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Gabu Camacho

Aquilo (não) foi real
Autorais, Livros

Aquilo (não) foi real

“Pode parecer que não, mas eu tô com saudade”, e eu também estava. E meu coração palpitava ao ler isso. Dava aquele famoso pulo e ameaçava sair pela boca. Mas não ia admitir, não podia, óbvio que não.

Mas então, te vi de longe e o sorriso apareceu sozinho, abriu, como o sol abre após a chuva. E minhas pernas aumentaram o ritmo, sem que eu pedisse. Simplesmente foram, e eu não tentei impedir. Fui, me deixei.

Te abracei, então. Seu braço ao redor da minha cintura naquele pufe dentro da biblioteca antiga. Sua letra parecida com a minha na ficha branca. “Deita aqui”, era a deixa que eu precisava e hoje penso que eu parecia um cachorro. Deitei apoiando no seu braço e de repente eu estava de novo no país das maravilhas, me perdendo mais uma vez. Me perdendo e perdendo… E você sabia.

+ Entre as nuvens cinzas de paranóia

E o beijo logo depois, com seu gosto, aquele gosto que eu era incapaz de esquecer ou encontrar em qualquer outra boca. Porque era único, exclusivo. Tudo único. E então, você me puxa pela mão por entre as árvores com poucas folhas por conta do inverno. Eu parecia um boneco nos seus braços. O chão também estava cheio delas, secas pelo frio. Os coelhos brancos e pretos saltitavam ao redor. Os patos, observavam como os cúmplices que jamais me fariam esquecer de que aquilo havia sido real, apesar de eu preferir que tivesse sido apenas um devaneio erótico e doido da minha mente.

Eu havia finalmente chegado ao país das maravilhas, estava perdido nele, fingindo que seria eterno, ou eternamente numerado, limitado. Sabendo que, apesar de perdido ali, era só um escape da minha realidade inútil. Do real nojento.

Os coelhos dali observavam ainda, cúmplices de que aquilo era real e não algo da minha cabeça. Mais provas de que nunca me deixariam esquecer por mais que eu quisesse. Cúmplices de que eu estava, mais uma vez, me deixando perder nas suas linhas tão cuidadosamente escritas do país das maravilhas.

Embaixo daquela árvore, nada mais importava, de qualquer jeito. Nada. Só o que eu estava concluindo, como um fotógrafo de retratos.

Sempre disse que amava fotos porque elas eram a prova de que tudo era perfeito, mesmo que por um milésimo de segundo. Mas, além delas, as nossas lembranças provam isso. Ou tentam. A lembrança primitiva é da sensação boa, que aos poucos é envenenada pela sua presença nojenta. Meus olhos estavam fechados, não tenho lembranças visuais. Todos os sons do mundo sumiram. Não tenho lembranças auditivas. Mas há a lembrança do toque sutil seguido dos apertos montanhosos nos meus braços. Quase agressivos.

Há a lembrança do seu cheiro de amaciante nas roupas. O mesmo cheiro daquela primeira vez. Há a lembrança do sabor, aquele que só você tinha. Não, não me refiro à menta de cereja, que era de morango. Me refiro ao seu sabor mesmo, aquele que é só seu. Aquele, mesmo, que conheço tão bem e que hora e outra volta à minha boca e me deixa desperto. “É o sabor dele”, o cérebro diz para o coração em uma descarga de adrenalina contínua. Hoje sei que isso é um alerta.

Não sei se isso tem explicação científica além de síndrome de Estocolmo. Sinceramente, como seu gosto volta à minha boca, assim, do nada? Cérebro, o senhor está cúmplice do coração? Até você?

O sol baixava conforme o céu se alaranjava. Ainda entre as árvores do país das maravilhas, você disse “Pula”. Pausa. “Não confia em mim?” Pulei, de olhos fechados, como havia pulado desse penhasco de sensatez em direção a maré dos meus sentimentos. Pulei, sem pensar. Pulei.

Você me segurou. Literalmente, e mais uma vez, como todas as outras. Você me prendeu. Fisicamente. Metaforicamente. Você me segurou. Será que eu estava seguro com você?

E então, veio o beijo lento, devagar, lento, lento… Explorador. Cuidadoso, como jamais havia sido. Calmo, sem aquela pressa ou urgência. O tempo no país das maravilhas passava mais devagar. Era um efeito contrário à você, afinal, você o fazia correr.

E o que fiz de novo era sorrir. Porque eu soube que não importava quantas vezes perdêssemos o caminho para o país das maravilhas, sempre o encontraríamos, de uma forma ou de outra.

Hoje, me pergunto: quero mesmo encontrar? Aquilo (não) foi real?

Amor é dor
Autorais, Livros

Amor é dor

Aviso de gatilho: Pensamentos suicidas, codependência

Querido diário,

Não sei o que te escrever hoje. Acho que só busco um refúgio, uma válvula de escape que não me seja prejudicial como as outras eram. Te escrevo aqui, desesperadamente, de caneta azul, fugindo dos meus padrões, ao som de Troye Sivan porque dói. Aquela dor que te reduz ao tamanho de um grão, que você se encolhe tentando reprimir. Será que não existe felicidade abundante? Não, não existe. Ainda mais pra mim. Porra, o que eu estava pensando? Que eu seria aquele sorteado que se fodeu a vida toda só para se dar bem no final? Ha-ha. Jamais, né.

+ Gosto de começar as coisas

Tô preso. Desesperado. Ávido por uma resposta. Meu infinito tem numeração e Deus, como eu queria mais números. É doloroso porque posso tê-los. Mas estou preso e impedido de pega-los. Porque eu não merecia isso?

É muito para o meu final feliz. Sempre soube. Estou fadado à amargura. Ao fim solitário. E eu sou só mais um nesse turbilhão de sentimentos. Não sou o primeiro, nem o último. Quedas doem muito. Muito mais do que eu gostaria. Mas eu não sei viver fora dos excessos. Não sei não sofrer por antecipação. Não sei.

Eu só queria poder pegar mais números para o meu infinito. Mas estou preso. Cansado. Cansado da dor. E o meu medo só aumenta. Sim, medo de mim mesmo. Do que posso me tornar sem você. Medo do que posso voltar a ser. Os fantasmas assombram crianças fracas e amedrontadas. E eu temo ser uma delas. Porque eu sei quem eu sou com meu travesseiro.

Só ele sabe os pensamentos suicidas que me visitam todas as noites. Só ele, além de você, consegue acalmar minhas madrugadas de tormenta. Mas ele não pode ser você. Já você, pode muito bem ser ele. Dormir com a sua respiração talvez seja a melhor coisa do mundo.

E temo estar perdendo, junto com a minha sanidade que se esvai a cada lágrima caída.

Por que amor é dor?

Livros de ficção: 3 títulos que você precisa ler em 2022
Livros

Livros de ficção: 3 títulos que você precisa ler em 2022

O ano está acabando, é comum que façamos listas de leituras para o próximo ano e por isso, queremos te indicar 3 livros de ficção que você precisa dar uma chance em 2022, ou até mesmo no último mês de 2021, se você ainda tiver algum tempo.  A gente sabe que fazer listas de leitura podem gerar um pouco de ansiedade mas, conhecer novas possibilidades e ler indicações de outras pessoas pode fazer com que você conheça novos mundos incríveis (e ainda faça novos amigos para compartilhar o surto que é ler um livro tão bom).

Se você, assim como nós, está buscando inspirações de livros para o ano que vem, dê uma chance para uma dessas nossas indicações de livros de ficção, ou então, para um livro de ficção científica. Dentro da ficção, ele é o gênero que “ataca” o coração, nos faz rir, chorar e até mesmo sentir vontade de jogar o livro pela janela. Veja só nossas indicações:

Ficção romântica (e histórica): Vermelho, branco e sangue azul, Casey McQuiston

Vermelho, branco e sangue azul conta a história de Alex Claremont-Diaz, filho da presidenta dos Estados Unidos, que se tornou o queridinho da mídia norte-americana. Ele é bonito, carismático, leva jeito para a política e quer seguir os passos dos pais (o pai também faz parte da política). Sua família é então convidada para o casamento real de Philip, príncipe britânico, e na festa, Alex precisa lidar com Henry, irmão mais novo de Philip e o queridinho do mundo todo. Sim, sua versão britânica que ele não suporta, ainda mais com as constantes comparações da mídia.

É fato que eles não se dão bem desde o primeiro encontro e não seria diferente no casamento. Após uma série de provocações, os dois acabam caindo em cima do bolo caríssimo da festa e indo parar na capa de todos os tabloides do mundo, quase acabando com a relação diplomática entre Estados Unidos e Inglaterra. A assessoria de imprensa de ambos os lados arquiteta um plano que eles precisam se passar por melhores amigos durante um final de semana. Visitando hospitais de caridade, dando entrevistas, sendo vistos juntos por aí…

Você pode ler nossa resenha completa dele clicando aqui.

Suspense: Verity, Colleen Hoover

O livro é dividido entre duas protagonistas, por um lado temos Verity Crawford, que é quem rouba a cena e dá o nome ao livro. Verity é mostrada através do manuscrito da sua dita autobiografia, através de comentários do seu marido Jeremy, através dos olhos de Lowen e o que ela pensa da autora depois de tudo que leu… Ainda assim, Verity é uma personagem que vai te instigar do início ao fim.

Por outro lado temos Lowen Ashleigh, uma escritora de romances de suspense que vive em Nova Iork mas que é o completo oposto da cidade, é quieta e na dela, quase não sai de casa, não dá entrevistas e não gosta de visibilidade.

Você pode ler nossa resenha completa dele clicando aqui.

Ficção dramática: Os sete maridos de Evelyn Hugo, Taylor Jenkins Reid

O livro começa com a história de Monique Grant, uma jornalista de 35 anos, que agora trabalha na revista Vivant. Seu marido acabou de deixar sua casa, querendo o divórcio e ela acredita que sua vida está em um impasse, apesar de seus sonhos enormes. Em dúvida, ela se questiona onde foi que errou e o que deveria ter feito de diferente. Em meio aos seus monólogos e devaneios, ela é chamada pela sua chefe Frankie, que lhe dá uma notícia um tanto quanto esquisita: a estrela de Hollywood Evelyn Hugo, há muito templo reclusa, queria dar uma entrevista para a revista, mas ela deveria ser a entrevistadora. Monique se questiona, assim como Frankie, afinal, quantos outros jornalistas mais experientes que ela existem na redação? Por que Monique foi justamente a escolhida por Evelyn Hugo, que tem segredos enormes de sete casamentos polêmicos do passado, jamais revelados, quer contar tudo a ela?

Você pode ler nossa resenha completa dele clicando aqui.

E aí, você já leu algum desses livros de ficção? Deixa nos comentários qual você gosta mais!

Os sete maridos de Evelyn Hugo
Frases, Livros

As melhores frases de “Os sete maridos de Evelyn Hugo”

Os sete maridos de Evelyn Hugo é um livro que eu via muita gente falando, bem e mal, mas nunca tinha dado atenção ou parado para ler. Não sou do tipo que gosta de pegar as coisas no hype, ou pego antes, ou espero passar. E se arrependimento matasse por ter demorado tanto, agora eu estaria mortinho. A escrita é fluida, a história é capaz de mudar sua vida e esse livro me levou de volta diretamente para a minha adolescência quando eu começava a ler um livro de noite e virava a madrugada lendo. Sim, Evelyn Hugo me segurou do começo ao fim, sem quase nenhuma pausa. Comecei a ler umas 23h de domingo e só larguei as 4 da manhã, no fim.

+ Resenha: Os sete maridos de Evelyn Hugo, Taylor Jenkins Reid

As melhores frases de Os sete maridos de Evelyn Hugo

“Querer dar um passo maior que a perna é um sinal claro de que a pessoa não sabe o que está fazendo.”

“O mundo prefere respeitar as pessoas que querem dominá-lo.”

“Uma vez li que o carisma é o charme que inspira devoção.”

“Não me arrependo das mentiras quer contei, ou de ter magoado as pessoas. Aceito o fato de que às vezes fazer a coisa certa obriga a gente a pegar pesado. E tenho compaixão por mim mesma. E acredito em mim. Por exemplo, quando te repreendi lá no apartamento, por causa dessa coisa de confessar pecados. Não foi a atitude mais gentil a tomar, e não sei nem se você mereceu. Mas não me arrependo. Porque sei que tenho meus motivos, e fiz meu melhor para lidar com os pensamentos e sentimentos que me trouxeram até onde estou.”

“Quando surge uma oportunidade para mudar sua vida, esteja pronta para fazer o que for preciso. O mundo não dá nada de graça para ninguém. Só tira de você.”

“Desconfie de homens que precisam muito provar alguma coisa.”

“Nós gostamos de ouvir que somos adoradas, e queremos que as pessoas repitam isso o tempo todo. Quando a pessoa se acostuma a ouvir, precisa de cada vez mais só para se manter equilibrada.”

“Precisa encontrar um trabalho que faça seu coração bater mais forte, e não um que deixe seu peito apertado. Certo?”

“Primeira: você precisa aprender a se impor e a não se sentir mal com isso. Ninguém vai te dar nada de graça se você não pedir. Você tentou. E levou um não. Supere isso.”

“Quando for usar alguém, use direito.”

“Por que eu não posso ser a pessoa que se dá bem nessa história?”

“Gostaria que o resto das pessoas com quem dividimos o planeta correspondesse às suas expectativas. Mas elas não estão à altura. O mundo é cruel, e ninguém está disposto a estender a mão a ninguém.”

“Se a pessoa certa para mim é alguém como você, eu prefiro a solidão.”

“Se alguém ainda gosta de você, quer dizer que não ficou famosa o suficiente.”

“Ninguém merece coisa nenhuma. A grande questão é quem tem disposição para ir atrás do que quer.”

Review: Casamento às cegas - Brasil (2021)
Filmes, Reviews de Séries, Séries

Review: Casamento às cegas – Brasil (2021)

Casamento às cegas é um reality show brasileiro da Netflix, que assim como a maioria, importou seu formato de fora do país. Consiste em um experimento: no início, homens e mulheres conversam entre si em uma cabine, um sem ver o outro. E a partir disso, precisam dar um match e se pedirem em casamento, para que então, possam se conhecer pessoalmente. Essa primeira fase, tem uma vibe meio “Solitários”, exibido pelo SBT há alguns anos. Os homens podem interagir entre si e as mulheres também, mas homens e mulheres só interagem na cabine. A primeira coisa que me chama a atenção nesse ponto é: temos apenas casais héteros e cisgêneros, dentro do padrão.

Review: Elite (2018)

Depois que os casais se conversam, o experimento de Casamento às cegas vai para a segunda fase: a de formar casais. São cinco que conseguem dar o match e vão para uma espécie de lua de mel, em um resort, com tudo o que tem direito, para que possam se conhecer melhor. Nas conversas das cabines, me lembro de pensar: meu Deus, por que esse pessoal todo não se junta e faz um pacote de terapia? É nítido que a paixão que eles criam pelo outro, é por suas próprias fantasias e projeções. Você compra uma ideia na cabine que já vem de você, mas que parece estar no outro e acredita que aquilo é amor. Depois, na lua de mel, apesar dos primeiros atritos, tudo ainda é fácil. É simples dizer que ama o outro em um resort cinco estrelas, com champanhe e nenhuma preocupação cotidiana.

Na terceira fase do experimento, a coisa começa a ficar complicada: os casais vão morar juntos, experimentar a rotina de verdade de um casamento. Aqui, é o retrato mais real de uma vida conjunta. Os problemas surgem, o jeito do outro incomoda, tudo o que era uma qualidade nas conversas das cabines é um defeito agora… Mas, tudo é em nome do amor, certo? O fato é que é impossível amar o que não se vê e o que não se conhece. Os participantes são movidos pela paixão e pela fantasia que nutre esse sentimento e acham que isso é amor, quando na verdade, amor é escolha, é construção, é ver o outro como ele é. O amor é enxergar o outro despido de nossas projeções e de nossas fantasias e idealizações.

Em Casamento às cegas vemos as pessoas entrarem em atrito por perceberem que o outro não é responsável pelas suas expectativas. Compra-se uma ideia invisível, na cabine, que alimenta de forma não saudável uma ilusão do imaginário coletivo das pessoas. E quando a projeção já está estabilizada, ela é colocada com toda força no colo do outro, que não corresponde às expectativas. Afinal, a expectativa é sempre nossa. Ao meu ver, o programa escancara as vulnerabilidades de seres humanos imperfeitos e, talvez, os faça enxergar que primeiro vem o amor próprio, depois o amor recíproco. É preciso entender que quem segura os seus B.Os é você, e não o outro. O outro precisa vir para somar e essa é uma construção diária e que pode levar tempo.

A mensagem que o reality show nos deixa é que precisamos enxergar a outra pessoa para então, poder ama-la. Quando tornamos o outro invisível, alimentamos as nossas projeções e expectativas e as colocamos acima da pessoa humana real e tangível que está na nossa frente, com erros, acertos, desejos e sentimentos. O outro pode sim, corresponder ao que esperamos. Mas, não é sempre que vai ser assim. O que nós esperamos é fantasia. O que acontece no real é distante do que acontece no nosso imaginário. E é isso que Casamento às cegas nos mostra, de forma tão dolorida, disfarçada de programa de entretenimento.

Tive que fazer antes de saber se fariam por mim
Autorais, Livros

Tive que fazer antes de saber se fariam por mim

Esses dias minha terapeuta disse que me criei sozinho. Tive que fazer as coisas antes de saber se fariam por mim. Tive que resolver muita coisa sozinho. E talvez seja essa a raiz da minha ansiedade hoje em dia. Eu vou lá e faço o que eu quero, seja a hora que for. Eu não gosto e não consigo esperar.

+ A volta do que jamais deveria ter partido, por Gabu Camacho
+ Resenha: Os sete maridos de Evelyn Hugo, Taylor Jenkins Reid

Eu não tive como esperar ou cogitar contar com ninguém. Se eu quisesse algo, precisava fazer. Muitos podem achar que isso é uma qualidade, mas eu te garanto: não é. O ser humano precisa do outro. O que nos torna humanos é o relacionamento. A gente precisa precisar.

E eu não consigo precisar. Eu vou lá e continuo fazendo.

Nesse caminho de aprender a resolver as coisas por mim paguei muitos preços. Perdi amizades boas. Perdi momentos incríveis. Perdi fases da vida. Eu sempre estive uma fase além da minha. Quando eu tinha 18 anos e devia estar na balada, eu estava preocupado com o faturamento da empresa que eu criei. Quando eu tinha 23 e devia estar focado em terminar a faculdade, estava me desdobrando em cinco pra conseguir me sustentar sozinho.

Deixei muitos pratos caírem. Hoje vejo quantas vezes fui omisso. Quantos churrascos de família perdi, quantas festas infantis, quantos papos com meus primos que estiveram comigo e me fizeram ser quem eu sou…

Tive que deixar cair.

Me desculpa, mas…

Tive que fazer antes de saber se fariam por mim.

E eu faria tudo de novo. E eu não sei se acho justo me desculpar por isso. Aprendi que temos que fazer a melhor escolha, mesmo quando ela não é a coisa mais certa.

Mas, afinal, quem diz o que é certo e o que não é?

25 lições que aprendi aos 25 anos
Autorais, Colunas, Livros

25 lições que aprendi nos meus 25 anos

É, hoje eu faço 25 anos. Como eu gosto de falar, mais 25 anos e eu tenho 50. Mas, nesse tempo, que parece que passou rápido, mas nem tanto, aprendi algumas coisinhas. Algumas mais sérias que outras e, por isso, resolvi compartilhar com vocês.

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Se você é mais novo, provavelmente vai duvidar de algumas coisas. Se você é mais velho, é provável que você veja que também posso estar equivocado. No entanto, essa é a graça da vida, certo?

Vamos para as lições:

  1. Morar sozinho é difícil. Parece que vai ser um mar de rosas todos os dias e que a gente vai ter uma geladeira cheia de chocolate. A realidade é outra e tem dias que a gente só quer deitar, dormir e sumir de todas as responsabilidades.
  2. Seus pais não são seus inimigos. Eles são seres humanos que também erraram tentando acertar. E, talvez, você perceba que seus jeitos, costumes e personalidades são totalmente diferentes, mas que vocês ainda sim, vão encontrar uma forma de se amar – cada qual na sua linguagem.
  3. Relacionamentos são complicados e dependem muito mais de uma escolha do que de sentimentos fortes e loucos, como fizeram a gente pensar nos livros.
  4. Julgue menos as pessoas. Cada um lida uma batalha interna que a gente não conhece e cada pessoa se compensa de uma forma diferente. Tenha empatia.
  5. Seus amigos estarão com você, mas vocês não conseguirão estar juntos todo o tempo do mundo. Por isso, aproveite ao máximo os momentos de companhia e descontração.
  6. Muita coisa vai dar errado. As pessoas vão te testar, te julgar, te tirar do sério. E está tudo bem, faz parte da vida.
  7. Cuide da sua alimentação e faça exercícios físicos. Mesmo que você não goste, assim como eu, seu corpo vai sentir o peso do tempo e vai mudar aos 25 anos. Cuide bem da sua saúde.
  8. Não abra mão das suas diversões. Coma fritura, beba e aproveite a vida. Tudo precisa ter um equilíbrio.
  9. O dia seguinte após uma bebedeira com os amigos vai ser mais pesado. Você não vai estar tão “pronto pra outra” aos 25 anos como estava aos 18 anos.
  10. A menos que você seja uma pessoa noturna, você vai sentir sono mais cedo e não vai aguentar tanto tempo nas baladas.
  11. Sua casa é seu templo. Você vai se ver atravessando distâncias enormes só para dormir no conforto da sua cama.
  12. Família a gente escolhe. Escolha bem quem são as pessoas que estarão ao seu lado nas trincheiras da vida e não dê tanta importância para aquela tia chata que só sabe te menosprezar.
  13. Às vezes, precisaremos nos afastar de pessoas que amamos para ir atrás dos nossos objetivos.
  14. Dialogue. Converse, exponha todos os seus sentimentos, fale o que você está sentindo. Diga que amou a saída dos seus amigos, diga que não gostou tanto da forma como te trataram. Fale!
  15. Você vai perder pessoas. E está tudo bem. Alguns ciclos precisam encerrar para que outros possam começar.
  16. Não se apegue tanto ao “trabalhe com o que você ama”. Aos 25 anos, você vai entender que precisa ter uma afinidade com seu trabalho, mas não precisa amar. Ele é uma parte da sua vida e não define quem você é.
  17. Faça um planejamento financeiro e poupe dinheiro para o futuro próximo e para o futuro distante. Na vida adulta, acontecem muitas emergências e precisamos estar preparados.
  18. Seus amigos vão se casar, ter filhos… E outros ainda estarão vivendo a fase adolescente da vida. Acostume-se a ter os dois tipos de pessoa por perto.
  19. Adote um pet. Eles estarão do seu lado na alegria e na tristeza e enchem nosso coração de amor.
  20. Aprenda a não ter nojo da comida molhada no ralo da pia. Você vai ter que colocar a mão nela todos os dias. Aprenda a trocar um chuveiro quando a resistência queimar (tem vídeo no Youtube).
  21. Faça terapia e análise, e também cuide de sua espiritualidade. Todos os perrengues ficam mais fáceis quando a gente está bem com nós mesmos.
  22. Vão partir seu coração e vai doer tanto quanto você tinha 15 anos. Mas, aos 25 anos, você vai ter que continuar seguindo com a vida, mesmo com o coração partido, então, aprenda a curar e a acolher você mesmo.
  23. Você vai ter que engolir muito sapo. De chefe, de cliente, de amigos. Faz parte.
  24. Não deixe que definam quem você é, mas não se torne uma pessoa fechada para mudanças. Aprenda com os outros e leve toda crítica de forma construtiva, mesmo que a intenção da pessoa não seja essa.
  25. Você vai encontrar muita gente má e que quer passar a perna em você. Saiba ser firme e também a defender os seus próprios interesses.

E aí, qual dessas você já aprendeu e quantos anos você tem? Me conta nos comentários se tiver mais alguma coisa a acrescentar! 🙂

Inspirado no post do Entre todas as coisas, 25 lições que aprendi aos 25 anos.

Os sete maridos de Evelyn Hugo
Livros, Resenhas

Resenha: Os sete maridos de Evelyn Hugo, Taylor Jenkins Reid

A minha resenha de Os sete maridos de Evelyn Hugo talvez não seja exatamente uma resenha imparcial. Talvez, esteja mais pra um ensaio e talvez eu coloque mais sentimento nela do que deveria, buscando a imparcialidade. Ah, pode ser que eu deixe escapar spoilers também, mas nada muito grande porque não gosto de atrapalhar a experiência de leitura. Tá ciente? Então, ok.

Sinopse: Com todo o esplendor que só a Hollywood do século passado pode oferecer, esta é uma narrativa inesquecível sobre os sacrifícios que fazemos por amor, o perigo dos segredos e o preço da fama.

Lendária estrela de Hollywood, Evelyn Hugo sempre esteve sob os holofotes ― seja estrelando uma produção vencedora do Oscar, protagonizando algum escândalo ou aparecendo com um novo marido… pela sétima vez. Agora, prestes a completar oitenta anos e reclusa em seu apartamento no Upper East Side, a famigerada atriz decide contar a própria história ― ou sua “verdadeira história” ―, mas com uma condição: que Monique Grant, jornalista iniciante e até então desconhecida, seja a entrevistadora. Ao embarcar nessa misteriosa empreitada, a jovem repórter começa a se dar conta de que nada é por acaso ― e que suas trajetórias podem estar profunda e irreversivelmente conectadas.

+ Resenha: A vida é o que você faz dela, Adam J. Kurtz
+ Consciência negra: Onde estão os protagonistas negros na literatura?

Os sete maridos de Evelyn Hugo é um livro que eu via muita gente falando, bem e mal, mas nunca tinha dado atenção ou parado para ler. Não sou do tipo que gosta de pegar as coisas no hype, ou pego antes, ou espero passar. E se arrependimento matasse por ter demorado tanto, agora eu estaria mortinho. A escrita é fluida, a história é capaz de mudar sua vida e esse livro me levou de volta diretamente para a minha adolescência quando eu começava a ler um livro de noite e virava a madrugada lendo. Sim, Evelyn Hugo me segurou do começo ao fim, sem quase nenhuma pausa. Comecei a ler umas 23h de domingo e só larguei as 4 da manhã, no fim.

Uma vez li que o carisma é o “charme que inspira devoção”.

O livro começa com a história de Monique Grant, uma jornalista de 35 anos, que agora trabalha na revista Vivant. Seu marido acabou de deixar sua casa, querendo o divórcio e ela acredita que sua vida está em um impasse, apesar de seus sonhos enormes. Em dúvida, ela se questiona onde foi que errou e o que deveria ter feito de diferente. Em meio aos seus monólogos e devaneios, ela é chamada pela sua chefe Frankie, que lhe dá uma notícia um tanto quanto esquisita: a estrela de Hollywood Evelyn Hugo, há muito templo reclusa, queria dar uma entrevista para a revista, mas ela deveria ser a entrevistadora. Monique se questiona, assim como Frankie, afinal, quantos outros jornalistas mais experientes que ela existem na redação? Por que Monique foi justamente a escolhida por Evelyn Hugo, que tem segredos enormes de sete casamentos polêmicos do passado, jamais revelados, quer contar tudo a ela?

Não me arrependo das mentiras quer contei, ou de ter magoado as pessoas. Aceito o fato de que às vezes fazer a coisa certa obriga a gente a pegar pesado. E tenho compaixão por mim mesma. E acredito em mim. Por exemplo, quando te repreendi lá no apartamento, por causa dessa coisa de confessar pecados. Não foi a atitude mais gentil a tomar, e não sei nem se você mereceu. Mas não me arrependo. Porque sei que tenho meus motivos, e fiz meu melhor para lidar com os pensamentos e sentimentos que me trouxeram até onde estou.

Sem entender muito bem, Monique aceita a missão e vai se encontrar com a lendária Evelyn Hugo. Evelyn é uma personagem que me causou identificação mas não se pode dizer que ela é uma pessoa boa, tampouco, uma pessoa ruim, como descobrimos no decorrer do livro. Ela é alguém que lutou pelos seus sonhos e fez tudo aquilo que foi preciso para chegar onde chegou. Um tanto quanto manipuladora e faminta pela fama, ela deixou o pai tóxico em Hell’s Kitchen para tentar o sonho de ser atriz em Hollywood. Para isso, ela se casa pela primeira vez e mantém os holofotes como meta principal da sua vida.

Não se preocupe tanto em fazer a coisa certa quando a escolha mais inteligente se mostra de uma forma tão óbvia.

Evelyn Hugo percorre suas metas como ninguém. Ela mudou seu nome, a cor dos seus cabelos, sua imagem, estudou e foi atrás do que ela queria. Determinação deveria ser seu nome do meio e, ver sua história, é como se fosse uma injeção de ânimo para nós, leitores, que temos sonhos grandes. Ela não desistiu até conseguir e fez o que foi preciso para chegar lá. Não preciso dizer que ela chegou exatamente onde queria, mas nem sempre, fez as coisas certas. Isso não significa que ela se arrepende dos seus atos, pera lá.

Quando surge uma oportunidade para mudar sua vida, esteja pronta para fazer o que for preciso. O mundo não dá nada de graça para ninguém, só tira de você.

Afinal, quem são os sete maridos de Evelyn Hugo?

No decorrer do livro, conhecemos cada um dos seus sete maridos. O primeiro, porque ela precisava sair de casa e ir para Hollywood. O segundo, ela se apaixonou de verdade e ele era um grande astros dos cinemas. A imagem de casal era perfeita para a mídia, mas ele era um agressor. O terceiro, um grande astro da música que ela se casou para proteger seu relacionamento com Celia St. James, sua amante, da mídia. O quarto, outro ator de Hollywood, em um casamento fictício para divulgar seus filmes e refazer sua imagem após o divórcio do segundo. O quinto, seu melhor amigo gay, com quem teve uma filha, e quem impulsionou sua imagem nos cinemas. Nesse ponto, ela viveu um relacionamento quádruplo: enquanto ela ficava com Celia, seu “marido” ficava com o marido de Celia. O maior casamento de fachada que Hollywood já conheceu. O sexto, um diretor amigo de longa data que estava apaixonado pela imagem de Evelyn Hugo e não pela pessoa que ela era. O sétimo e último, era o irmão de Celia, com quem se casou para poder se casar com ela, já muito doente e cuidar do seu espólio ao fim da vida.

Eu gostava de escrever sobre pessoas de verdade. Gostava de encontrar diferentes maneiras de interpretar o mundo real. Gostava da ideia de me conectar com as pessoas contando as histórias delas.

Fiquei surpreso positivamente no decorrer do livro ao descobrir que Evelyn Hugo era bissexual e completamente apaixonada pela amiga Celia, com quem teve um romance tórrido e intenso. Ela teve sete maridos, mas nenhum chegou aos pés da sua única esposa, com quem esteve até o fim da vida.

Evelyn Hugo, como conhecemos, é uma mulher que teve muitas perdas. Todos ao seu redor já morreram quando ela começa a contar essa história. Quem não morreu, ela abriu mão para sua carreira. Ela deixa claro que nem sempre foi certo, mas que faria tudo de novo. E ah, ela nunca quis dar uma entrevista para a revista Vivant. Ela queria que Monique escrevesse uma biografia autorizada sua, avaliada em milhões de dólares, a ser publicada depois da sua morte, intitulada de: Os sete maridos de Evelyn Hugo.

Primeira: você precisa aprender a se impor e a não se sentir mal com isso. Ninguém vai te dar nada de graça se você não pedir. Você tentou. E levou um não. Supere isso. (…) Quando for usar alguém, use direito.

O motivo? Entre muitos outros, porque Monique é uma pessoa que já escreveu sobre suicídio assistido e tem uma mente aberta o suficiente para o assunto. E claro, alguns outros mais que não vou contar nessa resenha para não estragar o final.

O mundo prefere respeitar as pessoas que querem dominá-lo.

Só posso dizer que Os sete maridos de Evelyn Hugo me surpreendeu positivamente. É um livro que tem representatividade racial, sexual e nos mostra, no decorrer dos anos, o quanto cada uma dessas lutas teve que avançar para chegar no que é hoje. E, além disso, nos mostra o valor da perseverança e os custos da fama. Sim, admiro Evelyn Hugo e depois dessa leitura, sinto que sou um pouquinho mais confiante com relação aos meus sonhos. Dou todo o céu de estrelas.

3 dicas de motivação para a leitura
Colunas, Livros

3 dicas de motivação para a leitura

Nem sempre ter motivação para leitura é uma tarefa fácil. Se você, assim como eu, é dessas pessoas que é capaz de ler um livro de 500 páginas em um dia e depois passa cinco meses sem ler sequer um capítulo, bem-vindo ao clube. Mas, se você é dessas pessoas que tem uma super motivação e consegue transformar da sua leitura, um hábito diário, também seja bem-vindo ao clube e vem ensinar a gente!

+ 5 livros que pretendo ler este ano (ainda!)
+ 4 dicas para quem precisa de inspiração para escrever

A leitura é uma tarefa que pode (e deve) te trazer prazer. É comum se perder na motivação para leitura em meio a metas irreais que nós mesmos colocamos na gente e perto de outras pessoas que sempre parecem ler mais do que nós, humanamente, conseguimos. Mas, calma! Nós queremos te ajudar e por isso, separamos três dicas que podem te ajudar a ter mais motivação para leitura.

Não force (muito!) a ter motivação para leitura

Não se force muito. Se você perceber que é só uma preguiça momentânea, tente dar um empurrãozinho para engatar na leitura. Se não, deixe para outro dia e tente fazer outra coisa. De vez em quando, nós até precisamos daquela forcinha extra para engatar (afinal, todos temos dias preguiçosos), no entanto, tem momentos que não adianta forçar nada que isso só vai ser mais prejudicial para nós, nossa motivação e para a ressaca literária que vem depois.

Faça da leitura um hábito diário

Não precisa ler muito, mas tente ler, ao menos, uma página ou um parágrafo por dia. Faça com que a leitura se torne um hábito diário, nem que seja por pouco tempo. Dessa forma, você consegue adiantar suas leituras e ainda consegue descansar a mente viajando em uma ótima história ou só saindo um pouco da frente das telas, mesmo (e de quebra fica motivado para leitura sempre).

Torne o ambiente mais agradável

Se você não consegue engatar na leitura, veja se o seu ambiente esta propício para que você consiga ficar confortável. Quando estamos imersos em um bom livro, é comum que a gente fique horas no mesmo lugar e na mesma posição, por isso, invista em tornar seu ambiente mais agradável. Escolha um lugar silencioso da casa, ou coloque uma música calminha e instrumental de plano de fundo, ajeite a coluna para não dar dor depois e bora pra maratona!

E aí, você já usou alguma dessas dicas para se manter motivado para leitura? Compartilha com a gente nos comentários o que você faz normalmente!

Resenha: Boy Erased - Uma verdade anulada, Garrard Conley
Livros, Resenhas

Resenha: Boy Erased – Uma verdade anulada, Garrard Conley

Eu queria ler Boy Erased há muito tempo. Na época que lançou o filme, fiquei curioso por se tratar de um drama LGTQIAP+ e por ter o Troye Sivan no elenco, e também acompanhei toda a polêmica em cima da censura. Não sei porque demorei tanto para conhecer a história, até que ganhei o livro de presente de aniversário e resolvi embarcar na leitura. Fiquei surpreso, só não sei dizer se foi positiva ou negativamente, ainda.

Livro que deu origem a filme estrelado por Nicole Kidman, Russel Crowe e Lucas Hedges

Em seu elogiado livro de estreia, Garrard Conley revisita as memórias do doloroso período em que participou de um programa de conversão que prometia “curá-lo” da sua homossexualidade. Garrard — filho de um pastor da igreja Batista, criado em uma cidadezinha conservadora no sul dos Estados Unidos — foi convencido pelos próprios pais a apagar uma parte de si. Em uma tentativa desesperada de agradá-los e de não ser expulso do convívio da família, ele quase se destruiu por completo, mas encontrou forças para buscar sua identidade e hoje é ativista contra as terapias de conversão.

Tocante e inspiradora, a história de Garrard é um acerto de contas com o passado, um panorama complexo das relações do autor com a família, com a fé e com a comunidade. O livro é o testemunho dos traumas e das consequências de se tentar aniquilar parte essencial de um ser humano.

Boy Erased é um relato do próprio autor, que em sua adolescência, teve que passar por um programa de conversão sexual baseado no estudo religioso para se tornar heterossexual. A leitura é pesada, o tema é de extrema importância, mas tem alguma coisa na escrita de Conley que me incomodou bastante, deixando a leitura um pouco arrastada e monótona. Eu sofri para terminar de ler o livro, no entanto, não queria ter sofrido, já que o tema é de debate imprescindível. Por isso, não se deixe abalar por essa informação, porque nós precisamos urgentemente falar dessas terapias de conversão que acabam com a saúde mental de milhares de pessoas ao redor do mundo.

Deus, eu havia pedido em oração, deixando a sala de Smid e seguindo pelo corredor estreito até o salão principal, as luzes fluorescentes estalando em seus suportes de metal, não sei mais quem é o Senhor, mas, por favor, me dê sabedoria para sobreviver a tudo isso.

O livro é um relato quase psicanalítico do autor, que, ao contar sobre sua experiência na terapia de conversão sexual, volta para o passado fazendo intersecções com os motivos pelos quais o fizeram chegar ao ponto que chegou. E, para nós, de fora, é fácil julgar seus motivos e dizer era apenas sair correndo, mas quando o que está em jogo é sua integridade física, moral e além disso, o amor dos seus pais, a gente se vê em buracos cada vez mais profundos buscando uma salvação que está dentro de nós mesmos.

Boy Erased se desenvolve na forma de diário, e talvez seja por isso que sua leitura é de fato complicada. Mergulhamos na consciência e nos vislumbres de inconsciência do autor, que nos trazem informações pesadíssimas sobre sua adolescência. O livro tem gatilhos de estupro, abuso psicológico e físico, lavagem cerebral e muita, mas muita LGBTfobia.

Admiro a coragem de Garrard Conley em expor essa verdade ao mundo todo e agora entendo porque quiseram boicotar tanto o filme. Essa obra literalmente joga a merda no ventilador, doa a quem doer. O filme retrata de forma bastante fiel os relatos apresentados no livro e, acredito que todos que amam uma pessoa LGBTQIAP+ deveriam ler para amplificar ainda mais sua empatia.

A AEA me dizia diariamente que perder minha própria identidade significava ganhar virtude e que ganhar virtude significava me aproximar mais de Deus e, por consequência, de meu verdadeiro eu celestial. Mas os meios para aquele fim – o ódio de si, a ideação suicida, os anos de falsos começos – podiam fazer com que nos sentíssemos mais solitários e mais distantes de nós mesmos do que nunca.