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The Epic Battle: Como se portar no Brasil europeu

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Hoje tive uma choque de realidade, daqueles que te deixam no fundo do poço e por lá se fica, sem mais nem menos. Estávamos nós, eu e vovó, vendo mais um programa da tevê aberta. Da Globo, como sempre. E uma atriz, negra, apareceu. Vovó, que por muito tempo permanecia em uma cochilo interminável na sua cadeira, virou e me disse: Que cabelo feio o dessa menina. Engraçado, que vovó, branca, de olhos verdes, tem um neto negro e pobre, assim como ela. Bem, o choque de realidade me veio porque ele sempre por aqui esteve e eu não conseguia tatear o problema, o preconceito em si. Vovó está entre tantos que reproduzem o preceito de que belo é o limpo, o branco, o de cabelo liso e perfeito, perfeito em suas percepções, de que lindo é ter olho azul e lábios finos, ter corpo esteticamente branco, de que o certo é branco e fim. O ruim nem está somente nisso, a coisa piora quando não é só vovó, com seus oitenta anos que pensa assim, mas meu primo, com seis, que tem pele negra, tem rosto negro, tem voz de negro e me vira, em qualquer dia desses e diz: Eu sou branco. Vamos falar um pouco sobre isso.

Minha geração tem como lema “Ser cópia”. Não tem essa coisa de singular não, tem que ser igual a tudo e a todos. Chega a ser cansativo de ver isso, não consigo parar para observar as pessoas se deteriorando para que no fim de tudo consigam ser parecidas com esse e aquele ser. Eu sei, isso é comum ao homem independente da época, seguir tendências que de uma hora para outra mudam, mas também é comum ao homem ter esses momentos de inquietação. A literatura nacional é um exemplo grotesco disso, pode procurar, lhe desafio a fazer isso, pesquise os “grandes nomes” da escrita do Brasil na atualidade, pode conferir todos os resultados, se encontrar mais de dez negros ou indígenas nesse seu senso, faço toda a questão de me retirar desse site, deixar de escrever o que for por toda a minha vida, não que isso signifique algo para você, mas para mim tem toda a importância. Tenho toda a certeza que seu resultado vai ser quase, mas um quase pendendo para o unanime. Entre esses escritores seus temas geralmente são: “juventude precoce” “olá, eu sou um youtuber” “Não tinham o que publicar, me publicaram”. Podemos dividir entre dois blocos, os seguidores da onda “conformista”, onde a escrita não resulta em nada de útil para o leitor, onde não o faz pensar em coisa alguma, e outro bloco, formado pelos “vamos ser iguais”. Esse segundo bloco é o mais perigoso, é onde o íntimo do leitor se transforma, ele necessita, tem toda a pressão para se tornar aquilo que o autor é, esteticamente perfeito, sem uma espinha, de cabelo perfeito e sorriso desenhado por alguma divindade. Vamos falar sobre esses escritores também.

Não estou aqui para debater sobre o dinheiro de seu ninguém, claro que não, mas também me aponte um autor destes que são de classe média, só um e fico satisfeito. Não, você não irá encontrar nenhum, que seja ou que tenha advindo de uma classe social pobre, não existe esse. Está se formando uma quadro de autores que são modelados para influenciar os jovens a serem seus retratos. As redes sociais estão atoladas desses exemplos. A forma como se fala, o jeito que se portam em determinadas situações. Parem, em nome de qualquer que seja o deus, parem porque está se tornando exaustivo. É maçante conviver com pessoas que não apresentam senso, que não conseguem filtrar o conteúdo que lhe é arremessado. O que temos hoje são pessoas que compram um violão porque é legal ter violão, mas não conhecem uma música para tocar naquele instrumento, não sabem manejar. Compartilham fotos de Chicos e Caetanos, mas só conhecem “Construção” e afasta de mim esse cálice, porque nem o título sabem. Pai, afasta de mim esses milhões de jovens que não conseguem discernir sem pedir ajuda aos múltiplos fazedores de moda. Pai, não permita que todos e todas se tornem assim, meras cópias que de nada servem para a criação de conhecimento. Mas eis que ainda existe esperança, sabemos que sim, tem-se estudantes lutando para que suas escolas não fechem, outros correndo atrás de causas que parecem inalcançáveis. Ainda existe esperança mas ela é pequena por demais. O que existe é uma tendência maldita onde quem é negro tenta ser branco, porque eles são brancos, de quem é pobre tentar se comportar como filho de empresário. Sai dessa, favelado, porque você é favela e sempre vai ser, não adianta se disfarçar, tuas raízes, teu povo, eles estão impregnados no teu rosto por mais que você tente modificá-lo. Essa gente que tu renega, ah, ela vai te perseguir até o fim. Corre dela, mas corre muito, porque essa gente é rápida e astuciosa. Escravo é assim, não é, cheio das artimanhas. Pois bem, somos escravos, mas não nos rendemos a esse perfil europeu, a esse modo de ser totalmente elite. Meu desprezo a esses senhores e senhoras que defendem o não preconceito mas o multiplicam diariamente, minha resistência aos que negam suas origens. Como diria Pessoa, “fechem tudo isso a chave, e joguem a chave fora”. Façamos isso, juntamos toda a pressão existente nas crianças e adolescentes que por ai existem e joguemos fora. Quem dera, quem dera pudêssemos fazer isso. Mas concluindo essa confusão que é ser Brasil em uma Brasil que aparentemente não existe. Quem for do seus, que o faça, que não deixe se padronizar a cultura, a música e a literatura, o homem em todas suas expressões, que não se transforme tantos em um só.

 

Emanuel Antunes

Sobre Emanuel Antunes

Estuda História na Universidade Federal de Pernambuco enquanto sonha com um livro seu impresso. Filho do Raio e do Vento, viciado em qualquer traço de música e literatura nacional, assim como em todas as séries que puder acompanhar (ou não).