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Felicidade de “Facebook”

Você, como eu, já deve ter tido a experiência de entrar em uma rede social e ter a impressão de que todo mundo está fazendo coisas muito mais interessantes que você. As pessoas vão a lugares incríveis, acontecimentos impressionantes ocorrem, a vida social delas é muito mais agitada que a sua, a vida amorosa então…bom, não vou nem entrar nesse assunto.

Mas então, preciso de contar um segredo, a maioria é mentira. Sério mesmo. A vida de ninguém é tão perfeita assim, quer conhecer uma pessoa de verdade? O facebook dela não vai te ajudar com isso.

O que decidimos postar nas redes sociais é apenas um recorte do que a nossa vida é, um pequeno, “micro” momento do nosso dia-a-dia que resolvemos mostrar para os nossos amigos e conhecidos em busca de atenção. Um breve clique de uma câmera que não representa nem 1% do que somos. Tudo que publicamos sobre nós, todas as fotos que postamos, TUDO tem uma intenção, mesmo que não se tenha consciência disso.

Vou a um barzinho com meus amigos e publico a foto do encontro, qual foi minha intenção? Dizer: “Olha como estou me divertindo, veja só, como minha vida é interessante e quantos amigos eu tenho!”. Mas ninguém sabe e nem vai saber que no mesmo dia tive uma cólica horrível, briguei com meus pais, fui ao encontro em um ônibus lotado, os amigos só olhavam para a tela do celular e mal falaram comigo. Afinal, a parte importante foi registrada, não é mesmo?

O que resolvemos compartilhar com o mundo não é necessariamente, o que somos, mas como gostaríamos de ser vistos pelos outros, ou seja, a imagem na qual queremos que tenham de nós.

Tenho um exemplo verídico disso. Ano passado, eu costumava fazer caminhada em um parque perto de casa. Como sempre, ao final da caminhada eu parava na prancha de abdominal e como o próprio nome diz, fazia abdominais (sério?). Mas num certo dia, uma menina chegou antes de mim e foi usar o aparelho, ou pelo menos eu achava que ela iria. A digníssima sentou na prancha e começou a tirar uma série de selfies, nas mais variadas posições (fazendo eu dar duas voltas a mais, porque já que sou boazinha demais, não quis interrompê-la e falar que queria, de fato, usar a prancha) e para minha surpresa, depois de sua sessão particular de fotos, ela deu uma volta pelo parque e foi embora!

Supondo que ela tenha postado essas fotos em suas redes sociais (abusando de hashtags #fitness #nopainnogain #projetoverao), ela quis transmitir a imagem de uma pessoa super saudável e ativa, mesmo que na realidade não tenha feito sequer um abdominal e eu sou testemunha disso. Uma pessoa que não faz nenhuma atividade física e vê as imagens, vai se sentir mais sedentária ainda. E é tudo baseado numa mentira. Quem nunca viu a famosa foto em pose de yoga, quando você sabe que o indivíduo não fez uma aula de yoga na vida?

Todos temos momentos bons e ruins, dias de ficar de pijama o dia inteiro em casa e dias de sair com os amigos. A vida de ninguém é legal o tempo todo, as redes sociais insistem em mostrar apenas o melhor, porque gostamos de destacar apenas o lado positivo.

Portanto, não se sinta mal e nem pense que sua vida é uma droga se comparada a dos outros, todas as pessoas tem problemas, elas só não querem mostrar. Aquele belo sorriso na foto, pode esconder muito mais do que você imagina.

Claro, que se todos só postassem coisas tristes e melancólicas, compartilhassem todos seus problemas, as redes sociais seriam insuportáveis, mas é necessário ter um equilíbrio, ser autêntico. O narcisismo, a vontade inacabável de ser visto, de ser importante, essa carência por mais e mais curtidas talvez sejam uma evidência que a pessoa não é tão feliz assim. Aqui cabe uma boa reflexão, na próxima vez em que você for postar fotos ou alguma informação pessoal, analise qual a sua real intenção por trás delas e se é realmente importante para você.

Livros, Talks

Entrevista: Jennifer Niven, autora de “Por Lugares Incríveis”

Com certeza “Por Lugares Incríveis” foi uma das melhores leituras que fiz em 2015. O livro me conquistou (não só) pela capa, um trabalho do Estúdio Anêmona. E depois que várias pessoas postaram fotos e recomendações da obra nas redes sociais, decidi que era o meu tempo de ler o romance entre Violet Markey e Theodore Finch, escrito pela norte-americana Jennifer Niven, que já tem resenha aqui no Beco.

Engana-se quem pensa que “Por Lugares Incríveis” é apenas um romance clichê (como muitos que existem no mercado editorial). Nada disso. Jennifer Niven escreveu sobre temas como o luto, transtornos psicológicos, depressão, relacionamentos familiares, etc. Com personagens imprevisíveis – assim como o desfecho do livro – é difícil não terminar a leitura impactado com a forma com que o sofrimento e a solidão podem afetar alguém.

Decidi escrever para a autora agradecendo por ter escrito um livro tão bonito e impactante. Enviei um e-mail pra ela e acrescentei algumas perguntas, como se fosse uma pequena entrevista, pois estava muito curioso pra saber mais informações sobre a adaptação cinematográfica. (SIM, VAI TER FILME!) A Jennifer é sempre atenciosa com os leitores nas redes sociais, então ela foi super simpática ao responder as 5 perguntinhas que eu fiz, que vocês conferem agora!

1 – Conte um pouco sobre como foi escrever “Por Lugares Incríveis”. O que inspirou você? (Filmes, canções, livros, lugares, pessoas…)

Eu escrevi “Por Lugares Incríveis” porque uma vez eu conheci e amei um garoto como Finch. Vi de perto os extremos altos e baixos que ele passava, o Despertar e o Adormecer, e sua luta para estar neste mundo. Ele também era tão incrivelmente vivo, e ele podia fazer esse mundo se sentir mágico. Outra coisa que me inspirou foi que eu experimentei em primeira mão o estigma associado com a perda de alguém para o suicídio, e depois eu não sentia que podia falar sobre a perda porque isso fazia os outros se sentirem desconfortáveis. Precisamos deixar as pessoas saberem que não é apenas certo falar sobre perda e suicídio e problemas de saúde mental, é necessário. Enquanto estava escrevendo, eu escutei canções que me lembravam do garoto que eu amei, e visitei alguns dos lugares em que nós passeávamos.

2 – Como está a produção do filme? Você continua escrevendo o roteiro?

Na verdade, eu acabei de escrever o primeiro rascunho do roteiro! Esperamos poder começar as filmagens na primavera de 2016, mas primeiro precisamos encontrar o Finch perfeito…

3 – Você disse que o Finch foi inspirado por um garoto que você amou. A Violet tem algumas semelhanças com você?

Eu sou parecida com a Violet de várias maneiras – ela é uma escritora, cresceu em Indiana e não podia esperar pra sair de lá, e ela sorri mesmo quando está sofrendo. Mas acima de tudo, nós amamos e perdemos um garoto como o Finch.

4 – Três palavras que você escreveria em post-its agora e o porquê.

Adorável (porque é uma das minhas palavras preferidas, e pode ser usada de muitas maneiras diferentes, todas positivas).
Alegria (porque eu estou no espírito do feriado, e alegria é importante em qualquer época do ano).
Gratidão (porque eu sou grata todos os dias por todas as coisas lindas da minha vida, particularmente meus leitores maravilhosos).

5 – Para ter um dia perfeito, o que você precisa fazer?

Gastá-lo com os que eu mais amo e também tirar algum tempo para fazer a coisa que eu mais amo – escrever. Esses são os melhores dias de todos.

ENTREVISTA FEITA EM 28/11/2015

QUE ESCRITORA MARAVILHOSA, GENTE! Ela ainda perguntou se eu precisava de mais alguma coisa e disse que um dia espera me encontrar no Brasil <3

Status atual: Torcendo pra que a Editora Seguinte publique os outros livros da Jennifer. (Por favor, nunca te pedi nada!)

Colunas

Obrigado, Pimentinha

Dezenove de janeiro tornou-se um dos dias mais chocantes e desafiadores para a música do Brasil. Os rádios noticiavam, a televisão parava para homenagear a interprete, a dona de diversas faces. Morria em um dezenove de janeiro, dona Elis Regina Carvalho Costa, gaúcha, dona de uma das maiores vozes do continente. Pimenta de corpo e alma, apelidada assim porque mereceu, porque era isso e tudo mais. Elis parou um país para dizer: Até logo. E se foi Elis. Mas hoje estamos aqui, trinta e quatro anos depois para, como diz uma amiga sua de música e poesia, louvar e agradecer tamanho talento, relembrar que de Elis se foi muito, mas muito ficou. Perdemos o que tinha para oferecer, o que tantos aguardavam, mas ficamos com seu grito de revolta, sua voz que cruzou cidades e aranhas-céus, que transformou o modo de cantar. Não se cantou apenas. Depois de Elis se canta, mas canta com bravura, com sangue nos olhos. Muito obrigado, Elis. Por ser a interprete que precisávamos, por falar de conversas de bares, de bailarinas, de meninos que vendem laranjas, por deitar e rolar nos palcos da vida. Muito obrigado por apresentar talento, coisa que hoje falta em quase tudo. Por ser música, por materializar a música. Desde seu arrastão até um redescobrir imenso, fora e continua sendo aquela que não grita, mas desabafa, que não dança, mas pousa calmamente entre piruetas e lágrimas. O que foi feito devera? Fora feito muito, diríamos para a cantora. Agora, o que foi feito de Vera pouco se sabe. O que temos em mente é que a menina que rebentara não fora a mesma sempre, e hoje ganha outros significados, a cada regravação, a cada descoberta, a cada novo jovem-velho lhe encontra no fundo de um baú qualquer. Ah, Cantador, canta como ela, duvido! Ofereço tudo que tenho em uma aposta, que não exista aquele que cante como ela. Nem melhor, nem pior, mas igual. Obrigado por ser singular e ao mesmo tempo plural. Plural de um povo que não tem imagem a ser seguida, mas segue, continua vagando por ai, nem que seja com versos no canto do ouvido. Mas fora essa mesma Elis que dissera: Deixa! Deixa quem quiser falar meu bem! E nós seguimos seu conselho, esse seu que fizera tanto sucesso com seu amigo  sambista, homem de fé e enviado para ter protagonismo parecido com o da companheira. Junto à Elis, obrigado também Jair, que neste momento estão fazendo a maior festa que qualquer um já viu. Samba é a palavra da vez. Morro é a palavra da vez, ou o morro não tem vez? Ah, na voz dela teve, e como teve. Mas meu mestre deu a partida, e vamos embora, vamos nos despedindo que a andança é grande, assim como a mulher. Novamente, com toda a admiração do mundo e alegria que esta nos ensinou: Obrigado, Elis. Estrela que ainda brilha, mostrando que música feita para emocionar persiste, poesia cantada com braços e pernas vigora. Canta, Pimenta, canta que a noite é longa e melhor companhia não existe.

 

Elis Regina

1945 – 1982

Autorais

Autoria: Sei que sim

 

“Um de raiva delira, outro enlouquece…
Outro, que de martírios embrutece,
chora e dança, ali.

Senhor Deus dos desgraçados!
Dizei-me vós, Senhor Deus!
Se é loucura… se é verdade
Tanto horror perante os céus…

Quem são estes desgraçados
Que não encontram em vós
Mais que o rir calmo da turba

Dize-o tu, severa musa,
Musa libérrima, audaz!”

| Trecho de “Navio Negreiro – Castro Alves”

 

O moço do cartório perguntou: De onde? Papai não soube responder, na verdade ele não é daqueles que tem muitas respostas. Mais perguntas que respostas. Confuso sempre foi meu pai e continuará sendo, mesmo agora que está morto, bem mais que morto, mas seus questionamentos continuam. Certa vez estávamos sentados na varanda de casa, ele com sua cadeira de balanço, cigarro na mão e uísque esquentando em um banquinho, eu com um livro no colo, se lembro bem era uma das obras de Kafka, mamãe prestando atenção no vai e vem de carros lá longe e minha irmã com o celular sendo estuprado por dedos frenéticos, neste dia papai deixou todos nós sem saber como lidar, ele pousou o cigarro ao lado do copo e disse: E quando se morre, vai pra onde? Silêncio. Cada qual com sua percepção naquele lugar. Eu, com meus anos de catolicismo, respondi que quando se morre começa o julgamento, céu, inferno ou purgatório. Mamãe, recém-convertida ao protestantismo fez questão de criar confronto, de fazer birra frente a minha visão de pós-morte. Os dedos de Alice continuaram sobre a tela do celular. Eu acho, tentava começar meu pai. Eu acho. Ninguém deixava o homem falar. Mamãe dizia que eu estava enganado, que as coisas não são só assim, que tem mais página nesse livro. No fim de tudo acabamos por esquecer a morte e o que vem depois dela e entramos em discussão cheia de entremeios, minha mãe falava Lutero e eu citava o poderio da igreja. Papai continuou no uísque, por mais que mamãe usasse a bebida e o cigarro como exemplos de que seu marido não estaria salvo.

Eu acho

Conseguiu falar papai

Que quando se morre não tem porém, não tem mundo, nem luz. Acho que morre e pronto, se vai e acabou-se.

Hoje papai está morto e não sei bem o que fazer. Não tenho respostas para ele, nem para mim. O livro de Kafka daquela manhã se perdeu há muito, deve ter sido O Processo, sim, O Processo, presente de uma namorada. De Juliana, bons tempos, ah sim. Em que ouvíamos Elis como se fosse a primeira vez, juntos e felizes. Juliana se foi como papai, para mim morreu. Depois do que fez não quero ver nem um fio de cabelo de Juliana.

Mas à hora do enterro se aproxima e olho para esse cadáver que começa a feder. Enterrem logo esse homem, pelo amor de Deus. Quero ver a terra encobrir papai, ele sufocado em sua morte lá por baixo, preso em uma cela de madeira, preso em sua inutilidade. Quero ver como papai reagirá com tudo isso e muito mais. Sinto medo do que será de nós, mas tenho raiva imensa de papai que não deveria morrer, não agora que seu neto está por vir. O velho não sabia, nem eu, nem Bárbara. Fim de mundo é o que vem por ai. Mamãe chora no canto da sala, abraçada com Beatriz, a garota não demonstra nada. Morreu como o homem. Olho para a varanda onde tanto tempo gastamos, jogando conversa fora e falando sobre vida e depois dessa. Olho para a varanda e alguém se aproxima, não consigo ver bem quem seja, mas está usando terno, com flores na mão, algum amigo do velho. O sol se despede e fica nas costas do homem, seu rosto ainda está oculto pela distância, mas depois de alguns segundos vejo a barba que tanto conheço, seu sorriso amarelo por conta da nicotina e a cabeça cheia de perguntas. Papai fica defronte com seu sósia morto, deposita o buquê próximo ao caixão. Chega mais perto, senta ao meu lado e acende um cigarro.

Dia quente não é?

Concordo com a cabeça e espero sinceramente que ele se vá antes do enterro.

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Qual é a minha cultura?

Decidi falar sobre um tema que aprendi em uma das minhas aulas de história na faculdade. O chamado “soft power”, um termo muito utilizado na área de Relações Internacionais. Mas, pode ficar tranquilo, não vou me prolongar e escrever um texto teórico chato e maçante, não é essa a minha intenção, quero apenas mostrar a interferência direta desse poder no nosso cotidiano e como nem percebemos que ele nos influencia tanto.

Existem dois tipos de poder utilizado pelas nações, o “hard power” ou “poder duro”, que nada mais é do que a capacidade militar e econômica de um país como forma de persuadir e dominar outro, ou seja, com o uso da força e o já citado “ soft power” ou “poder brando”, que se refere a um poder indireto, extremamente eficaz e duradouro, através da cultura, da música, da arte, dos valores e ideais, que nos seduzem, nos fazem admirar o estilo de vida de tal país e querer viver como a população dele vive.

Pronto, já expliquei os conceitos e você já deve estar pensando em parar de ler esse texto chato, que mais parece um livro didático. Calma, deixe-me fazer algumas perguntas e responda com sinceridade, por favor.

Suas séries preferidas são americanas, não são? E os filmes? Pelo menos, metade da minha estante é composta por livros americanos e a sua? Não preciso nem falar das músicas, com certeza são. Acho que você já entendeu onde quero chegar. Desde pequenos fomos imersos na cultura norte-americana, fomos moldados por um estilo de vida que não é o nosso, queremos viver da mesma forma que nossos personagens preferidos vivem, quem nunca sonhou em passar um Natal com neve? Fazer parte do grupinho popular da escola ou até do grupo dos excluídos, que nos filmes parece ser tão divertido.

Quem não sonhou em ser um super herói, um mutante, ter poderes, quem não escolheu um dos lados entre “Team Iron Man” e “Team Captain America”? Quis fazer parte do coral da escola, como em Glee (eu, pelo menos), ir pra uma universidade americana e morar em uma fraternidade? Tomar um café com seus amigos no Central Perk, visitar a calçada da fama em Hollywood, ou mesmo ter seu nome escrito nela? Quem não quer ir para Nova York e assistir a uma peça na Broadway? Tenho certeza de que você se imaginou em um dos distritos de Panem ou se perguntou se fazia parte da Audácia, Abnegação, Erudição, Amizade ou Franqueza. Se você respondeu que não, parabéns, você é um divergente (mas se você entendeu essa referência, provavelmente mentiu às perguntas anteriores). As histórias presentes nos filmes, nas séries nos envolvem, nos levam a imaginar uma realidade diferente. É muito mais fácil ser dominado por uma país e uma ideologia que nos parece atrativa, que já nos conquistou e que se tornou parte da nossa identidade.

Mas aí vem a realidade, estamos no Brasil, não somos americanos. O ensino médio não é uma festa, não saímos cantando em uníssono pelos corredores da escola, não elegemos a rainha do baile. Temos que estudar duro para conseguir entrar em uma universidade federal, para tirar uma boa nota no Enem, ou senão trabalhar para pagar a faculdade, corremos atrás dos nossos sonhos e nos deparamos com a dificuldade na hora de fazer escolhas. Por que ninguém disse que a vida é tão difícil? A mocinha, o herói, sempre resolvem seus problemas, como faço para resolver os meus? Acho que esqueceram de dizer que a vida não é um filme hollywoodiano. E o que isso gera? Insatisfação, frustração, começamos a menosprezar nossa própria cultura, nossas raízes, achar tudo ao nosso redor chato, sem graça, não seria muito melhor se eu não tivesse nascido aqui?

Não estou dizendo que você deve parar de consumir os produtos culturais americanos. Longe de mim, eu mesma não consigo. Convenhamos que é muito divertido. Preciso da nova temporada de Orange is the new Black, Sense8, Orphan Black, preciso de mais episódios de Once Upon a Time, How to get away with murder.

Espero ansiosamente pela nova temporada, pelo próximo filme, por mais um livro, isso já faz parte de quem sou. Só te peço atenção, mantenha seus olhos abertos a interesses e ideologias que vem por trás de um inofensivo filme. Hollywood e a indústria cultural são as maiores fontes de poder dos Estados Unidos, então se atente a ela. Busque conhecer a cultura brasileira, que é linda e possui uma diversidade enorme, com certeza você vai achar algo que se identifique.

Claro que você não precisa ouvir funk e samba para valorizar nossa cultura (nem eu quero isso), não gostar de certos ritmos é normal, mas perceba se você não está sendo influenciado pelo que vê, assiste, lê. Nunca tenha vergonha e preconceito contra nossa cultura, até porque não existe uma cultura melhor que a outra, elas são apenas diferentes, e se por acaso exista algo em nossa sociedade na qual você não goste (e tenho certeza que há muitas coisas), não fique só na reclamação,  seja a mudança que você deseja e que o país precisa.

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Morre, aos 69 anos, “Severus Snape” Alan Rickman

Hoje o dia amanheceu triste para os fãs de Harry Potter, e amantes do cinema em geral. O ator Alan Rickman, famoso por interpretar Severus Snape em Harry Potter, faleceu aos 69 anos após uma luta contra o câncer.

Sua morte foi confirmada pela família ao jornal inglês “The Guardian”.

Nós do Beco Literário lamentamos sua morte. Definitivamente, 2016 não começou bem. 🙁

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Quem é Jéssica?

Você sabe quem é Jéssica?

Jéssica é todo mundo que nasceu e cresceu num mundo feito para mostrar que a Jéssica não é gente e tem é que, como dizia Gonzaguinha, “aprender a abaixar a cabeça e dizer sempre ‘muito obrigado'”. Jéssica é todo mundo que nasceu e cresceu nesse mundo, mas, por um motivou ou por outro, acabou aprendendo que, na verdade, é gente, sim, e tem mais é que erguer a cabeça.

Jéssica é o pobre no avião, o negro na universidade, a mulher que não fica calada com o abuso, a pessoa trans que exige o uso de seu nome social, a lésbica que joga na nossa cara o problema do estupro corretivo, o gay afeminado que se recusa a ser alívio cômico, a gorda que usa biquíni, o cadeirante que exige rampas, o cego que exige cardápio em braile, os dois meninos que dão as mãos, as duas meninas que dão um beijo, o bissexual que manda à merda quem o chama de confuso, a praticante de religião de matriz africana que não tem vergonha de falar de sua fé, a feminista negra que se faz ser ouvida…

A Jéssica é toda essa gente e muito mais. E a Jéssica incomoda, sim. Ela entra na piscina e come o sorvete e não acha estranho quando a patroa bota a mesa para ela e ainda passa no vestibular quando o filho da patroa não passa. E a Jéssica vai passando e vai sendo uma sambada na cara a cada instante, um soco no estômago por minuto, um tapa na cara por milésimo de segundo.

E aí, pode ter até alguém que vire e fale assim: Já acabou, Jéssica?

Mas ah, meu bem, acabar? A Jéssica está só começando! Vai vendo!

Como dizem no futebol: Deixou chegar, agora aguenta!

Texto por Renan Wilbert.
Publicado originalmente no Facebook. Permissão concedida para postagem no Beco Literário pelo próprio autor.

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Finalmente e oficialmente lançado “O garoto que usava coroa na rua”!

MAS DEMOROU PARA CHEGAR DIA 4, HEIN? Pois é. Mas hoje foi oficialmente lançado o meu primeiro livro, O garoto que usava coroa na rua, pela Editora Perse!

Para quem estava vivendo no fundo de um poço, o livro estava em pré-venda pela Beco Literário Store desde meados de outubro, com frete grátis para todo o Brasil, conforme eu avisei aqui. E agora, a pré-venda se encerrou! (: Quem foi espertinho e já adquiriu sua cópia, pode ficar tranquilo que os livros começarão a ser entregues a partir de hoje, todos assinados e com dedicatória especial! E ah, não esquece de mandar sua foto com ele pra mim, viu?

A Beco Store, agora está fora do ar para as devidas reformas, porque 2016 promete muitas novidades! Então, caso você tenha alguma dúvida acerca da sua compra, pode chamar a equipe de atendimento na página do Facebook ou enviar um e-mail para [email protected]. A resposta vem rápido. Se não, dá um berro no meu Twitter que juro resolver seu problema na mesma hora.

As vendas de O garoto que usava coroa na rua agora estão por conta da própria editora, então os livros comprados a partir de agora, não vem com autógrafo e o frete será cobrado, também. ): Mas cuidei para que ele não fosse caro, ok? E caso você me veja algum dia por aí, a gente faz uns rabiscos e grava uns snaps bem legais pra compensar, juro. PARA ADQUIRIR O LIVRO, CLIQUE AQUI.

Mania engraçada essa que você tem de transformar sua vida em episódios de seriados, cenas de filmes ou páginas de livros. Mania engraçada essa sua de ligar a música no alto pra adequar a um momento da vida. Não vive em um seriado. Não vive dentro da ficção. A narração dentro da sua cabeça não importa a ninguém senão a você mesmo. Só você ouve a música. Só você se sente infinito. Dentro da sua cabeça, mil conflitos ocorrem, mil livros são escritos, mil amores são perdidos, mil enredos são criados, todos são esquecidos. O próximo sucesso editorial poderia ser um pensamento seu. É isso que O garoto que usava coroa na rua mostra. Memórias jamais perdidas, dentro do universo que é sua cabeça, com breves flashes e lembranças do seu próprio esquecimento – tudo é claro, pelo ponto de vista de um garoto que adorava ouvir a história dos outros e sair andando por aí com uma coroa na cabeça.

E ainda tem booktrailer!

E caso você ainda tenha alguma dúvida sobre o livro:

IMG_0774Sobre o autor: Gabu Camacho é blogueiro, escritor e fotógrafo. Nasceu em 1996, em São José dos Campos, no interior de São Paulo, lê e escreve desde os quatro anos, quando aprendeu a inventar pequenas histórias esperando o próximo volume de Harry Potter. Estudante de Jornalismo, criou o Beco Literário em 2012, site sobre o universo jovem, que agora acumula leitores em todo o Brasil, das mais variadas idades. No tempo livre, grava vídeos aleatórios para o Youtube e sofre esperando a próxima visita do carteiro. @GabuCamacho no Twitter e Instagram.

Atualizações, Autorais

Autoria: A mim

Em plena harmonia comigo, carrego-me para outro mundo, dentro de mim mesma.

Depois de anos, percebi o que realmente sou: Um paradoxo. Assombro-me com o que posso fazer e o que não posso fazer, mas continuo a ser a La petit Ballerine.

Entre acordes, dentro e fora da minha cabeça, liberados por uma flauta doce imaginária, um violino e um Celo, componho minha própria obra, os timbres de um soneto, para o concerto da minha existência.

Na plateia, a dor se contorce no canto mais escuro, onde a iluminação não bate. Bem à frente, consigo ver a querida esperança, juntamente com a alegria, me aplaudirem antes da minha entrada. A cortina encobre a silhueta do medo e da sua prima insegurança, que se tornou minha sombra. Respiro fundo enquanto distingo o soar do piano, uma nota sim e outra não. Tons doces se miscigenam a minha cabeça, fazendo fechar os olhos e começar a dançar.

Sinto as cortinas se afastarem lentamente, apresentando minha vida.

Quando volto a abrir meus olhos, a jovem decadência me segue vidrada, as íris mostrando um arco-íris frio de insegurança e traumas. Tudo tão monocromático.

A multidão de sentimentos que se intercalam a minha frente – um querendo achar uma posição melhor do que a última para avaliar meu desempenho – me golpeiam, e eu vou ao chão.

De repente, os acordes mudam.

Eles recomeçam devagar, lentamente, calmamente.

“Você sempre terá várias chances, La petit Ballerine”

E eu recomeço, deixando dessa vez eles me guiarem. Sorrio enquanto refaço, invento, moldo-me diante da plateia.

E sem ser coisa da minha cabeça, aplausos rompem aos meus ouvidos.

“Magnifique” a felicidade grita pra mim, a mais saltitante entre todas as cabeças.

A minha felicidade.

Choro baixinho, deixando-me ser preenchida por esse sentimento.

Autorais

Crônica: É terra sem dono

Esse sou eu, emissário do futuro para aquele que desejar ler. Venho de lugares desconhecidos por todos, vocês que pensam ter o destino em mãos. Sou a desilusão que se aproxima no fim da madrugada, aquela que faz com que homens cometam erros pensando que estão acertando, sou eu e nada mais. Lembro bem que em meu passado distante, lá estava minha mãe a ensinar como se entra no mar. “Não, não vai entrando assim, tem que pedir licença.” E eu, com sete anos não sabia a quem pedir licença. “Mas a quem, mamãe?” Ela nunca me respondeu. Fora preciso alguns anos para compreender que o mar tem dona, tem domínio e não, não se pode invadir lugar tão sagrado de tal modo. Lembro também que em meu passado sempre me fiz de tolo e desgovernado, andava por ai sem saber com quem e como, mas a vida ensina e hoje, no futuro que tanto almejei, sei por onde ir. Esse passado nunca me condenou, longe disso, deu álibi para as tarefas futuras. Conquistas. Derrotas. Todas minhas, de mais ninguém. Compreendi que do mesmo modo que para entrar no mar é preciso permissão, para se fazer, qualquer coisa fora dele, também é necessário alvará. Entendi após erros e erros, muitos por conta de ingenuidade, outros por bem querer, sabendo que estava por errar.

Fé, palavra que faltava e hoje, no futuro, é de grande presença. Era uma fé inexistente a que tivera enquanto vivia no escuro, uma consciência culpada por não ter essa tal fé. Hoje, no futuro, a tenho como guia, mas não só ela, pois já dissera vovó, mulher de fé, que ao exagerar no uso de certa coisa, se cega. Aprendi com vovó que ficar cego não é uma das melhores coisa do mundo. E do mundo ela me ensinou tanta coisa, desde quando cantávamos às cinco da manhã, até quando acendia seu cigarro, tossia por conta da asma, sorria para a doença e acendia logo outro daqueles que era para não dar espaço para a morte. Nunca tivera medo da morte, a velha, e nem tem, ela continua aqui, falando comigo e dizendo: Tem fé. E tenho. Graças à ela todo dia oito de dezembro é sagrado, e toda manhã é triste. Bate as cinco e ouço sua voz desafinada: Vai boiadeiro, que a noite já vem. Me ensinou tudo e quase, a mulher.

Em meu passado ouvia canções inspiradas em Pessoa, poeta sem medo. Poeta com fé. Escrevia sempre que podia, com oito, nove anos, e no fim de tudo matava os personagens que com tanto zelo e inocência criava. Era cansativo viver, mas vivia, não por algo sobrenatural que me guiava, mas por ser teimoso desde pequeno. Olho para aquele garoto, ciente de uma coisas, de outras nem tanto, mas corajoso, ninguém lhe dizia um não e esse não continuava por vigorar. Ah, maldito moleque negro e descalço que subia ladeira correndo, pensando em ser o maior entre todos. Espiava lá do alto, via casas e mais casas, e pensava ser dono de todas elas. Moleque independente, prisioneiro de sua mente sonhadora. Hoje não sonho tanto, matei o garoto e lhe joguei na vala mais próxima. Hoje penso no moleque querendo sonhar, mas não consigo, é só nostalgia e medo. Mas tem fé, criança.

Esse mesmo menino aguardava o carnaval como se fosse a última coisa que veria na vida. Achava maravilhoso a brincadeira que transcorria nas ruas, via de sua janela os homens voltarem no fim da tarde encharcados de álcool, espiava os blocos lotados de conhecidos, seus e da família. Era belo de se observar, gente triste que naqueles poucos dias se fazia a mais bela e feliz gente do mundo. A noite era hora de esperar, aguardava todas aquelas escolas passarem na televisão, até que chegasse a vez da Portela. Toda de azul e branco, desfilando em homenagem ao bom samba. Não se entra no mar sem pedir licença. O carnaval de meu passado era assim, azul, branco, frevo e samba, alegria sem tamanho que resguardo bem no fundo de meus arrependimentos.

Não fora de minha época, mas me lembro como sendo, aquela mulher cantando “Bandeira branca, amor”, com uma voz piedosa e vingativa. Ela cantava aquilo com um quê de perdão, mas sempre soube que ali residia raiva e ódio, mas ambos são primos do falsário amor. Da voz de Dalva lembro bem mais do que da minha, até hoje não a conheço, mas penso que canto bem, bandeira branca cantei por diversas vezes, como hino sem significado. Músicas que embalaram infância e adolescência, essas de longe, de um passado que tento lembrar aos poucos. Mas minha missão aqui não é fazer retrospectiva, muito menos lamentar e chorar o leite que não aproveitei direito. Venho do futuro e lhes digo com a certeza que nunca tivera: Fiquem onde estão, não se arrisquem, não venham. Tenham fé e apenas, não se esforcem nem pensem no que está por vir. Não tentem sair de onde estão. Ai é quente, é bom, é o que é. Aqui é incerto, é terra desabitada de esperança e paixão. Aqui é território do medo, não, não se esforcem.