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Livros, Resenhas

Resenha: Dois Irmãos, Milton Hatoum (+ Graphic Novel)

Narrado em primeira pessoa por Nael, filho da empregada Domingas, Dois Irmãos gira em torno da rivalidade entre Omar e Yaqub, irmãos gêmeos de origem libanesa que moram em Manaus. Apesar de idênticos na aparência, os gêmeos têm personalidades completamente diferentes.

Na tentativa de evitar o conflito entre os irmãos, Halim manda os filhos para Líbano. Mas Zana intervém para evitar que Omar vá embora. Dessa forma Yaqub parte para o exterior, retornando cinco anos depois, ainda ressentido ao constatar a rejeição da própria mãe.

Omar, o caçula, é protegido por Zana. Mimado e inconsequente, não estuda e não trabalha. Por outro lado, Yaqub é um rapaz responsável, que estudou em São Paulo para se tornar engenheiro.

Halim, esposo de Zana e pai dos irmãos, sofre com a obsessão da mulher com Omar. Desde o início do casamento, Halim rejeitava a ideia de ter filhos, pois temia o distanciamento da esposa.

Publicado no ano 2000, Dois Irmãos ganhou o Prêmio Jabuti no ano seguinte, e desde então vem sendo considerado um clássico da literatura contemporânea brasileira. Através do ódio entre os gêmeos, Milton Hatoum narra a ascenção e queda da família de Halim e Zana, e também conta um pouco da história de Manaus no início do século XX. Além disso, no decorrer da história, o narrador-personagem Nael busca descobrir a verdadeira identidade de seu pai.

Em 2015, a trama de Hatoum foi adaptada em uma graphic novel por Fábio Moon e Gabriel Bá – ironicamente dois irmãos. O trabalho recebeu diversos prêmios internacionais, entre eles o Eisner Awards, considerado o Oscar dos quadrinhos. Em breve, teremos um post exclusivo aqui no site mostrando apenas a graphic novel para vocês, então fiquem de olho! 😛

Dois Irmãos também foi adaptada para a televisão, numa minissérie dirigida por Luiz Fernando Carvalho, na Rede Globo. No elenco, grandes nomes como Eliane Giardini e Antônio Fagundes. Irandhir Santos interpretou Nael, e Cauã Reymond deu vida aos gêmeos Yaqub e Omar.

Livros

Romance gráfico dos sobreviventes: trauma e testemunho em “Maus”

Escrever um poema após Auschwitz é um ato bárbaro – Theodor W. Adorno

Maus é uma graphic novel de Art Spiegelman. Publicada inicialmente em capítulos na Raw, revista de quadrinhos e artes visuais de vanguarda editada pelo próprio Spiegelman e Françoise Mouly, entre 1980 e 1991, foi posteriormente publicada em duas edições: em 1986 a parte I História de um sobrevivente: meu pai sangra história e em 1991 a parte II E aqui meus problemas começaram, sendo, por fim, publicada em 1994 em edição completa contento as duas partes.

Segundo EISNER (2005, p. 8) entre 1965 e 1990 os autores das histórias em quadrinhos começaram a se interessar por conteúdos literários, acarretando em um mercado de distribuição e no surgimento de lojas especializadas.

Autobiografias, protestos sociais, relacionamentos humanos e fatos históricos foram alguns dos temas que passaram a ser abraçados pelas histórias em quadrinhos. As graphic novels com os chamados “temas adultos” proliferaram e a idade média dos leitores aumentou […]. Acompanhando essas mudanças, um grupo mais sofisticado de talentos criativos foi atraído por essa mídia e elevou seu padrão. (Ibidem)

Esta obra de Spiegelman se encaixa no que Eisner chamou de “temas adultos”, já que nos apresenta uma narrativa sobre o Holocausto por meio da biografia de seu pai, Vladek Spiegelman, judeu polonês que sobreviveu aos campos de concentração.

O sucesso e aceitação da obra são tamanhos que Maus passa a ser o único quadrinho a ganhar, em 1992, o Prêmio Pulitzer, importante premiação norte-americana dada a obras e instituições que se destacam nas áreas de jornalismo, literatura e composição musical.

Maus nos traz várias dimensões dentro da obra como, por exemplo, o caráter jornalístico, a metalinguagem e a autobiografia. Art nos mostra não só uma história do Holocausto, mas o processo de “contação” e de “investigação” dessa história (já que ele se coloca como personagem). Sendo assim, o autor vai além ao fundir sua própria autobiografia àquela do pai, é uma história sobre consequências acima de tudo e como o evento traumático vivido por Vladek pôde influenciar sua relação com o filho e demais pessoas que o cercam.

Autobiografia e investigação em Maus. Fonte: SPIEGELMAN, 2009, p. 13.

Outra dimensão interessante dentro desta obra de Spiegelman é o caráter de fábula. Como se pôde perceber pela imagem acima, em Maus os humanos passam pelo processo de personificação (ou prosopopeia): judeus são representados como ratos, alemães como gatos, norte-americanos como cachorros, poloneses como porcos e franceses como sapos.

Em um primeiro momento, se considerarmos o conceito de fábula como: narrativa fantasiosa que apresenta uma lição de moral e na qual animais têm características humanas, podemos entender a escolha de Art Spiegelman como um meio de acentuar o caráter “surreal/absurdo” do tema, no sentido de se narrar um fato que foge à compreensão.

Diversos autores que trabalharam com esta temática ou vivenciaram o Holocausto deixaram trechos em que comentam a impossibilidade de se entender Auschwitz. Como, por exemplo, Sarah Kofman no livro Paroles suffoquées:

Sobre Auschwitz e depois de Auschwitz, não é possível narração, se por narração entende-se: contar uma história de eventos fazendo sentido. (KOFMAN apud SILVA, s.n.t., p. 6)

Ideia também presente no trecho de Adorno que escolhemos para epígrafe deste artigo.

O Holocausto perseguiu e exterminou cerca de seis milhões de judeus em uma operação que ficou conhecida como “Solução Final”. Múltiplas formas de assassinato foram utilizadas: fome, frio, trabalho forçado, além da mais conhecida: a morte nas câmaras de gás e posteriormente incineração dos corpos para que nada, nenhum vestígio, sobrevivesse.

Além da dimensão da fábula, o entendimento do Holocausto como um evento que recusa a interpretação lógica é abordado pelo próprio Spiegelman dentro da obra:

A incompreensão de Auschwitz. Fonte: SPIEGELMAN, 2009, p. 224.

Para além desta primeira explicação, o uso da personificação também pode ser considerado como parte do ideal nazista, já que uma das crenças que sustentavam o regime era a de que os alemães eram uma raça superior e os judeus, inferiores.

Isto é, ao não desenhar rostos humanos e suas particularidades, Spiegelman unifica as personagens e as coloca como pertencentes a um grupo homogêneo: aquele designado pela raça. Tal fator fica ainda mais visível ao analisarmos a epígrafe escolhida para Maus, uma conhecida frase de Hitler:

Sem dúvida os judeus são uma raça, mas não são humanos – (SPIEGELMAN apud Hitler, 2009, p. 10).

MAUS E A LITERATURA DE TESTEMUNHO

Nunca existiu um documento da cultura que não fosse ao mesmo tempo um [documento] da barbárie – Walter Benjamin

Literatura de testemunho é o relato de alguém (a testemunha) que passou por algum evento ou experiência traumática. Esse tipo de literatura está primeiramente associado à literatura do Holocausto, aquela feita pelos sobreviventes dos campos de concentração da II Guerra Mundial como, por exemplo, Primo Levi e sua obra mais conhecida É isto um homem? (1947).

Contudo, tal conceito também pode se estender aos depoimentos feitos por sobreviventes de outros genocídios, como os massacres indígenas da América Latina, ou mesmo aqueles que foram perseguidos e sobreviveram a outros períodos ditatoriais.

Segundo Márcio Seligmann-Silva, narrar o trauma assume, para além da importância histórica, o desejo de “estabelecer uma ponte com o outro”, encaixando na categoria de “outro” aqueles que não vivenciaram tal experiência e por isso são incapazes de entender sua total complexidade.

Por outro lado, há inúmeros fatores que dificultam tal processo. Além da já mencionada dificuldade de narrar um evento de natureza tão traumática, há a condição “psicológica” do sobrevivente.

Aquele que produz o depoimento sente dificuldade de se afastar para poder produzir um testemunho lúcido e íntegro, “mais especificamente, o trauma é caracterizado por ser uma memória de um passado que não passa” (SILVA, 2008, p. 69).

O muro não é derrubado por completo e o estranhamento entre o enunciador e o outro e entre a realidade vivida como trauma e a realidade exterior permanecem. A inverossimilhança, o absurdo e o surreal dos eventos vividos precisam ser traduzidos por meio da lógica linguística e da verossimilhança atribuída ao mundo exterior, surge, então, o desafio de se “narrar o inenarrável”. Tal fato pode ser visto em inúmeras passagens de Maus.

Art x Vladek. Fonte: SPIEGELMAN, 2009, p. 6.

Logo nas primeiras páginas da obra somos apresentados a uma remota lembrança de Art durante sua infância em um diálogo com o pai, Vladek. Neste momento, já podemos perceber como um fato corriqueiro da vida entre pai e filho (o aconselhamento) é mediado pela experiência de Vladek nos campos de concentração.

Ademais, outro fator presente em inúmeras páginas é a obsessão de Vladek por economia e organização.

Consequências do Holocausto. Fonte: SPIEGELMAN, 2009, p. 100.

Esta personalidade não é compreendida pelo filho e é o motivo da maioria das brigas entre os dois, contudo, colocando o comportamento atual de Vladek em paralelo às experiências vividas por ele em Auschwitz relatadas ao filho, fica evidente ao leitor a ligação entre as duas realidades.

Um dos motivos que fizeram Vladek Spiegelman sobreviver ao Holocausto foi sua habilidade para negociar. Racionava porções de comida para mais tarde trocar por objetos de seu interesse, negociava com guardas e outros prisioneiros, sempre tentando sobreviver e melhorar, ainda que minimamente, seu tempo no campo de concentração.

Com relação à organização, ela pode ser atribuída à disciplina exigida dos prisioneiros dentro de Auschwitz. Em um dos momentos do relato, Vladek menciona que durante um tempo teve a profissão de bettnachzieher – um “arrumador de cama”, depois que todos arrumavam as camas e saiam dos pavilhões, ele era o responsável por ficar e deixar tudo mais organizado e arrumado.

Um ponto interessante ainda a ser tratado diz respeito ao personagem de Art dentro da obra. As conclusões chegadas acima, por exemplo, são subentendidas pelo leitor. O comportamento de Vladek permanece uma incógnita para o filho.

A incompreensão de Art. Fonte: SPIEGELMAN, 2009, p. 174.

 

Há dois momentos-chave na obra para entender tal relação. O primeiro em uma conversa entre Art e sua esposa, Françoise, e o segundo entre Art e seu analista, Pavel, também sobrevivente dos campos de concentração. Em tais situações, o autor revela a relação conturbada e os sentimentos conflituosos que nutre com relação ao pai e a Auschwitz.

Retomando a teoria da literatura de testemunho, percebemos que há também em Art Spiegelman a dificuldade do narrar. O próprio autor, ainda que não tenha sido perseguido pelos nazistas, também é um sobrevivente e faz parte do trauma já que teve sua vida inteiramente modificada pelo Holocausto, o qual desencadeou a morte do irmão mais novo, Richieu, o suicídio da mãe, Anja, e os problemas de relacionamento com o pai.

Art Spiegelman faz parte de um grupo de quadrinistas que retratam em suas obras temas polêmicos e complexos como o Holocausto. Para além de suas habilidades técnicas e as dimensões do testemunho dentro de sua obra, o livro aqui analisado é um documento importante para a compreensão das grandes catástrofes produzidas pela humanidade.

Em uma era como a nossa, em que regimes de direita sobem novamente ao poder, em que guerras civis se espalham pelo mundo e a aversão entre diferentes povos e religiões parece cada vez maior, é fundamental o conhecimento e compreensão das atrocidades do passado para que, talvez, não cometamos os mesmos erros novamente.

BIBLIOGRAFIA

ADORNO, Theodor W. Crítica cultural e sociedade In:____ Indústria cultural e sociedade. Trad. Juba Elisabeth Levy. Paz e Terra: São Paulo, 2002, 5. e.d., p. 61.
EISNER, W. Narrativas gráficas. Trad. Leandro Luigi Del Manto. Devir Livraria: São Paulo, 2005.
Enciclopédia do Holocausto. Disponível em: < https://www.ushmm.org/ptbr/holocaust-encyclopedia>. Acesso em: 5 dez. 2016.
GERHARDT, Rosani Ketzer; UMBACH, Carla Carine. Uma leitura de Maus: a história de um sobrevivente. Revista Eletrônica Literatura e Autoritarismo. Santa Maria, n. 22, p. 46 – 55, 2013. Disponível em: < https://periodicos.ufsm.br/LA/article/view/12972/pdf>. Acesso em: 5 dez. 2016.
SALGUEIRO, Wilberth. O que é literatura de testemunho (e considerações em torno de graciliano
ramos, alex polari e andré du rap). Matraga: Estudos Linguísticos e Literários. Rio de Janeiro, v. 19, n. 31, p. 284 – 303, 2012. Disponível em: < http://www.pgletras.uerj.br/matraga/matraga31/arqs/matraga31a17.pdf>.
SILVA, Márcio Seligmann. Testemunho da Shoah e literatura. s.n.t. Disponível em: < http://diversitas.fflch.usp.br/files/active/0/aula_8.pdf>. Acesso em: 5 dez. 2016.
SILVA, Márcio Seligmann. Narrar o trauma: a questão dos testemunhos de catástrofes históricas. PSIC. CLIN., Rio de Janeiro, v. 15, n. 2, p. 65 – 82, 2008. Disponível em: < http://www.scielo.br/pdf/pc/v20n1/05>. Acesso em: 5 dez. 2016.
SILVA, Rodrigo Vieira da. Quando a guerra alquebra o pai: a falência da figura paterna em Maus, de Art Spiegelman. Editora EDUEPB: Campina Grande, 2009, 13p.
SPIEGELMAN, Art. Maus: a história de um sobrevivente. Trad. Antonio de Macedo Soares. Companhia das Letras: São Paulo, 2009.