Tags

abuso infantil

Críticas de Cinema, Filmes

Crítica: Inocência Roubada (2019)

Chega hoje (11) aos cinemas o filme Inocência Roubada, de Andréa Bescond e Eric Métayer. Depois de ser exibido em Canes e no Festival Varillux do cinema francês, Inocência Roubada chega para contar a história da dançarina, atriz e diretora Andréa (sim, é uma história autobiográfica e estrelada por ela), chamada no filme como Odette. O tema é abuso infantil no âmbito familiar, mais precisamente, por um amigo da família. Usando o recurso de narrador em primeira pessoa junto com flashbacks do passado, Odette (Andréa Bescond) vai contando sua história para a terapeuta e, ao mesmo tempo, para os telespectadores do filme.

Originalmente lançado como uma peça de teatro estrelada por Andréa e dirigida por Eric, Inocência Roubada pode ser visto como uma catarse da dançarina que foi abusada na infância por um amigo próximo de seus pais. Durante o filme, vemos a pequena Odette, uma bailarina muito talentosa, sofrer calada e sozinha ao não conseguir ver nos pais uma fonte de confiança e proteção. Há um tato muito grande do filme em não mostrar as cenas explícitas, mas o desconforto é inevitável a cada porta que se fecha e silêncio que se instaura. Não há gritos, nem efeitos sonoros frequentemente usados para alertar o telespectador sobre uma cena mais forte, só o silêncio. Um silêncio incômodo, indigesto, perturbador.

Odette segue na carreira de bailarina, cresce e se torna uma usuária de drogas que não respeita seu próprio corpo nem a si mesma como pessoa. Sua família continua sendo amiga da família do molestador, a vida segue, mas a dor não passa. Até que, ao procurar uma terapeuta para falar sobre isso pela primeira vez, tudo começa a vir a tona. As cenas do passado vão passando misturadas com o presente e até com algumas fantasias da bailarina de como ela gostaria que sua vida tivesse sido. Vemos na tela a confusão que se passa dentro da cabeça de uma pessoa e que os acontecimentos não são tão lineares como os filmes gostam de nos fazer acreditar. O pensamento vem, vai, divaga… Anos se passam até que a coragem necessária seja reunida para finalmente expor o crime e começar a cura.

Infelizmente, o abuso infantil é uma realidade mundial que não é combatida com tanto esmero quanto deveria. As denúncias não são feitas e, quando são, a justiça não age como deveria. O peso do estigma ainda é mais pesado do que a dor que corrói e destrói toda uma vida, todo um futuro que aquela criança poderia ter. E, pasmem, ainda há muitos pais que não acreditam na palavra dos seus filhos. Vemos isso na história de Andréa.

Quando Odette finalmente teve coragem de contar para os pais o que havia acontecido durante toda a sua infância, sua mãe duvidou. Mesmo sendo uma mulher adulta contando, ainda houve dúvida. É interessante observar a atitude da mãe de Odette que, durante todo o tempo, mesmo depois que parece acreditar no acontecido, tenta diminuir a importância como se não tivesse sido algo tão ruim. Afinal, foram só alguns dedos. A mãe coloca como se Odette estivesse destruindo toda uma família, como se o ato de falar e contaminar a todos com sua desgraça fosse uma atitude egoísta. Ela deveria permanecer calada e sofrer seus problemas sozinha.

Não há um grande ápice ou um final realmente feliz, já que nada que fosse feito poderia apagar aquele passado terrível. Mas, testemunhamos o início da cura interior de Odette, sua reação em realmente querer viver e superar tudo aquilo. No final, ainda aparecem alguns dados sobre abuso infantil e um alerta sobre a importância de ouvir seus filhos, prestar atenção neles e denunciar qualquer ato suspeito. Inocência Roubada é um filme de utilidade pública porque mostra que ninguém está acima de qualquer suspeita e como é importante ser mais próximo dos filhos e ficar atento aos detalhes. Ouça seu filho, seu sobrinho, seu aluno. Ouça, acredite e ajude.