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Que o Brasil dá um passo pra frente e dois para trás todos nós já sabemos. Claro, vivemos em uma sociedade totalmente funcionalista, que preza acima de tudo o conservadorismo e discursa bonito, apesar de ter uma prática totalmente nojenta. Heranças talvez, de uma colonização justificada pelo evolucionismo de Morgan e Freezer, onde culturas foram nos enfiadas goela abaixo sob a justificativa da evolução e seleção natural dos melhores e mais aptos.

A sociedade atual é cada vez mais intolerante. Ao invés de caminharmos rumo ao estruturalismo utópico que a antropologia toma como objetivo, regredimos dentro do funcionalismo esquizofrênico onde, apesar de ser cada um por si, e Deus por todos, ninguém se importa em dar uma opiniãozinha na vida alheia. Fazer o quê, né? A vida do outro sempre é mais interessante que a nossa. Talvez estejamos apenas fartos das nossas vivências limitadas e precisamos viver aventuras já vividas por outros indivíduos. Precisamos, como um parasita dementador, sugar e distorcer tudo o que está ao nosso redor. Acho que isso nos gera um prazer pessoal maior que qualquer outra relação sexual.

Durkheim já dizia, complementando a teoria antropológica do funcionalismo, em seus conceitos: você nasce em uma cultura sem escolher, e você toma seus ensinamentos e costumes como verdade absoluta. É impossível ser coercitivo sozinho, você nunca vai mudar toda uma sociedade apenas arregaçando suas mangas. Você não vai conseguir ser o tordo da revolução sozinha, Katniss Everdeen. Uma feminista não vai conseguir direitos iguais para todas as mulheres. Um gay não vai conseguir aceitação para toda a comunidade LGBT – e aqui conseguimos gancho para o impasse, de algo que ser grande e evoluído, mas é puxado pela sociedade funcionalista como uma âncora. No pensamento estruturalista de Levi-Strauss, você tem sua passividade com relação a sociedade em que vive, mas pode transformá-la em atividade. Isto é, se você não se adequa a sua comunidade, você tem total autonomia para criar a sua comunidade alternativa. E o povo LGBT não fez isso, você me pergunta? Tentou.

Mas a âncora doente do funcionalismo invadiu sua sociedade alternativa com seus preconceitos sem fundamento, e marginalizou de sua convivência essa célula desfuncional, como sempre fazem. É um impasse totalmente pragmático. A comunidade começa a ganhar seus direitos, e aqui devemos abrir um parêntese: são direitos humanos e não privilégios o que as minorias querem. Mulheres querem igualdade. LGBTs querem ser reconhecidos na sociedade como cidadãos de bem. Querem usar seu nome social em paz. Querem se casar legalmente. Querem adotar crianças (abandonadas por casais héteros, detalhe). Querem viver e serem livres para amar.

Hora ou outra, conseguimos conquistas aqui e ali. Mas não se pode conseguir muito, porque logo chega o cão funcionalista, dizendo que é tudo privilégio. Claro, é fácil chamar de privilégio algo que você já tem e nem percebe. O cão então, trava nossa batalha de minoria. Ele é maioria. Sua justificativa? Está na Bíblia. A Bíblia diz que não pode. Sim, devemos respeitar. Afinal, vivemos em Israel ainda, no início dos tempos. Opa, corre ali. Seu amo te espera.

Não percebe o quão esquizofrênico é isso? Nós não temos a oportunidade de chegar a utopia do estruturalismo nunca. O cão funcionalista insiste em nos perseguir, e nos puxar passos atrás como um peso morto. Nunca chegaremos ao futuro, justificando o presente pelo passado. Conflito.

E sobre os gays que estão no armário? Ou as moças abusadas todos os dias? Continuam presos na generalidade, seguindo padrões errados impostos em uma sociedade que não escolheram estar. Os funcionalistas determinaram a heteronormatividade, então é isso que você precisa ser, pelo menos. Não precisa ser hétero, mas não dá pinta, tá? E você, moça, abaixa a cabeça pro seu marido, ok? É isso que nós, funcionalistas, estamos determinando a você. E ah, rapaz, a moça foi estuprada. Não percebe que poderia ser sua filha? Sim, você precisa pensar na moça como algo próximo de você para ter um pouco de compaixão, afinal, você não consegue controlar seus instintos, né? Homem é homem. Risos.

Enquanto isso, nós vamos ali, naquela multidão, discursar sobre o quão diversa é a nossa cultura e quão miscelâneo é o nosso país, Sobre como aceitamos todo o tipo de diferença e seguimos rumo ao primeiro mundo. Não se preocupem.

Tags : antropologiaartigoculturaestruturalismoevolucionismofuncionalismo
Gabu Camacho

Sobre Gabu Camacho

Team Captain e estudante de Jornalismo que lê, escreve, e se ilude com personagens fictícios desde os quatro anos. Usa coroa na rua e chapéu em casa enquanto sofre por antecipação esperando a próxima visita do carteiro. Autor de "O garoto que usava coroa na rua".