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CAPA DA RESENHA NINGUÉM NASCE HERÓI

Num futuro em que o Brasil é liderado por um fundamentalista religioso, o Escolhido, o simples ato de distribuir livros na rua é visto como rebeldia. Esse foi o jeito que Chuvisco encontrou para resistir e tentar mudar a sua realidade, um pouquinho que seja: ele e os amigos entregam exemplares proibidos pelo governo a quem passa pela praça Roosevelt, no centro de São Paulo, sempre atentos para o caso de algum policial aparecer. Outro perigo que precisam enfrentar enquanto tentam viver sua juventude são as milícias urbanas, como a Guarda Branca: seus integrantes perseguem diversas minorias, incentivados pelo governo. É esse grupo que Chuvisco encontra espancando um garoto nos arredores da rua Augusta. A situação obriga o jovem a agir como um verdadeiro super-herói para tentar ajudá-lo – e esse é só o começo. Aos poucos, Chuvisco percebe que terá de fazer mais do que apenas distribuir livros se quiser mudar seu futuro e o do país.

O Beco Literário foi convidado pela Editora Seguinte, pela primeira vez, a ler um livro antes de sua publicação original. Ninguém nasce herói, de Eric Novello, autor brasileiro que possui outros títulos como “Exorcismos, Amores e uma Dose de Blues” e “Neon Azul”, marcados pela fantasia.

Confesso que não conhecia o autor antes de receber o manuscrito para leitura, que no release já indicaba ser uma distopia young adult, mas que se passa em São Paulo. Opa, distopias são comigo mesmo.

Logo de início, já somos ambientados na história, onde o país enfrenta um regime ditatorial de um presidente chamado de O Escolhido, que se baseia no autoritarismo, fundamentalismo religioso e se me permite, um tanto de “anarquia controlada”, onde pessoas que defendem a “direita”, podem fazer como bem entenderem sob os capuzes da guarda branca.

Eu nunca havia lido uma distopia que se passa em locais conhecidos, já que muitos dos cenários que o livro mostra, eu já havia passado e conheço de longa data. É um pouco assustador, e ainda faz aquela conexão tênue (ou não) com a realidade política atual do Brasil. É um tanto impossível não ler certas passagens e pensar, “car*lho, estamos caminhando para isso.”

Nós conhecemos a história do ponto de vista de Chuvisco, o personagem que sofre com suas Catarses Criativas, que diga-se de passagem deram um ponto fantasioso a história com maestria, posso opinar com meu breve conhecimento de um semestre em Psicologia e seus amigos que entre um copo de chope e outro, tentam driblar o regime d’O Escolhido. As cenas são entrepostas durante as partes que considerei de maior ação e te deixa com um ponto de interrogação no início mas que logo é dissipado para dentro do olhar do garoto. O autor consegue te fazer sentir, como é experimentar do que o protagonista está vivendo.

Além dele, temos os personagens secundários (se é que seria justo chama-los assim), muito bem desenvolvidos e com suas tramas pessoais paralelas a trama principal muito bem desenvolvidas. É aquele tipo de livro que você percebe que o autor conhece sobre cada um que está escrevendo, não foi só tinta jogada no papel. O grupo de amigos de Chuvisco são um sonho para qualquer pessoa. Encaram muitos assuntos que a sociedade considera tabu, de uma forma bem aberta, como a sexualidade, o fato de um já ter sido apaixonado ou já ter ficado com o outro… E isso torna a história ainda mais verossímil.

Não é um livro de todo leve, porque assuntos como política, fundamentalismo religioso, sexualidade e até mesmo as batalhas travadas pelos jovens são impossíveis de ser tratados com leveza, por maior que seja a sutileza abordada. Ao meu ver, é uma crítica a nossa realidade no estilo Raphael Montes de ser: exacerbando alguns pontos para que olhemos e pensemos “como nunca percebi isso antes?

Confesso que Chuvisco me cansou em alguns pontos mas que foram facilmente compensados por outros com grande carga de conteúdo impactante que faz pensar e formar uma opinião. Acho que inclusive irei indicar esse livro para o meu professor de Filosofia do colégio, precisamos de mais adolescentes como Chuvisco, Amanda, Cael, Gabi e Pedro por aí, lutando pelos seus ideais sem se deixar abafar pelo ego e pelas artimanhas dos interesses midiáticos dos dias de hoje.

Depois dessa leitura, quero incorporar o protagonista e sair distribuindo exemplares dele na rua para que as pessoas pensem que independentemente de quão loucas sejam as ideias de quem está no poder, sempre haverão adeptos e apoiadores. Aquele ditado “cada louco com as suas loucuras” nunca foi tão falso já que cada louco, com certeza atrai adeptos para suas loucuras

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Gabu Camacho

Sobre Gabu Camacho

Team Captain e estudante de Jornalismo que lê, escreve, e se ilude com personagens fictícios desde os quatro anos. Usa coroa na rua e chapéu em casa enquanto sofre por antecipação esperando a próxima visita do carteiro. Autor de "O garoto que usava coroa" e "Predestinado".

2 Comentários

  1. Toda vez que vejo uma resenha do Gabu fico com aquele sorriso todos-os-dentes. Impossível não se encantar com esse estilo de escrita do Gabu. Aliás, todos do blog arrebentam, tanto que eu sou leitor fiel, estou toda semana acessando o blog, mas as resenhas do Gabu… ah, as resenhas do Gabu… fala sério, são demais! Ou melhor: são mais que demais!
    Valeu Gabu!

    Abraço a toda a equipe do blog, Dieison Engroff, do Rio Grande do Sul.

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