconhecida pelos livros de história. Mas é preciso conhecer todas as faces para que isso nunca mais se repita, por isso, trouxe mais três indicações de livros ambientados na mesma época para que você se engaje ainda mais com esse momento histórico.

O menino do pijama listrado

Bruno tem nove anos e não sabe nada sobre o Holocausto e a Solução Final contra os judeus. Também não faz idéia que seu país está em guerra com boa parte da Europa, e muito menos que sua família está envolvida no conflito. Na verdade, Bruno sabe apenas que foi obrigado a abandonar a espaçosa casa em que vivia em Berlim e a mudar-se para uma região desolada, onde ele não tem ninguém para brincar nem nada para fazer. Da janela do quarto, Bruno pode ver uma cerca, e para além dela centenas de pessoas de pijama, que sempre o deixam com frio na barriga. Em uma de suas andanças Bruno conhece Shmuel, um garoto do outro lado da cerca que curiosamente nasceu no mesmo dia que ele. Conforme a amizade dos dois se intensifica, Bruno vai aos poucos tentando elucidar o mistério que ronda as atividades de seu pai. O menino do pijama listrado é uma fábula sobre amizade em tempos de guerra, e sobre o que acontece quando a inocência é colocada diante de um monstro terrível e inimaginável.

Depois de Auschwitz: O emocionante relato de uma jovem que sobreviveu no Holocausto

Em seu aniversário de quinze anos, Eva é enviada para Auschwitz. Sua sobrevivência depende da sorte, da sua própria determinação e do amor de sua mãe, Fritzi. Quando Auschwitz é extinto, mãe e filha iniciam a longa jornada de volta para casa. Elas procuram desesperadamente pelo pai e pelo irmão de Eva, de quem haviam se separado. A notícia veio alguns meses depois: tragicamente, os dois foram mortos.
Este é um depoimento honesto e doloroso de uma pessoa que sobreviveu ao Holocausto. As lembranças e descrições de Eva são sensíveis e vívidas, e seu relato traz o horror para tão perto quanto poderia estar. Mas também traz a luta de Eva para viver carregando o peso de seu terrível passado, ao mesmo tempo em que inspira e motiva pessoas com sua mensagem de perseverança e de respeito ao próximo – e ainda dá continuidade ao trabalho de seu padrasto Otto, pai de Anne Frank, garantindo que o legado de Anne nunca seja esquecido.

A menina que roubava livros

Entre 1939 e 1943, Liesel Meminger encontrou a Morte três vezes. E saiu suficientemente viva das três ocasiões para que a própria, de tão impressionada, decidisse nos contar sua história, em “A Menina que Roubava Livros”, livro há mais de um ano na lista dos mais vendidos do “The New York Times”. Desde o início da vida de Liesel na rua Himmel, numa área pobre de Molching, cidade desenxabida próxima a Munique, ela precisou achar formas de se convencer do sentido da sua existência. Horas depois de ver seu irmão morrer no colo da mãe, a menina foi largada para sempre aos cuidados de Hans e Rosa Hubermann, um pintor desempregado e uma dona de casa rabugenta. Ao entrar na nova casa, trazia escondido na mala um livro, “O Manual do Coveiro”. Num momento de distração, o rapaz que enterrara seu irmão o deixara cair na neve. Foi o primeiro de vários livros que Liesel roubaria ao longo dos quatro anos seguintes. E foram estes livros que nortearam a vida de Liesel naquele tempo, quando a Alemanha era transformada diariamente pela guerra, dando trabalho dobrado à Morte. O gosto de rouba-los deu à menina uma alcunha e uma ocupação; a sede de conhecimento deu-lhe um propósito. E as palavras que Liesel encontrou em suas páginas e destacou delas seriam mais tarde aplicadas ao contexto a sua própria vida, sempre com a assistência de Hans, acordeonista amador e amável, e Max Vanderburg, o judeu do porão, o amigo quase invisível de quem ela prometera jamais falar. Há outros personagens fundamentais na história de Liesel, como Rudy Steiner, seu melhor amigo e o namorado que ela nunca teve, ou a mulher do prefeito, sua melhor amiga que ela demorou a perceber como tal. Mas só quem está ao seu lado sempre e testemunha a dor e a poesia da época em que Liesel Meminger teve sua vida salva diariamente pelas palavras, é a nossa narradora. Um dia todos irão conhece-la. Mas ter a sua história contada por ela é para poucos. Tem que valer a pena.

Montanha russa
Autorais

Autoria: Montanha russa, por Gabu Camacho

Nota de início: Montanha russa foi escrito há muitos anos. Mais de cinco. Ele está presente no primeiro livro, O garoto que usava coroa, mas diferente por lá. Na época em que o livro foi escrito, eu ainda não tinha me assumido LGBTQIAP+ e tive medo de entregar um texto explicitamente LGBTQIAP+ para ser publicado. Apesar do livro ser todo sobre essa temática, de forma mais sutil, eu tive medo na época e por isso, fiz a Stephenie Meyer e troquei o gênero dos personagens. Essa aqui é a versão real. Boa leitura!

Afiadas são as flechas de um coração partido.
— Cassandra Clare, “Cidade do Fogo Celestial”.

Minha animação estava ridiculamente alta. Minha avó havia me chamado para dormir em sua casa neste fim de semana que precedia o natal, afinal, meu primo Matthew chegaria com seu pai Pily do interior, na madrugada. Segundo ela, nós éramos grandes amigos na infância, eu não me lembrava disso, só me lembrava dele, e da sua presença onipresente em meu Facebook.

— Ele disse estar ansioso para te ver, Edmundo. E vocês podem aproveitar o parque de diversões aí na frente. Tudo bem se ele ficar no seu quarto? – Minha vó era muito preocupada em acomodar bem as pessoas.

— Tudo bem sim, vó. – Concordei rapidamente e voltei meu olhar para a janela, que dava numa movimentada avenida, e além dela, havia um terreno baldio, do tipo que circos e parques de diversões se instalavam em datas sublimes. Um parque estava lá agora, e eu via crianças felizes com seus ursos enormes e outras mais felizes ainda com pequenas bolinhas pula-pula.

— Bom, podemos dormir. Quando chegarem, saberemos. Já deixei o café pronto. – A preocupação pelo bem estar era uma coisa que me fascinava na minha avó. Apenas acenei em concordância e segui para o meu quarto, fechando a porta. Tinha duas camas, uma box de casal e outra de solteiro. Deixei-a preparada para Matthew, meu primo, que apesar de exalar uma aura mais velha, tinha quase a minha idade.

Sentei-me a beira da minha cama, olhando para o nada, enquanto retirava o meu colar cujo pingente era uma chave, do pescoço, e me deitei rapidamente olhando para o teto. Peguei no sono em algum momento despercebido, mas pareceu apenas um piscar de olhos quando uma buzina irrompeu em minha mente. Chegaram.

Um micro-ônibus estava parado em frente à casa da minha avó, com todos da família do interior descendo, gradualmente. Ela e meu avô estavam emocionados pela surpresa e eu estava ao canto, com meu cabelo negro desgrenhado cobrindo os olhos, esperando por um rosto que pudesse ser conhecido.

— ED! Como você está lindo, garoto! – Era minha tia Lucie, com seu jeito todo espevitado. Era uma das únicas que gostava e realmente conhecia do interior.

— Ahn, obrigado tia… – Mas ela já tinha saído para abraçar as pessoas entre si. Entrei na casa e me sentei no canto do sofá, querendo me tornar invisível enquanto tentava não ser mal educado e voltar para o quarto. Coloquei a mão involuntariamente no meu pingente de chave, já havia se tornado algo que lhe trazia calmaria.

— Hmm, oi? – Reconheci seu rosto imediatamente. Queimava em vermelho, parecia estar tímido, assim como eu.

— Oi, Matthew. Como está? Tio Pily, oi. – Levantei-me do sofá e abracei ambos. Matt tinha um cheiro masculino adocicado, meu tio cheirava a álcool.

— Grande homem, Ed. Pode ajudar Matthew com as malas e mostrar onde ele deve dormir? Já está com sono. – O tom dele não transmitia orgulho.

— Claro. Vamos, Matt… Matthew. – Droga, estava corando e nem sabia o porquê.

Pegou a maior mala e seguiu o corredor até seu quarto, nos fundos, onde se sentou na cama mais uma vez.

— Quer dar uma volta? – Eu estava ciente da hora, mas o parque de diversões ainda estava aberto.

— Claro. – Ele passou a mão nos seus cabelos negros, que se misturavam arrepiados de maneira preguiçosa.

Atravessamos a rua e fomos juntos para o parque, conversando sobre coisas aleatórias. Dez minutos depois, já éramos melhores amigos de infância. Matt tinha um jeito de criança, no portar assim como no pensar. Parecia um bebê em corpo de adolescente de dezessete anos, e era isso que talvez houvesse me cativado.

— Quero uma bolinha pula-pula do Homem Aranha. – Ele disse certa hora, olhando para mim.

— Vou conseguir uma pra você. – Eu sorri, mas perdi todo meu dinheiro tentando acertar o alvo, e ainda assim não havia conseguido o prêmio. Matt parecia desapontado, mas seguimos para minha avó, mais uma vez. Todos já dormiam, então fomos para fazer o mesmo. Deitei na grande cama de casal e acordei no dia seguinte, já de tardezinha, com meus braços apoiados em um saco que parecia respirar…

Não era um saco. Era Matthew.

Levantei-me silenciosamente e coloquei meu celular na tomada, depois de tirar uma foto do rosto inocente que havia passado a noite ao seu lado. Comecei a me sentir mal desde então, odiava me apegar às pessoas. Eles sempre iam embora, depois. O celular vibrou com a chegada do conselho diário:

Você pode estar em um relacionamento por dois anos e não sentir nada. Você pode estar em um relacionamento por dois meses e sentir tudo. Tempo não é uma grandeza de qualidade, de paixão ou de amor.

Sorri pro meu primo deitado na cama e fui tomar café, com as mãos para dentro da manga longa do pijama comprido.

— Quer voltar ao parque? – Matt chegou pouco tempo depois na mesa de café. — Podemos ir à montanha russa hoje.

— Claro que sim! – Eu estava adorando passar tempo sozinho com Matthew, nossas conversas eram únicas e parecíamos ser irmãos. Isso me deprimia. Sabia que logo depois ele voltaria para a cidade e então, nunca mais nos veríamos.

Nós fomos, brincamos, corremos. Matthew conseguiu uma bolinha do Homem Aranha e logo voltou para a casa. Fiquei no parque mais uns minutos, queria um presente mais especial para ele. Quando voltei, a casa era só berro.

— DELINQUENTE! NÓS VOLTAREMOS PARA CASA AINDA HOJE! – Era meu Tio Pily.

— Calma, Pily… Não precisa tratar o garoto assim. – Minha vó estava calma.

Entrei correndo na casa, mas fui impedido pelos meus pais na cozinha, para chegar até a porta.

— Ed, pegue suas coisas. Estamos indo embora. – Minha mãe soava séria.

— Devo falar com Matt antes?

— Claro, Edmundo. – Meu pai estava compreensivo, como sempre ocorria quando se tratava de sua família.

Entrei no banheiro, mas Matthew não estava para conversa, então logo saí e voltei ao quarto, em prantos, fingindo arrumar minhas coisas, enquanto caçava por um pedaço de papel. Estavam gritando para que eu fosse embora, quando meu tio esmurrava a porta do banheiro querendo que Matt saísse. Tirei meu colar de chave, envolvi em um papel e escrevi no meu garrancho:

Chave para os seus sonhos.

Deixei onde sabia que ele veria, e fui embora. Não sabia o que significava aquele gesto, mas agora não importava mais.

Então, fui embora convicto de que Matthew jamais veria minha carta.

Convicto de que jamais veria Matthew novamente.

Convicto de que meu melhor primo jamais abriria os olhos novamente.

Convicto, de que Matthew havia se suicidado no banheiro da minha avó.

Autorais

Uma crônica sincera sobre acreditar

Eu nunca acreditei muito em mim mesmo. Apesar de saber disso, afinal, eu é quem não acreditava, eu só me dei conta agora. Sim, agora. Terminar a faculdade é uma jornada de autodescoberta tremenda. Começar a faculdade também é.

Quando saí do ensino médio, minha mãe deixou que eu ficasse seis meses em casa, decidindo o que eu queria ser e descansando um pouco. Ela sabia que eu tinha dado tudo de mim estudando de forma integral por três anos, com um técnico em informática junto.

Nesse meio tempo, eu criei um blog. O Ink Nightmare, que veio a ser o Beco Literário depois. Não sei de onde veio o nome, só veio. Eu me dediquei a literatura nesse tempo. Acabei entrando em Engenharia depois. Não tinha uma única pessoa, um único dia que não tenha me dito que eu estava desperdiçando meu talento naquela faculdade. Troquei para Jornalismo. O Beco Literário cresceu. Era o projeto da minha vida.

Eu sonhava em escritórios enormes, pessoas trabalhando e uma super empresa… de literatura. Conheci muita gente. Confiei em muita gente. Tentei de todas as formas fazer o Beco “acontecer” como empresa. Nunca implementei uma ideia que tenha sido genuinamente minha. Sempre tinham interferências no caminho.

O Beco entrou pelo beco escuro e se perdeu. Hoje vejo que era óbvio que isso aconteceria. Na época, eu ainda não sabia. Desisti de tudo inúmeras vezes. Eu não quis mais saber.

Falei para todo mundo que o Beco Literário faliu. Fechou. Que eu nunca mais ia voltar. Eu tinha vergonha dele. Achava que não me encaixava naquilo. Fiquei quase um ano com ele fechado, achando que era definitivo.

E da mesma forma que as coisas deram errado antes, continuaram dando “errado” depois. Nunca consegui cancelar a hospedagem, fechar o site, excluir as redes…. Nunca deixaram de me chamar de “Gabu Camacho do Beco Literário”, mesmo me enveredando por outro nicho. Era parte de mim.

Todo mundo acreditava no Beco mais que eu mesmo. Nem todos de forma positiva. Alguns eram gananciosos e com olhar de inveja. Mas acreditavam. Todos, menos eu.

Todo mundo me desencorajava com ele e eu resolvia parar, mas ao mesmo tempo o mundo não deixava com que eu parasse…. Impasse. Havia algo que eu precisava transpor.

O acreditar. Acreditar em mim mesmo. Acreditei e cá estou eu, tentando de novo. Dessa vez, 100% do meu jeito. Como eu acredito que deva ser. Se não der certo, pelo menos, eu sei que a culpa é minha agora.

Mas eu acredito, pela primeira vez, eu acredito.

Autorais, Livros

Conto: Pronome relativo invariável, por Gabu Camacho

Se eu me perdi em outros lábios, foi pra te prender me odiando. Foi um grito, ainda te espero pra escrever latino-americano. Eu tento, mas nunca me lembro do que eu era antes de você….

– “:( (Nota De Voz 8)”, Jão

O ensino médio não é aquilo que a gente espera. Desde que comecei, quase dois anos atrás, minha vida virou de cabeça pra baixo. Me mudei para os dormitórios da escola. Sim, eu nem sabia que a escola tinha dormitórios. Eram pequenos apartamentos, em que eu era obrigado a dividir com mais dois meninos e mais três meninas. Cada um tinha seu quarto, mas as áreas comuns eram um verdadeiro inferno.

Prazer, me chamo Filipe. Moro com Marcela, Ariana e Yuko, três meninas da minha sala e com João e Guilherme, dois meninos do terceiro ano. Marcela tem a minha idade, 17 anos, Ariana e Yuko devem estar perto dos 19. As duas começaram a namorar no final do primeiro ano e desde então viraram uma coisa só. Aparecem em casa só para dormir e de vez em quando, dar um oi para a gente. João tem 23 anos e está tentando a carreira de músico. Ele repetiu os últimos semestres por conta disso, e por isso ainda não conseguiu se formar. Ele começou a namorar recentemente com Guilherme, que deve ter uns 20. Não me dou muito bem com ele, nem Marcela. De família rica, seus pais já produziram shows de vários artistas famosos como Ivete Sangalo, RBD e Demi Lovato. Acho que ele usa isso para aproximar João dele.

– E aí, cóe a boa para o final de semana? – Marcela interrompeu meu diálogo interno, se sentando no sofá amarelo ao lado do meu. Cores da escola, que me dão nervoso.

– Nenhuma. Eu acho que quero ficar em casa mesmo. – Falei, olhando para as minhas mãos, torcendo para que ela não percebesse. Mas ela percebeu.

Ihhh, tem coisa aí! Me conta! – Ela sorriu, se ajeitando no sofá e olhando para o meu rosto, se sentando em cima das próprias pernas cruzadas.

– Ah, não é nada…. – Hesitei, sentindo meu rosto arder. Droga, eu devia estar corando.

Huuuum, você está vermelho. Desembucha! – Marcela era a minha melhor amiga. Na nossa situação atual, eu só podia confiar nela e ela em mim. O resto dos nossos amigos (ou parceiros de casa) estavam namorando entre si.

– Ontem o João chegou de um show, sozinho…. E eu estava acordado. ­– Comecei, com a voz baixa, mesmo sabendo que não tinha ninguém em casa além de nós dois.

AI MEU PAI! E aí? – Ela gritou.

– Calma! – Eu ri. – Nós ficamos conversando sobre planos futuros, sobre a vida. A gente já fazia isso quase todo dia antes do… bom, antes do Guilherme e ele acontecerem, sabe… – Falei com dificuldade. Marcela olhou para mim desconfiada.

Arrã.

– Ontem ele dormiu, no meu colo. Eu estava fazendo cafuné no cabelo dele. ­– Falei rápido demais, me arrependendo logo em seguida. Agora que eu tinha falado em voz alta, aquilo parecia mais real.

– JESUS, o Guilherme vai surtar se descobrir! – Ela mudou de postura. – Mas achei fofo, vocês combinam. – Ela sorriu.

– É, eu gosto dele, mas… – Comecei de novo, mas a porta de casa escancarou em um baque ensurdecedor.

– Ah, você está aí! – Era Guilherme, apontando para mim. Ele era magro, bem magro, daquele jeito feio. Muito alto, com cabelo espetado para cima, castanho claro e com luzes loiras na ponta. Muito branco. O tipo de pessoa que tinha tudo para ser bonita, mas por alguma ironia do destino saiu feia. Tremi. Marcela assumiu sua pose de pavão pronto para a briga. Ela era barraqueira.

– Que foi? – Consegui falar, baixo demais para o que eu queria.

– Como assim, o que foi? – Ele riu, irônico. – Fica longe do João, ouvindo? – Ele apontou o dedo para mim. – Eu vou dar um futuro pra ele como músico. Meus pais já estão tramando tudo. Além disso, a gente se ama. Não preciso de um pirralho no meu caminho.

– Pirralho? Se enxerga aí, Guilherme! – Marcela falou, rindo dele. – Se o Filipe é uma ameaça pra você, mesmo com tudo isso aí… – Ela gesticulou, se referindo a ele e suas posses milionárias que ele fazia questão de colocar em qualquer assunto que falasse. – Talvez não tenha tanto amor assim.

Nesse momento, eu vi seus olhos crescerem como fogo. Um lampejo de raiva passou pela sua face dura e eu podia jurar que ele ia avançar para cima de nós dois de uma vez só e dar uma surra. Mas não. Ele virou de costas e saiu, batendo a porta e os pés.

– Porra, o que o João vê nesse menino? – Desabafei, me sentando no sofá de novo, sem reparar que eu havia levantado.

– Interesseiro o João não é, tenho certeza. Mas eles fazem muito barulho de madrugada. – Marcela riu, mas o comentário dela me atingiu como uma faca na boca do estômago. Senti vontade de chorar, mas me limitei a levantar e ir para o meu quarto, enquanto Marcela foi para a cozinha, lavar a louça.

Peguei meu celular e liguei para a Ariana. Ela poderia me ajudar em uma coisa que eu precisava muito.

– Ari? Oi, sou eu. Filipe. – Falei, assim que ela atendeu no terceiro toque.

– Fala, Fi! Precisa de alguma coisa? – Sua voz estava preocupada. Eu nunca tinha ligado antes.

– Preciso saber se tudo o que o Guilherme fala que fez é verdade. Pode me ajudar? – Minha voz estava mais desesperada que eu gostaria. Mas sei que Ariana e Yuko eram um túmulo e sabiam muito de computadores. Poderiam rastrear a vida dele em segundos.

– Podemos. Yuko também dentro. Exposição é com a gente mesmo. – Senti uma pontada de esperança dentro de mim.

– Beleza. Obrigado, Ari. – Falei, mais aliviado. – Vou cuidar do resto, beijo. – Desliguei o telefone e voltei para a sala, no balcão que a separava da cozinha.

– Cela, pode alugar a tela e o Datashow da escola e trazer aqui em casa hoje? Quero fazer uma noite do cinema. – Falei, cínico, esperando que ela comprasse minha ideia. – Ari e Yuko vão estar com a gente. Vou convidar o Jô.

– Jô, hein? Que fofo. – Ela disse, olhando para mim enquanto secava um prato. – Deixa comigo que eu já busco. O Robson vai liberar. – Ela sorriu maliciosamente. Marcela estava pegando o professor Robson já tinha uns três meses. Saí da sala e voltei para o meu quarto, pensando em continuar meu plano.

Liguei para João.

– Jô? Oi! Sou eu, Filipe! – Ok, agora minha voz estava mais entusiasmada que o necessário. – Pode falar?

– Claro, Fi. Manda! – Sua voz era serena, tranquila. Guilherme não deveria estar por perto.

– Estamos organizando uma noite do cinema hoje aqui em casa. Com Datashow e tudo. Bora? A gente te espera. – Falei, tentando passar a sensação de que não me importava tanto assim com a presença dele.

– Ah, Fi, obrigado! – Sua voz ponderava e ficou em silêncio por alguns minutos.

– Pode chamar o Gui, também, claro. – Falei, com toda a falsidade que habitava em mim, para que ele não descobrisse o que tinha acontecido hoje mais cedo.

– Estarei aí. – Ele respondeu finalmente e fez silêncio de novo. – Guilherme não vai, não.

– Aconteceu algo? – Minha preocupação era genuína.

– Te conto de noite. Um beijo.

– Outro. – Respondi, delirando, ao mesmo tempo em que desliguei o celular e Marcela abriu a porta do meu quarto de forma abrupta.

tudo aí. – Ela disse. – Vamos fazer nossa ceia de Natal hoje? Eu preparo as comidas. ­– Rolê para a Marcela não era rolê sem comida e daqui a algumas semanas era no Natal de verdade. Todo mundo iria para a casa dos pais assim que as aulas terminassem e só voltaríamos a nos ver no próximo ano. Alguns, com sorte, não veríamos mais.

Bora! – Respondi, gostando da ideia de verdade. – Vou procurar minhas luzinhas para enfeitar tudo. – Eu adorava luzes de Natal.

– VOCÊ É TÃO GAY! – Ela disse, jogando os braços para cima, rindo e fechando a porta do meu quarto. Meu celular começou a tocar. Era Ariana.

– Fi? – Ela falou, quase na mesma hora em que apertei aceitar.

– Oi. – Respondi, aflito.

– Conseguimos algumas coisas. A família do Guilherme não trabalha com música. Na verdade, eles têm um bufê de casamento. – Ela começou a falar e me senti aliviado, ao mesmo tempo em que algo dentro de mim realmente se sentia mal. E se Marcela tivesse razão? E se João realmente gostasse do Guilherme? Se ele não estivesse nessa só por desespero ou interesse de fazer sua carreira musical acontecer? – Além disso, eles são bem conservadores. Tem uma foto que mostra o Gui ao lado de uma menina, dizendo que eles são prometidos um para o outro. – Ok, esse era um bom material.

. Achei ótimo. Mas será que consigo expor ele com isso? – Ponderei.

– Só com isso, não tenho certeza. – A voz de Ari era séria. – Mas Yuko ligou para ela. Eles têm casamento marcado para depois do Natal, depois que o Guilherme terminar a escola.

– ISSO SIM É MARAVILHOSO! – Gritei. – Acha que consegue me mandar tudo isso pra eu editar nosso filme de hoje a noite? – Ri de forma maliciosa.

– A noite estarei aí, com o DVD. Deixa a pipoca pronta. – Ariana era escorpiana, assim como eu, só um pouco mais vingativa pelo ascendente em áries.

– Marcela vai fazer ceia de natal. – Respondi, aliviado.

– Amei. Beijos. – Ela desligou antes que eu pudesse responder.

O resto do dia passou arrastado. Deixei minhas luzes separadas, ajudei Marcela com as comidas da ceia de Natal e estava tudo pronto quando Ariana e Yuko chegaram. Só faltava o João.

– Olá, sumidas! – Marcela disse, comemorando, dando um beijinho em cada uma. Segui o gesto.

– Migo, aqui está o devê – Yuko me entregou uma capinha azul com um CD dentro. Ela era chinesa, ainda estava aprendendo a falar as palavras em português.

– Deu tudo certo? – Eu perguntei, apreensivo, olhando para as duas.

– Deu. – Ariana respondeu, seca.

Que que tá rolando? – Marcela entrou no meio da gente, com seu sotaque carioca.

– Vamos expor alguns hoje. – Sorri, de forma maliciosa.

– QUEEEEE? – Ela surtou. – E você nem disse nada! Traidor. – Achei que ela estava brava de verdade, até que explodiu em gargalhadas. – Mal posso esperar.

João chegou logo em seguida, sozinho. Seu cabelo preto estava um pouco desgrenhado, enrolado. Estava sem barba. Seus olhos eram negros feito jabuticaba e seu rosto era muito branco e angelical. Sua voz deveria ser linda cantando.

– Oi. – Eu disse, tímido.

– E aí? – Ele respondeu, meio desanimado. – tudo bem com você? – Sua preocupação parecia genuína.

– Está. Por quê? – Falei, preocupado, ao mesmo tempo em que me toquei que sequer tinha trocado de roupas.

– O Gui disse que passou por aqui hoje a tarde e você estava abalado… – João falou, sério. Eu ponderei e resolvi que não falaria nada para ele. Mas era tarde demais. Marcela já tinha começado a falar.

– O Guilherme é surtado! – Ela gritou. O semblante de João ficou duro, bravo. – Veio aqui hoje a tarde e falou poucas e boas para o Filipe. Acabou com ele, por sua causa, João… e tem mais!

– Marcela, para! – Gritei, e ela percebeu que tinha falado demais.

– Isso é verdade, Filipe? – Ele olhou fundo nos meus olhos. Não respondi. – Isso aqui é algum tipo de pegadinha contra meu namoro? – Ele estava mal-humorado agora. – O Guilherme jamais faria isso! Ele é uma pessoa boa e está me ajudando muito, ao contrário de todos vocês, que sempre me tacharam como um relé repetente! Ele acredita no meu talento! ­– João estava vermelho, de tanto gritar.

– João, eu acredito em você…. – Comecei, mas era tarde demais. João estava com lágrimas nos olhos.

– Não, não acredita. Ninguém acredita! – Sua raiva era misturada com frustração. – Não quero ficar para a tal ceia e cinema…. – Ele se virou para sair do apartamento, mas Ariana e Yuko foram mais rápidas. De repente, a luz da casa estava apagada e o telão exibia cenas dos pais de Guilherme falando do seu trabalho para um vídeo do Youtube.

“Olá! Somos Antônia e Augusto, donos da Casamenteria, o melhor bufê de casamento do Brasil. Estamos há mais de 30 anos no mercado….”

O semblante de João parou, incrédulo. O vídeo continuou e se transformou em um clipe de prints e fotos. Os pais de Guilherme montando casamentos. Fotos em família. Guilherme e uma menina da sua idade. O print mostrando que eles se casariam no final do ano.

– O que…. Não entendo. Isso é montagem? – João olhou para mim, como uma criança indefesa. Antes que eu pudesse responder, o vídeo se transformou em uma tela de ligação do Skype, que mostrava Yuko e Ariana em uma telinha pequena, ao canto, e a garota da foto, falando na tela, maior.

“Sim, nós vamos nos casar após o Natal. Estou grávida de Guilherme….”

Neste momento, João saiu do seu estado de estupor e deixou o apartamento. Fui atrás e o encontrei sentado no chão, perto da janela do hall de entrada.

– Ei, Jô. – Falei, em pé, antes de me ajoelhar. – Você está bem?

– Estou, Fi. – Sua voz era fofa, como sempre. Não parecia estar com raiva de mim. – Como eu pude ser tão burro? Tão interesseiro? – Ele falava alto, enquanto chorava.

– Você não é nada disso. – Falei.

– Sou sim. Eu nem amo o Guilherme. Ele ia me ajudar e eu entrei nesse relacionamento, mesmo gostando de outra pessoa, e…. – Ele percebeu que falou demais e parou, com a cabeça apoiada nos joelhos dobrados.

Guilherme saiu do elevador e se assustou com a cena. Ele empalideceu e avermelhou, em frações de segundos.

– Que palhaçada é…. – Ele começava a falar, mas João se levantou, na altura do seu rosto e o interrompeu.

– Eu é que te pergunto, Papai. Achou que ia me enganar por quanto tempo? – João gritou. – Achou que eu não ia encontrar na internet? Que eu não ia descobrir que você nunca teve nada relacionado a música na sua família? – Guilherme se desarmou.

– É, tem razão. Fui um idiota. – Sua voz parecia ter uma pitada de arrependimento. – Me deixa explicar, João. Eu sou um fodido. Mas eu gosto de você de verdade, eu quero te ajudar…. – O arrependimento se transformou em desespero.

– Fora daqui. Agora. – João esticou o braço para o elevador. Eu fiquei parado, perto da parede oposta. Guilherme olhou com raiva para mim e entrou no elevador. João se jogou no chão mais uma vez.

– Estou aqui. – Falei baixinho.

– Eu sei, você sempre está. ­– Ele voltou a chorar. Eu o abracei, de uma forma desajeitada, enquanto tentava consolar. – É por isso que eu deveria ter ficado com você, desde o início. ­– A frase saiu, sem que ele permitisse.

– Comigo? – Falei, confuso.

– É. Eu amo você, Filipe. Desde que você chegou nessa casa. – Fiquei confuso. Pela manhã, João era só um sonho distante. Pela noite, ele estava se declarando para mim.

– Calma, você está confuso. – Falei, incrédulo. – Posso ir ali dentro buscar uma coisa? – João assentiu.

Me levantei e entrei no apartamento. As meninas estavam na cozinha, como se nada tivesse acontecido. Peguei meu conjunto de lâmpadas de Natal, embolei na mão e troquei de roupa. Levei as luzes acesas para fora, onde João estava sentado da mesma forma, com a cara de choro, olhando para mim.

– Vamos começar do zero. – Falei.

– Eu adoraria. – Ele respondeu, sorrindo, em meio ao seu rosto vermelho e sua voz de choro. – Vem, me abraça de novo. – Corri, com as luzes vermelhas iluminando meu rosto e as coloquei no chão, para que pudesse iluminar seu rosto angelical também. Ele abriu seu braço e eu me sentei dentro deles, no chão, ao seu lado. Passei meu braço pela sua barriga, abraçando-o, colocando meu rosto na altura do seu coração. – Você me abraçou assim para me cumprimentar quando chegou em casa, lembra?

– Lembro. Gosto de cumprimentar com abraços. – Falei, tímido.

– É. Estou bem informado sobre isso. – Ainda saíam lágrimas dos seus olhos. – Vamos… com calma?

– Arrã. – Falei, sem me soltar do abraço, apertando um pouquinho mais. – Prazer, eu sou Filipe.

– Muito prazer, Filipe. Este chorão aqui é o João. – Ele sorriu com os olhos.

– Prazer, João. – Falei, com minha boca bem próxima da dele.