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Imagine viver em um mundo onde as pessoas se importam mais em registrar os momentos de sua vida ao invés de curti-los. Que o número de ‘likes’ em uma postagem seja mais relevante que o conteúdo da mensagem passada. Que o número de seguidores em uma rede social decida se você é ou não importante para os outros. Apesar de parecer que me refiro á um indivíduo em particular ou à uma determinada forma de estilo de vida atual, isso tudo é parte do universo do livro O Círculo, de Dave Eggers. Lançado no Brasil no começo de 2014, o mundo contado nesse romance sci-fi nunca foi tão próximo da vida real quanto é agora.

O livro conta a história de Mae Holland, uma jovem mulher, que até então, era uma funcionária pública e pouco ligava para seu perfil nas redes sociais. Tudo isso muda quando ela consegue uma indicação para trabalhar na gigantesca Círculo, localizada no Vale do Sílício onde todos almejam trabalhar. No começo associamos a imagem da empresa diretamente ao Google mas ao decorrer da história é notável que se trata muito mais do que isso: é o Google, Facebook, Periscope, Paypal, Twitter, Medium e mais um conglomerados de site em uma única empresa, causando um quase monopólio virtual. Não bastasse todo esse domínio online, a empresa ainda produz inúmeros gadgets que podem te ajudar a manter um acompanhamento diário da sua saúde a até mesmo registrar todos (quando eu digo todos eu me refiro a todos mesmo) os momentos de sua vida.

Para conseguir ascensão no novo emprego, Mae precisa que sua presença online seja mais impactante e que ela consiga atrair um número maior de seguidores: é aqui que a história começa. Para atrair mais pessoas em suas redes, Mae se torna uma mulher transparente, ou seja, ela transmite tudo sobre sua vida ao vivo para qualquer usuário do mundo, sendo daquelas pessoas que curte e comenta o status de todos seus amigos e está sempre online para interagir com eles; Caso ela não compartilhe algo de sua vida pessoal ou fique por fora de algum acontecimento que ocorre pela rede (algo como “não conhecer o meme do momento”) ela é repudiada por seus chefes. Fora isso, também utiliza os serviços que a empresa oferece para melhorar sua vida: compras on-line, reabastecimento automático de mantimentos para sua casa, monitoramento 24hrs da casa de seus pais e os mais variados tipos de serviços que te tornam refém de uma única empresa.

Ao decorrer do livro, é notável a alienação e lavagem cerebral pela qual passamos diariamente e sem perceber. O ex-namorado de Mae não a reconhece mais pouco tempo depois que a moça embarca nesta jornada profissional e tenta trazer ela de volta ao mundo off-line, porém uma vez que você começa a fazer parte disso é complicado sair.

Segredos são mentiras

Compartilhar é cuidar

Privacidade é roubo

Por que esse livro DEVE nos chamar a atenção?

Basicamente, ao fim do livro você se faz a seguinte pergunta: até onde temos direito de privacidade?

Compartilhamos coisas pessoais todos os demais com diversos desconhecidos e não sabemos o destino final dessas mensagens. Será que isso vai me prejudicar futuramente? Qual o limite disso tudo?

Hoje temos diversos dados nossos numa nuvem. Fotos, mensagens, áudios, arquivos pessoais. Estamos a mercê de algo, de alguém, mas de quem? Do que?

O Círculo tem uma narrativa bem preguiçosa. O livro é extenso e o que me fez ir até o fim foi seu excelente plot. A personagem não é das mais cativantes e diversos momentos dela sozinha, que dariam ótimos momentos para uma auto-reflexão, se tornam completamente desnecessários já que não contribuem com o seguimento da história. Apesar disso, não deixa de ser uma leitura extremamente recomendada para todos nós que estamos neste universo, acompanhando suas inovações e usando ferramentas cada vez mais sem limites.

Tags : o circuloresenha
Marcela Schimel

Sobre Marcela Schimel

A estrada é longa e a vida curta, vem comigo que caminho eu explico melhor.

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