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Resenha: A Redoma de Vidro, Sylvia Plath

Dois anos antes de suicidar-se em 1963, a poeta Sylvia Plath elaborou esse romance sobre uma mulher – no fundo, ela mesma – que vai perdendo o senso até que sobra só um surrealista e vazio senso comum.

Em “A redoma de vidro” conhecemos a história de Esther, uma bonita jovem que estuda numa ótima universidade e está trabalhando na redação de uma revista popular em Nova York. Teoricamente a vida de Esther é perfeita e invejável, mas algo ainda não está certo para ela, que não se sente parte integrante daquele grupo.

“Não teria feito a menor diferença se ela tivesse me dado uma passagem para a Europa ou um cruzeiro ao redor do mundo, porque onde quer que eu estivesse – fosse o convés de um navio, um café parisiense ou Bangcoc -, estaria sempre sob a mesma redoma de vidro, sendo lentamente cozida em meu próprio ar viciado.”

Mesmo convivendo com pessoas importantes e bonitas, entrando e saindo de festas, fazendo compras e sendo admirada, Esther sente um vazio inexplicável e, em certos trechos, é possível sentir como a personagem se sente presa e sufocada dentro de si.

“Me sentia muito calma e muito vazia, do jeito que o olho de um tornado deve se sentir, movendo-se pacatamente em meio ao turbilhão que o rodeia.”

Após o término do seu estágio, Esther volta à casa de sua mãe, onde fica constantemente isolada e não sente vontade de fazer nada. O que me chamou atenção nesta parte da leitura, foi o descaso da sua mãe com o sofrimento da filha. Depois de um tempo, Esther tem um surto (que ocorre de uma maneira muito rápida), e retorna a uma clínica psiquiátrica onde já esteve antes, e é neste momento que temos a dimensão da depressão que a personagem sofre.

Como o livro se passa na década de 50, uma vez que a personagem entra em crise, ela é internada em uma clínica onde os psiquiátrias da época acreditavam em terapias de choque e o uso de muitos medicamentos como forma de cura de qualquer doença psiquiátrica, submetendo Esther a um tratamento traumático e pouco efetivo. Somente na segunda clínica em que se interna Esther conhece uma médica com a qual se sente confiante para se tratar e melhorar.

Mesmo sem nunca antes tendo passado por essa situação, o leitor consegue compreender o nível do desolamento do paciente depressivo, e mesmo utilizando palavras leves, Sylvia consegue nos transmitir esses sentimentos tão pesados.

“O ar da redoma me comprimia, e eu não conseguia me mover.”

Ainda não compreendi muito bem até que ponto a obra é autobiográfica, uma vez que alguns fatos da história realmente aconteceram na vida da autora Sylvia Plath. Talvez por já saber dessa possibilidade de proximidade entre o livro e a vida da autora, muitas vezes senti a leitura muito mais íntima do que deveria, como se estivesse realmente invadindo os pensamentos de Sylvia Plath.

O livro termina de uma forma aberta para interpretações. Em seus últimos paragráfos, ficamos com a sensação de que Esther (e de certa forma, Sylvia) irá sair da depressão e encontrar um sentido na vida, mas infelizmente o livro e a vida real terminam de forma bem diferente, uma vez que Sylvia se suicidou um mês após a publicação.

“Resolvi que nadaria até estar cansada demais para voltar. Enquanto avançava, eu sentia o coração batendo como um motor surdo nos meus ouvidos. Eu sou eu sou eu sou.”