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Crônicas

Crônica: É terra sem dono

Sem-ddza

Esse sou eu, emissário do futuro para aquele que desejar ler. Venho de lugares desconhecidos por todos, vocês que pensam ter o destino em mãos. Sou a desilusão que se aproxima no fim da madrugada, aquela que faz com que homens cometam erros pensando que estão acertando, sou eu e nada mais. Lembro bem que em meu passado distante, lá estava minha mãe a ensinar como se entra no mar. “Não, não vai entrando assim, tem que pedir licença.” E eu, com sete anos não sabia a quem pedir licença. “Mas a quem, mamãe?” Ela nunca me respondeu. Fora preciso alguns anos para compreender que o mar tem dona, tem domínio e não, não se pode invadir lugar tão sagrado de tal modo. Lembro também que em meu passado sempre me fiz de tolo e desgovernado, andava por ai sem saber com quem e como, mas a vida ensina e hoje, no futuro que tanto almejei, sei por onde ir. Esse passado nunca me condenou, longe disso, deu álibi para as tarefas futuras. Conquistas. Derrotas. Todas minhas, de mais ninguém. Compreendi que do mesmo modo que para entrar no mar é preciso permissão, para se fazer, qualquer coisa fora dele, também é necessário alvará. Entendi após erros e erros, muitos por conta de ingenuidade, outros por bem querer, sabendo que estava por errar.

Fé, palavra que faltava e hoje, no futuro, é de grande presença. Era uma fé inexistente a que tivera enquanto vivia no escuro, uma consciência culpada por não ter essa tal fé. Hoje, no futuro, a tenho como guia, mas não só ela, pois já dissera vovó, mulher de fé, que ao exagerar no uso de certa coisa, se cega. Aprendi com vovó que ficar cego não é uma das melhores coisa do mundo. E do mundo ela me ensinou tanta coisa, desde quando cantávamos às cinco da manhã, até quando acendia seu cigarro, tossia por conta da asma, sorria para a doença e acendia logo outro daqueles que era para não dar espaço para a morte. Nunca tivera medo da morte, a velha, e nem tem, ela continua aqui, falando comigo e dizendo: Tem fé. E tenho. Graças à ela todo dia oito de dezembro é sagrado, e toda manhã é triste. Bate as cinco e ouço sua voz desafinada: Vai boiadeiro, que a noite já vem. Me ensinou tudo e quase, a mulher.

Em meu passado ouvia canções inspiradas em Pessoa, poeta sem medo. Poeta com fé. Escrevia sempre que podia, com oito, nove anos, e no fim de tudo matava os personagens que com tanto zelo e inocência criava. Era cansativo viver, mas vivia, não por algo sobrenatural que me guiava, mas por ser teimoso desde pequeno. Olho para aquele garoto, ciente de uma coisas, de outras nem tanto, mas corajoso, ninguém lhe dizia um não e esse não continuava por vigorar. Ah, maldito moleque negro e descalço que subia ladeira correndo, pensando em ser o maior entre todos. Espiava lá do alto, via casas e mais casas, e pensava ser dono de todas elas. Moleque independente, prisioneiro de sua mente sonhadora. Hoje não sonho tanto, matei o garoto e lhe joguei na vala mais próxima. Hoje penso no moleque querendo sonhar, mas não consigo, é só nostalgia e medo. Mas tem fé, criança.

Esse mesmo menino aguardava o carnaval como se fosse a última coisa que veria na vida. Achava maravilhoso a brincadeira que transcorria nas ruas, via de sua janela os homens voltarem no fim da tarde encharcados de álcool, espiava os blocos lotados de conhecidos, seus e da família. Era belo de se observar, gente triste que naqueles poucos dias se fazia a mais bela e feliz gente do mundo. A noite era hora de esperar, aguardava todas aquelas escolas passarem na televisão, até que chegasse a vez da Portela. Toda de azul e branco, desfilando em homenagem ao bom samba. Não se entra no mar sem pedir licença. O carnaval de meu passado era assim, azul, branco, frevo e samba, alegria sem tamanho que resguardo bem no fundo de meus arrependimentos.

Não fora de minha época, mas me lembro como sendo, aquela mulher cantando “Bandeira branca, amor”, com uma voz piedosa e vingativa. Ela cantava aquilo com um quê de perdão, mas sempre soube que ali residia raiva e ódio, mas ambos são primos do falsário amor. Da voz de Dalva lembro bem mais do que da minha, até hoje não a conheço, mas penso que canto bem, bandeira branca cantei por diversas vezes, como hino sem significado. Músicas que embalaram infância e adolescência, essas de longe, de um passado que tento lembrar aos poucos. Mas minha missão aqui não é fazer retrospectiva, muito menos lamentar e chorar o leite que não aproveitei direito. Venho do futuro e lhes digo com a certeza que nunca tivera: Fiquem onde estão, não se arrisquem, não venham. Tenham fé e apenas, não se esforcem nem pensem no que está por vir. Não tentem sair de onde estão. Ai é quente, é bom, é o que é. Aqui é incerto, é terra desabitada de esperança e paixão. Aqui é território do medo, não, não se esforcem.

Emanuel Antunes

Sobre Emanuel Antunes

Estuda História na Universidade Federal de Pernambuco enquanto sonha com um livro seu impresso. Filho do Raio e do Vento, viciado em qualquer traço de música e literatura nacional, assim como em todas as séries que puder acompanhar (ou não).