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finge que não me conhece
Autorais, Livros

Você fez o que fez e finge que não me conhece

Muito tempo já se passou desde que você fez o que fez. Agora você finge que não me conhece e que eu nunca cruzei sua existência. Desculpa quebrar essa pra você: eu cruzei e tem sido mais difícil que eu pensava.

Eu me mudei. Mudei de cidade, também. Mas, resolvi passar vinte dias na casa nova da minha mãe. Sabia que ela comprou uma casa enorme pra morar com a minha irmã? Pois é. Fui passar férias lá e minha irmã me chamou pra ir nessa festa onde tudo foi meio atravessado.

Leia ouvindo: Processed Beats, Kasabian

Eu relutei, mas depois eu topei. Sei que meu noivo ia querer ir junto, mas ele estava em outro país, viajando a trabalho. Fui com a minha irmã na festa, com uma roupa meio ralé e minha bolsinha de ombro. Sim, aquela de tantos anos que a gente comprou juntos na viagem do décimo terceiro. Esperei por horas naquela fila. Você se lembra de todas as vezes em que estivemos juntos nessa fila? Eu me lembro, mas não queria. Claramente não tenho mais idade pra isso. Acho que você não se lembra, afinal, você fez o que fez e agora finge que não me conhece.

Quando chegou minha vez de pagar e entrar, eu precisava muito ir no banheiro. Deixaram que eu entrasse e voltasse para pagar depois. Corri para a cabine… Tudo estava tão diferente de quinze anos atrás, quando a gente era adolescente e nos beijávamos na fila para o mesmo banheiro. O banheiro não era o mesmo. Eu não era o mesmo. Será que você lembraria das coisas caso viesse aqui da forma que estou lembrando?

Saí e voltei para a recepção. Minha neurose continua a mesma. Preciso das coisas certinhas. Droga, esqueci a bolsa no banheiro, pendurada atrás da porta da cabine. Voltei e você estava lá, dentro da cabine. Você sabia que a bolsa era minha e que eu precisaria falar com você para pegar. Você me olhou maliciosamente como se eu não fosse falar.

Mas eu falei e peguei a bolsa. Você ficou estático, não respondeu. Me olhei no espelho antes de sair e eu não estava tão bem vestido quanto você, e você percebeu. Me olhou da cabeça aos pés. Socorro, eu estou preso! Você quebrou meu diálogo interno, gritando no banheiro.

Um menino que estava ao lado correu para a sua cabine e sua cabeça estava meio presa entre a porta. O que você estava tentando espiar do lado oposto da cabine? O seu novo crush da vida fazendo xixi? É, deve ser isso.

Eu fui mais perto, tentando ajudar o menino que te puxava e você gritou mais uma vez. Não deixa ELE se aproximar de mim. Demorou um pouco mas eu entendi. Você se referia a mim. Eu não podia me aproximar para te ajudar. Então, parei, estático. Eu posso ajudar, ele não vai conseguir te soltar sozinho, te respondi, mas você não se dignou a me dirigir a palavra.

Deixa qualquer um entrar, menos ele. Ele não pode me ver assim. E eu entrei na cabine, mesmo contra sua vontade, para tentar ajudar aquele que te puxava antes que tivéssemos que chamar uma ambulância. NÃO, EU TÔ PELADO!

De todas as coisas, você só pensava nisso. As coisas não mudam. Não tinha nada ali que eu não tivesse visto de todas as formas possíveis. Em todos os ângulos e com todos os meus sentidos. É, você fez o que fez e finge que não me conhece. Finge que não conhece cada centímetro da minha pele. Finge que nunca transamos em cada pedacinho daquela cidade de todas as formas possíveis.

A gente conseguiu te soltar. Você se vestiu e eu me afastei, me arrumando no espelho. Eu precisava voltar, pagar e tomar uma bebida. Parecia inacreditável tudo aquilo. Qual é a chance do seu ex-namorado da adolescência entalar a cabeça na cabine do banheiro da balada que vocês iam, ainda por cima pelado? Certas coisas só acontecem comigo, mesmo.

É, parece que só um de nós melhorou o estilo. Você me mediu de cima aos pés, disse isso com desdém e saiu porta afora. Você fez o que fez e se esqueceu. Se esqueceu de que já te vi em todos os ângulos, de todas as formas, com roupa ou sem.

É. Você fez o que fez e finge que não me conhece.

Autorais

Autoria: Supermercado de sentimentos, por Gabu Camacho

Leia ouvindo: my tears ricochet, Taylor Swift

Nossos dias de semana improváveis, meu quarto sempre com a porta fechada para te preservar lá dentro.
– “Redemoinho em dia quente, Jarid Arraes

Eu não me lembro bem da sequência de fatos em que tudo aconteceu desde o supermercado. Em um momento, eu estava lá fazendo compras com a minha mãe. Eu odiava fazer compras com a minha mãe. Enquanto ela percorria todos aqueles corredores, escolhendo o menor preço de cada produto, ora pedindo minha ajuda, ora agradecendo por eu ficar o tempo todo mexendo no celular, eu sentia que uma parte de mim estava faltando. Eu entrava no perfil do Julieu, via suas últimas fotos, seus últimos tweets e sentia meu coração doer.

Conheci Julieu em um grupo de WhatsApp que entrei. Ele mora em outro estado. Conversamos algumas vezes no privado sobre a vida. Sobre nós. Nos conhecemos e eu me apaixonei sem que ele soubesse. Sem sequer saber se ele nutria qualquer sentimento por mim além da pessoa que ele conheceu por um grupo de WhatsApp e que morava em outro estado. Já faziam dias que eu nutria meu sentimento com a imagem que eu tinha dele das redes sociais. Eu alimentava meu coração com os tweets, que eu lia com sua voz doce, eu alimentava meu sentimento com as fotos em suas redes sociais. Já ia fazer um mês. Três semanas para pensar com exatidão, que me preparo para falar com ele. Puxar assunto, ser mais presente, perguntar mais… Julieu parece uma parte do meu coração e eu nem sei como ele se tornou essa parte.

Nos meus sonhos, a gente sempre estava junto. Eu visitava sua cidade, em outro estado, e dormíamos lado a lado na cama de casal. Acordávamos juntos, olhando um para o outro, íamos conhecer a cidade, tomávamos um chocolate quente para nos esquentar do frio do sul. E depois sempre vinha a despedida, de quando eu precisava voltar. Seu sorriso ficaria guardado na minha mente pra sempre e nós faríamos juras da próxima vez em que conseguiríamos nos ver de novo. Nos meus sonhos, nossos pais aceitavam tudo. Tudo era fácil e a nossa idade era só mais um fator.

E então eu acordava. A lembrança dos sonhos da noite anterior pareciam lembranças de algo que já tinham acontecido antes. Sequer conseguia esquecer. Ah, Julieu, se eu tivesse coragem de falar tudo o que eu sinto. Se eu tivesse coragem pra ver todas as cores do mundo com você. Se eu tivesse coragem para falar, entender se era de fato recíproco e então sentir, de verdade, o cheiro do seu cabelo tocando meu nariz e provocando o meu piercing. Se eu tivesse coragem, Julieu.

“Pega a bolacha aí, coloca no carrinho.” Quando minha mãe disse isso, no supermercado, assenti com a cabeça e peguei dois pacotes de Trakinas de chocolate. Mas antes apertei enviar de uma mensagem que eu estava digitando há dias.

“Oi, Juli. Estou com saudade de você.”

Enquanto peguei a bolacha, meu celular tremeu com quatro mensagens novas de Julieu. Sorri por dentro. Cada átomo meu sorriu, mas resolvi esperar a compra acabar para responder. Ajudei minha mãe a guardar tudo no carro, sentei no banco do carona e seguimos para a casa. Tirei o celular do bolso e abri as mensagens.

“Oi, mozi. Que saudade de você também.”
“Sinto sua falta. Vamos assistir um filme juntin hoje a noite?”

Tremi, mas continuei lendo. Por que ele tinha me chamado de “mozi”? Ele nunca tinha me chamado assim antes. Seria esse o início da nossa tão sonhada reciprocidade? Será que todos os meus sonhos de conhecer o sul segurando a sua mão tão parecida com a minha se tornariam realidade?

“Por favoooooor”

E eu não demorei para responder.

“Claro!! Sinto muito sua falta. Qual filme vamos assistir?”
“Preciso deixar carregando antes com a minha internet, vc sabe”

“Um olhar no paraíso, moxi”
“É meu filme preferido da vida”
“Vai, completa o coração”

Ele mandou uma foto da sua mão, curvada, como se fosse um dos lados daqueles corações que fazemos com as mãos. Tirei foto da minha mão oposta, completando o coração, enquanto sentia o meu capotar na caixa torácica. Eu lembro dos detalhes até aqui. Depois, as coisas não são tão claras assim.

Em outro momento, eu estava vendo o filme juntin a Julieu. Comentamos, choramos, conversamos muito naquela noite até altas horas da madrugada. Eu já podia ver todas as nossas cores explodindo em alegria. Eu podia ver nossas mãos dadas no sul e as borboletas saindo do meu estômago. Certa vez li uma frase da Jarid Arraes que dizia, “você mexia com as cores das fitas, abrindo meus ouvidos avinagrados para a beleza das promessas” e eu me sentia assim. Com todas as cores do mundo.

Até que o filme acabou. Julieu dormiu. Ele provavelmente mandaria uma mensagem de madrugada se desculpando, então mandei boa noite e fui dormir também.

A mensagem não veio. Chamei no dia seguinte e Julieu não respondeu. Ele nunca mais respondeu e seus tweets tentavam adubar o meu coração que estava secando, mas não eram suficientes. Julieu nunca mais respondeu nenhuma mensagem, nunca mais sequer visualizou.

Seu Twitter ficou privado e meus galhos secaram. Meus galhos secaram um a um.

Cada dia que eu precisava colocar “Um olhar no paraíso” para rodar no computador enquanto eu tentava pegar no sono, calando todas as minhas vozes era uma estaca no meu coração cravada com o nome de Julieu. Ele não me bloqueou das suas redes sociais, mas ele me bloqueou da sua vida.

Eu precisava de notícias, então pesquisei seu nome no Google e vi que outra pessoa twittara uma foto dele, sentado na escrivaninha do seu quarto com a parede rosa, lá no sul. Pelo ângulo, a pessoa estava na cama. Julieu estava despreocupado, mexendo no celular com uma camisa de botão lindíssima, uma calça jeans rasgada no joelho e aquele tênis preto de skatista que ele sempre usava. O mesmo que ele usou nos nossos passeios oníricos. A legenda dizia “moxi está distraído hoje”.

E depois desse dia, nunca mais tive sequer uma notícia da outra parte do meu coração.

Tudo ficou preto e branco e minhas noites se repetem com o filme rodando em repetição.

Todo dia é a mesma noite para mim.

A última noite com Julieu.

redemoinho em dia quente, jarid arraes
Livros, Resenhas

Resenha: Redemoinho em dia quente, Jarid Arraes

Sinopse: Escritora conhecida por seus cordéis, Jarid Arraes estreia no gênero dos contos em Redemoinho em dia quente. Focando nas mulheres da região do Cariri, no Ceará, os contos de Jarid desafiam classificações e misturam realismo, fantasia, crítica social e uma capacidade ímpar de identificar e narrar o cotidiano público e privado das mulheres. Uma senhora católica encontra uma sacola com pílulas suspeitas e decide experimentar um barato que a leva até o padre Cícero, uma lavadeira tenta entender os desejos da filha, uma mototáxi tenta começar um novo trabalho e enfrenta os desafios que seu gênero representa ― Jarid Arraes narra a vida de mulheres com exatidão, potência e uma voz única na literatura brasileira contemporânea.

Gosto de contextualizar minhas resenhas com a minha descoberta do livro e do autor. Conheci Jarid Arraes em uma edição da FLIM, festa destinada para a literatura, em São José dos Campos, em 2018. Minha cidade. Era uma mesa com debates entre autoras e Jarid estava lá. Lembro da identificação que senti com as coisas que ela pontuava e saí decidido a ler algo dela, mas não li imediatamente. 2019 veio a FLIP, de Paraty, e fiquei sabendo de Redemoinho em dia quente. Li uma matéria sobre o livro no jornal, vi muitas pessoas falando sobre e falei: e agora!

Claro que não foi. Tomei vergonha na cara e peguei Redemoinho em dia quente para ler só agora, há algumas semanas. É um livro curto, com poucas páginas, e histórias contadas por meio de crônicas, que são de fácil leitura. Mas demorei, me deliciando em cada uma delas. Parecia que elas demandavam de mim uma certa digestãoreflexão antes que eu partisse para a próxima.

Redemoinho em dia quente conta a história de mulheres da região do Cariri, no Ceará, com muito realismo, ao mesmo tempo em que vemos aquelas pitadas do jornalismo literário, com a fantasia, e as críticas sociais sempre muito intrínsecas a cada palavra. Quem me conhece sabe o quanto eu amo esse tipo de leitura. Crônicas, contos, histórias reais contadas por meio da literatura, com os artifícios da fantasia e as reflexões da sociedade. O livro de Jarid é um prato cheio de tudo isso.

Devo dizer que não foi uma leitura fácil para mim, apesar do livro ter fácil leitura, no geral. Demorei para me conectar ao livro, para entender do que se tratava. Não costumo ler as sinopses antes, só me jogo de cabeça. E minha falta de conhecimento e de vivência com a cultura apresentada pela autora em suas páginas foi algo que me pegou logo de cara, mas que depois foi se aliviando…. O livro é uma porta de entrada, um convite para que você mergulhe e conheça a cultura, o cotidiano, os costumes. Parecia que, a cada conto, eu estava ali, ao lado da autora, enquanto ela ouvia essas histórias da boca das próprias personagens. Me senti um ouvinte atento, me senti no Cariri mesmo sem nunca ter pisado lá.

A narrativa de Jarid tem esse poder de nos transportar. De nos fazer imaginar, de nos fazer ouvir as vozes de cada personagem. As crônicas chocam. Eu não esperava uma senhora católica experimentar pílulas de uma droga suspeita que a fizeram enxergar padre Cícero. Eu não esperava conhecer uma enfermeira que teve que abandonar os pais para estudar e poder se autorizar a gostar de outras mulheres. Eu não esperava, tampouco, me encontrar nas palavras de Jarid da mesma forma que me encontrei nas palavras de Clarice Lispector anos atrás nas aulas de literatura. Ao mesmo tempo em que fui ouvinte, também me senti um pouco personagem.

Entre todas as histórias, duas me marcaram muito. Cachorro de quintal, que trata sobre uma relação entre os animais de estimação e como eles passam a ser figuras importantes nas nossas vidas. Ainda mais eu, que trato o Pirata, meu cachorro, como se fosse um filho. Mas não foi sempre assim, e esse conto me fez refletir sobre o meu passado e minha relação com os cães que não eram meus, porque eu era criança. Eram dos meus pais e eu não podia trata-los da maneira com a qual eu julgava correta. Tinha que ser à maneira deles.

No dia, me dei a desculpa de que não valia a pena arriscar minha segurança por causa de um cachorro. Porque com cachorro era assim mesmo. As pessoas faziam isso.

O segundo conto que me marcou profundamente foi As cores das fitas, logo no final. Eu preciso confessar que grifei quase o conto inteiro porque parecia que Jarid estava narrando um episódio da minha vida. As metáforas com cores, fitas e acontecimentos dessa história me fizeram chorar e sentir muito. Parece que algo ficou entalado na garganta.

Desde o primeiro sorriso que te dei, sabendo um pouco que não faltava tanto para que eu me enrolasse nos panos de nossa história, eu te segui. Você dizia que a direção era contrária.

Redemoinho em dia quente é um livro impecável. Não tem outra palavra para descreve-lo, não consigo pensar em nenhum contraponto ou algo que eu não tenha gostado. É humano, real, sentimental, visceral…. Nunca vou esquecer as sensações que ele me causou enquanto eu lia, digerindo conto a conto, página por página. É um livro cinco estrelas em todos os aspectos e eu recomendo para todo mundo.

Encontre em: Amazon

Montanha russa
Autorais

Autoria: Montanha russa, por Gabu Camacho

Nota de início: Montanha russa foi escrito há muitos anos. Mais de cinco. Ele está presente no primeiro livro, O garoto que usava coroa, mas diferente por lá. Na época em que o livro foi escrito, eu ainda não tinha me assumido LGBTQIAP+ e tive medo de entregar um texto explicitamente LGBTQIAP+ para ser publicado. Apesar do livro ser todo sobre essa temática, de forma mais sutil, eu tive medo na época e por isso, fiz a Stephenie Meyer e troquei o gênero dos personagens. Essa aqui é a versão real. Boa leitura!

Afiadas são as flechas de um coração partido.
— Cassandra Clare, “Cidade do Fogo Celestial”.

Minha animação estava ridiculamente alta. Minha avó havia me chamado para dormir em sua casa neste fim de semana que precedia o natal, afinal, meu primo Matthew chegaria com seu pai Pily do interior, na madrugada. Segundo ela, nós éramos grandes amigos na infância, eu não me lembrava disso, só me lembrava dele, e da sua presença onipresente em meu Facebook.

— Ele disse estar ansioso para te ver, Edmundo. E vocês podem aproveitar o parque de diversões aí na frente. Tudo bem se ele ficar no seu quarto? – Minha vó era muito preocupada em acomodar bem as pessoas.

— Tudo bem sim, vó. – Concordei rapidamente e voltei meu olhar para a janela, que dava numa movimentada avenida, e além dela, havia um terreno baldio, do tipo que circos e parques de diversões se instalavam em datas sublimes. Um parque estava lá agora, e eu via crianças felizes com seus ursos enormes e outras mais felizes ainda com pequenas bolinhas pula-pula.

— Bom, podemos dormir. Quando chegarem, saberemos. Já deixei o café pronto. – A preocupação pelo bem estar era uma coisa que me fascinava na minha avó. Apenas acenei em concordância e segui para o meu quarto, fechando a porta. Tinha duas camas, uma box de casal e outra de solteiro. Deixei-a preparada para Matthew, meu primo, que apesar de exalar uma aura mais velha, tinha quase a minha idade.

Sentei-me a beira da minha cama, olhando para o nada, enquanto retirava o meu colar cujo pingente era uma chave, do pescoço, e me deitei rapidamente olhando para o teto. Peguei no sono em algum momento despercebido, mas pareceu apenas um piscar de olhos quando uma buzina irrompeu em minha mente. Chegaram.

Um micro-ônibus estava parado em frente à casa da minha avó, com todos da família do interior descendo, gradualmente. Ela e meu avô estavam emocionados pela surpresa e eu estava ao canto, com meu cabelo negro desgrenhado cobrindo os olhos, esperando por um rosto que pudesse ser conhecido.

— ED! Como você está lindo, garoto! – Era minha tia Lucie, com seu jeito todo espevitado. Era uma das únicas que gostava e realmente conhecia do interior.

— Ahn, obrigado tia… – Mas ela já tinha saído para abraçar as pessoas entre si. Entrei na casa e me sentei no canto do sofá, querendo me tornar invisível enquanto tentava não ser mal educado e voltar para o quarto. Coloquei a mão involuntariamente no meu pingente de chave, já havia se tornado algo que lhe trazia calmaria.

— Hmm, oi? – Reconheci seu rosto imediatamente. Queimava em vermelho, parecia estar tímido, assim como eu.

— Oi, Matthew. Como está? Tio Pily, oi. – Levantei-me do sofá e abracei ambos. Matt tinha um cheiro masculino adocicado, meu tio cheirava a álcool.

— Grande homem, Ed. Pode ajudar Matthew com as malas e mostrar onde ele deve dormir? Já está com sono. – O tom dele não transmitia orgulho.

— Claro. Vamos, Matt… Matthew. – Droga, estava corando e nem sabia o porquê.

Pegou a maior mala e seguiu o corredor até seu quarto, nos fundos, onde se sentou na cama mais uma vez.

— Quer dar uma volta? – Eu estava ciente da hora, mas o parque de diversões ainda estava aberto.

— Claro. – Ele passou a mão nos seus cabelos negros, que se misturavam arrepiados de maneira preguiçosa.

Atravessamos a rua e fomos juntos para o parque, conversando sobre coisas aleatórias. Dez minutos depois, já éramos melhores amigos de infância. Matt tinha um jeito de criança, no portar assim como no pensar. Parecia um bebê em corpo de adolescente de dezessete anos, e era isso que talvez houvesse me cativado.

— Quero uma bolinha pula-pula do Homem Aranha. – Ele disse certa hora, olhando para mim.

— Vou conseguir uma pra você. – Eu sorri, mas perdi todo meu dinheiro tentando acertar o alvo, e ainda assim não havia conseguido o prêmio. Matt parecia desapontado, mas seguimos para minha avó, mais uma vez. Todos já dormiam, então fomos para fazer o mesmo. Deitei na grande cama de casal e acordei no dia seguinte, já de tardezinha, com meus braços apoiados em um saco que parecia respirar…

Não era um saco. Era Matthew.

Levantei-me silenciosamente e coloquei meu celular na tomada, depois de tirar uma foto do rosto inocente que havia passado a noite ao seu lado. Comecei a me sentir mal desde então, odiava me apegar às pessoas. Eles sempre iam embora, depois. O celular vibrou com a chegada do conselho diário:

Você pode estar em um relacionamento por dois anos e não sentir nada. Você pode estar em um relacionamento por dois meses e sentir tudo. Tempo não é uma grandeza de qualidade, de paixão ou de amor.

Sorri pro meu primo deitado na cama e fui tomar café, com as mãos para dentro da manga longa do pijama comprido.

— Quer voltar ao parque? – Matt chegou pouco tempo depois na mesa de café. — Podemos ir à montanha russa hoje.

— Claro que sim! – Eu estava adorando passar tempo sozinho com Matthew, nossas conversas eram únicas e parecíamos ser irmãos. Isso me deprimia. Sabia que logo depois ele voltaria para a cidade e então, nunca mais nos veríamos.

Nós fomos, brincamos, corremos. Matthew conseguiu uma bolinha do Homem Aranha e logo voltou para a casa. Fiquei no parque mais uns minutos, queria um presente mais especial para ele. Quando voltei, a casa era só berro.

— DELINQUENTE! NÓS VOLTAREMOS PARA CASA AINDA HOJE! – Era meu Tio Pily.

— Calma, Pily… Não precisa tratar o garoto assim. – Minha vó estava calma.

Entrei correndo na casa, mas fui impedido pelos meus pais na cozinha, para chegar até a porta.

— Ed, pegue suas coisas. Estamos indo embora. – Minha mãe soava séria.

— Devo falar com Matt antes?

— Claro, Edmundo. – Meu pai estava compreensivo, como sempre ocorria quando se tratava de sua família.

Entrei no banheiro, mas Matthew não estava para conversa, então logo saí e voltei ao quarto, em prantos, fingindo arrumar minhas coisas, enquanto caçava por um pedaço de papel. Estavam gritando para que eu fosse embora, quando meu tio esmurrava a porta do banheiro querendo que Matt saísse. Tirei meu colar de chave, envolvi em um papel e escrevi no meu garrancho:

Chave para os seus sonhos.

Deixei onde sabia que ele veria, e fui embora. Não sabia o que significava aquele gesto, mas agora não importava mais.

Então, fui embora convicto de que Matthew jamais veria minha carta.

Convicto de que jamais veria Matthew novamente.

Convicto de que meu melhor primo jamais abriria os olhos novamente.

Convicto, de que Matthew havia se suicidado no banheiro da minha avó.

Livros, Resenhas

Resenha: Todos Nós Vemos Estrelas, Larissa Siriani e Leo Oliveira

Quando pegar “Todos Nós Vemos Estrelas”, para ler, tenha em mente que você não irá larga-lo enquanto não acabar. Esse é o primeiro ponto positivo, afinal, por ser um conto, conseguimos terminar a leitura rapidamente. Mas também é um ponto negativo, pois nos deixa querendo mais. Muito mais.

Inclusive, “Estrelas” são como duas histórias em uma. É quase como ler um cross-over entre dois mundos que acabamos de ser apresentados. Começamos conhecendo a história de Lisa, uma adolescente com alguns problemas sociais, que prefere a companhia dos livros ao invés de sair para curtir com seus amigos – vamos combinar que uma maratona literária ás vezes é muito melhor que sair mesmo. Lisa vive com seu pai e sua madrasta, Tatiana, que aparentemente é bem chatinha, mas acredite, ela te conquista. E meio que obrigada, Lisa participa de um amigo secreto com sua turma de escola, mas óbvio que com segundas intenção: a moça tem o desejo de poder se aproximar de Heloísa, sua crush, através da brincadeira. Por um acaso do destino, a situação se inverte, e Lisa não tira Heloísa, mas sim o contrário. Presenteada com um diário, a nossa história se inicia justamente aí: este diário podemos resumir em um Death Note do bem. Sim, o que escrevemos realmente acontece.

Enquanto isso, somos apresentados a Lucien, príncipe de Trinitam, um reino que controla os elementos da terra e do ar. Lucien é personagem da saga de livros “A Glória do Traidor – que existe apenas dentro do conto (por enquanto, esperamos) – e suas terras fazem fronteiras com Vormiam e Démores, que controlam os elementos químicos e metálicos e do fogo, água e destino respectivamente. Eis que somos apresentados ao príncipe enquanto ele está em fuga, por ter surrupiado um poderoso artefato que pode pôr fim ao tratado de paz entre os três reinos. O rapaz, que na verdade não passa de um adolescente, é o herói favorito de Lisa e é trazido para os tempos atuais após ela desejar estar na companhia de seu personagem predileto. Então apesar de estar fugindo de dois exércitos e estar prestes a iniciar uma batalha épica e acabar com a paz em Trinitam, Lucien é inexplicavelmente transportado para São Paulo.

Se aprofundar na chegada do príncipe e o desenrolar de sua estadia no Reino de Santana (São Paulo) seria estragar a experiência de leitura para quem ainda não teve a oportunidade de ler, mas alguns pontos que precisam ser ressaltados: a amizade construída entre Lucien e Lisa e o fato dos capítulos alternarem os pontos de vistas nos dão uma visão muito completa sobre o que passa na mente e no coração de ambos. É como fazer parte dela. Ambos acrescentam muito na vida um do outro: seja a garota dando um choque de realidade no príncipe ou ele ensinando o valor que temos e o quanto podemos oferecer ao próximo. Afinal, todos nós vemos estrelas, mas nem todos se lembram de olhar para o céu. Lucien tem uma humanidade dentro de si, uma inocência que soa natural e é apenas lindo acompanhar o seu desenvolvimento. “Todos Nós Vemos Estrelas” nos embarca em uma jornada de autoconhecimento e reflexão que é muito pouco visto em outras obras de fantasia e é isso que mais encanta após o término da leitura.

Estrelas”, como eu particularmente chamo, está disponível para leitura dentro do programa Kindle Unlimited da Amazon, em que você paga a assinatura de R$19,90 e pode ler uma vasta biblioteca de livros em qualquer dispositivo – pode ser um Kindle, celular ou tablet. Para quem não é assinante, o conto está disponível por apenas R$2,90, basta clicar aqui.

O conto é escrito por Larissa Siriani, booktuber que você pode conhecer clicando aqui. Inclusive, ela acabou de lançar o livro “O Amante da Princesa” pela Verus Editora – teremos resenha logo mais – e vale lembrar: terá sessão de autógrafo no próximo dia 09 de junho em Campinas, no Shopping Dom Pedro e dia 10 de junho no Shopping Pátio Paulista, em São Paulo. Leo Oliveira já apareceu vez ou outra aqui no Beco através dos vídeos de seu canal, Um Leitor A Mais – acabou de lançar vídeo falando sobre o recém lançado Tempestade de Guerra, de Victoria Aveyard (recomendadíssimo).