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Resenha: A de Mar – A história de Domar Della, Ana Clara Medeiros

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Em sua obra anterior, “Cartas de Henry”, Ana Clara Medeiros conseguiu mostrar como e para quem escreve, o primeiro livro da autora foi publicado digitalmente pela editora Saraiva (Assim como o segundo, este que será resenhado a seguir), e narrou a história de um garoto depressivo e as diversas formas de lidar com as situações que o destino lhe oferecia. Você pode adquirir o livro clicando aqui e com toda certeza encontrara uma ótima leitura, mas vamos ao que interessa, com cortes cirúrgicos, semelhantes à obra que para o escritor que vos fala, não influenciando pelo espírito de fã, mas como crítico de toda a literatura, sabendo a metodologia e as fases que são submetidas para a produção de algo do porte, é o livro do ano no cenário nacional.

“A de Mar” para pularmos justamente essa parte introdutória e partirmos para o diálogo com os personagens e seu enredo, conta a história do jovem escritor, Domar Della, como o título sugere, e sua relação com uma inesperada moça, que se apresenta logo à primeira vista como Iara. Domar Della escreve crônicas para um Jornal que circula em Pernambuco, estado onde nasceu e reside. A história começa a desenrolar justamente quando Domar, após crônicas e mais crônicas aclamadas pelo público e pela crítica, acaba por escrever uma história que não condiz com sua linha produtiva, o público sente que a última história publicada por Domar no jornal é sua pior, por assim dizer. É nesse mesmo momento, antes da repercussão negativa da crônica, que Domar pede férias de seu trabalho, por se sentir esgotado e incerto sobre determinadas coisas, as férias são concedidas. Só que este seria incumbido, após sua última história ter sido rejeitada, de voltar ao Jornal com uma crônica que deve ser bem melhor de todas aquelas que este publicara, justamente para superar essa má fase causada pela última. Domar se vê com um mês para conseguir inspiração e colocar no papel algo que para início parece forçado.

“Viu que viver era isso, um mar a ser desbravado”.

É justamente neste mês que este se aproxima da prostituta Iara, conhecida por ele em uma de suas noites entre os bares do Recife Antigo. Iara se transformara de figurante para personagem de grande importância no enredo de “A de Mar”, é ela que comporá todo o quadro atual de Domar, neto de um grande marinheiro. Marinheiro esse que deixa sua sombra como plano de fundo do livro. O avô de Domar, Henrique Della, sempre está nas entrelinhas, aparecendo aqui, acolá, principalmente quando todo o rebuliço causado na vida de Domar ocorre justamente porque esse retratou a história do avó na crônica que foi debatida mais acima.

O livro é intenso, desde a primeira frase até sua última página, desde quando fala sobre Henrique Della e seu amor, Orun, bem no começo da narrativa, até quando adentra na história de seu neto, Domar, e sua relação com a história, com o humano, com o Ser tão intensificado no último bloco da obra. Estabeleceremos uma linha efetiva de avaliação sobre “A de Mar” a partir de agora, comecemos pelo enredo. O contexto adotado por Ana Clara Medeiros é contemporâneo, utiliza da paisagem de Recife como plano de fundo e em algumas partes como atuante desta história, é em Recife, principalmente no Marco Zero que pulsa “A de Mar”, tem o ar das vanguardas literárias Pernambucanas, tem ar e forma destas vanguardas, pois inova completamente não só na forma de se escrever, mas o que adota como tema, indo de mitologia Iorubá e o ocorrente sincretismo religioso ocorrido no Brasil, até a psique. Um ponto alto de toda obra é esse estudo bem calculado da psique humano, é um deleite para qualquer leitor. Vemos entre as páginas a exploração dos efeitos e defeitos que a mente oferece, de como o homem pode ser traído ou saber manejar suas ações, é magistral a habilidade da escritora, principalmente neste ponto e se preciso falaremos dele por muito tempo. Para quem leu sua primeira obra, já citada aqui, pode-se perceber uma maturidade, não só temporal como teórica, no momento da escrita. É algo que vem do íntimo, nada superficial como é retratado pela maioria dos “escritores” atuais, e parte para o macro, para a mentalidade não só do escritor, mas de todo e qualquer homem.

“A experiência de amar algo ou alguém até que me parecia bonita na poesia, mas não havia nada melhor do que atribuir aquele sentimento tão incrível para si mesmo. Viver nas condições de um amor próprio muitíssimo sadio me parecia melhor negócio. Não precisava de outra pessoa para me completar porque eu já me sentia inteiro o suficiente. A solidão vinha de bônus, tanto por sorte como por azar. Ao fim da cartada, ser humano também necessita da solitude”.

Assim como João Cabral de Melo e Neto apresentava toda uma intimidade exclusiva com o Rio, Ana Clara Medeiros é amiga de infância do Mar, todo o lirismo que este oferece é acolhido pela autora, é estudado e sentido, por fim escrito sabidamente, sem barroquismo, sem extravagâncias, é uma escrita concisa e poética ao mesmo tempo, não fica presa na necessidade de se mostrar bela, e por isso mesmo consegue ser poesia pura. A orla de Recife já ganhou diversos significados através do tempos, por dezenas de escritores, mas em “A de Mar” se vê algo totalmente diferente, não conseguirei conceituar o que senti lendo sobre o Mar, sobre o que o compõe, sobre como ele dilacera e une pessoas, nunca que terei consciência para isso, o mar não permite, e ficou claro bem mais que isso em “A de Mar”, o mar em seu vai-e-vem trás milhares de significados na escrita de Ana Medeiros, como disse, não serei capaz de traduzir concretamente tudo que se pode captar da relação homem-mar colocada à mesa pela autora, como diria Fernando Pessoa, “Sinta quem lê”, pois sintam com todo o prazer do mundo o que é exposto na história de Domar Della.

A estética não apresenta erros evidentes, pois procurarei por muito tempo e tenho certeza que não encontrarei, está tudo bem amarrado, como falei, é poesia pura que engrandece o real. Não se encontra palavras fora do lugar, frases dispersas apenas para interligar capítulos e/ou situações, o livro foi meticulosamente planejado e executado de forma limpa. “A de Mar” é além de tudo isso, um livro onde o sentimento vaga, literalmente, a flor da pele, se respira paixão, medo, naturalismo. A personagem que começa o livro sendo denominado Iara é um esplendor de tudo isso, é poesia viva que aparece para Domar desvendar, dedilhar música e transforma-la em literatura bruta. Ana Clara Medeiros faz tudo isso, e faz em dobro, pois consegue repetir com seu personagem, ambos senhores de seus mundos, ou não. Iara estaria para Domar como o verso da canção “A Beira e o Mar”, interpretada por Maria Bethânia em 84, quando esta diz “Você será sempre a beira, e eu toda água do mar.

“[…] Agora, quero deixar um tiro me invadir, jogar-me no escuro e te beijar mais tão profundamente até me enfiar por dentro do seu ser lá no fundo, no encobrimento dos pensamentos, onde nossas mãos irão de unir e eu finalmente descobrirei, ou melhor, descobri sem ao menos fazer isso que era no seu mar que este homem sem eira nem beira nem volta e meia deveria navegar, que foi através do partimento do cais, do dinheiro sujo, do sexo barato, que pude conhecer então a chave que me libertara do privilégio de não conhecer verdadeiramente o significado da palavrinha com vi.”

É uma história que cativa de imediato, sem precisa de entre meios para convencer o leitor, esquematizada da melhor forma para um livro do gênero e com um porte fantástico, composta por alegorias presentes na mentalidade de todo e qualquer ledor, que ao se deparar com este livro ficará surpreso, lerá cada página boquiaberto, o terá como um de seus preferidos. Intrigante, bem mais que provocativo e sobre todas as coisas uma obra para se ler com toda a atenção e apreço que possa existir. Quando chega-se o momento de mergulhar, não se encontra meias-voltas, desculpas, não, não se fala. Se mergulha.

Mergulhe na mais bela obra do ano. Obra essa que peca em apenas um ponto: Acaba num piscar de olhos.

 

Para adquirir “A de Mar -A história de Domar Della”, clique aqui e compre seu exemplar. E para acompanhar todas as novidade sobre a obra, curta a página no facebook acessando esse link.

 

Emanuel Antunes

Sobre Emanuel Antunes

Estuda História na Universidade Federal de Pernambuco enquanto sonha com um livro seu impresso. Filho do Raio e do Vento, viciado em qualquer traço de música e literatura nacional, assim como em todas as séries que puder acompanhar (ou não).