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O Silêncio no Céu

O som parece ser o objeto de estudo escolhido para explorar os sentidos do telespectador ao assistir “O Silêncio no Céu” frente ao motivo pelo qual 81% das mulheres entrevistadas pelo site Think Olga já deixaram de fazer algo: assédio ou estupro. Embora os efeitos sonoros sejam uma qualidade técnica autêntica do diretor Marco Dutra em seus trabalhos, não houve um momento em que a audição não foi porta-voz para o que possa restar de um ato de violência extrema: torpor.

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O Silêncio do Céu, estrelando Carolina Dieckmann e Leonardo Sbaraglia, estreará dia 22 de setembro em toda a América do Sul e conta a história de Diana (Carolina Dieckmann) que foi estuprada dentro de casa e do marido Mário (Leonardo Sbaraglia) que viu a violência acontecer. Dessa forma, o filme se desenrola acompanhando as reações de Mário frente ao silêncio da mulher. A trama se passa no Uruguai e traz atores de origens distintas, como Paula Cohen, filha de uruguaios nascida no Brasil; Mirella Pascual e Álvaro Armand Ugón, que são uruguaios; Chino Darín e Leonardo Sbaraglia, os dois argentinos; Roberto Suárez, espanhol; e Carolina, que é brasileira.

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De uma introspecção intensa, o filme gira em torno do medo. O medo do estupro. O medo da impotência. O medo da impunidade. E é justamente esse medo que leva o público adiante para saber o resultado da cena que marca o início do filme, levando em conta o psicológico das personagens.

Para a construção de Diana, uma estilista brasileira que se mudou para o Uruguai quando conheceu o marido e, com ele, teve dois filhos, Carolina Dieckmann disse que teve que “dissecar” o texto e criar uma intimidade maior do que havia no roteiro já que teve dificuldade em construir uma personagem que deixa o silêncio tomar conta dela, sem justificar suas ações. Sobre a cena de estupro, Carolina se emociona: “Eu vejo essa cena com alegria. Apesar de [a cena] ser dura, eu tenho muito orgulho dela.”, disse a atriz na coletiva de imprensa sobre o filme.

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Além do som, outra marca deixada por Marco Dutra são os símbolos. Uns estão explícitos pois são lembrados o tempo todo e possuem uma conexão entre os papéis, enquanto outros passam por pouco despercebidos. Da mesma forma, os personagens secundários e os locais escolhidos seguem a justificativa de Marco de tentar aumentar tudo para dar a devida atmosfera à história que é comovente e aterrorizante. Uma das excentricidades usadas por Marco foi o convite à atriz Mirella Pascual, do filme Whisky, para ser a dona do viveiro, que tem um ar místico. O viveiro foi outra escolha do diretor que queria algo maior para a história e teve de trocar a locação original.

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De forma geral, o filme é interessante por explorar o significado do silêncio, dos medos e dos símbolos. O roteiro, adaptado do livro “Era El Cielo”, é bem construído e prende o telespectador de forma intensa para acompanhar o desfecho da trama de Mário. No entanto, embora adaptado para tratar do estupro – já que o livro discute mais a questão de gênero -, o filme falha ao explorar a fundo a situação de violência, que é a cena inicial do longa. A questão pairada é “o que Mário fará em seguida?”, quando, na sociedade vigente, deve-se ouvir o lado da mulher e apostar na educação e no dever do Estado em prover segurança – não necessariamente violência combatendo violência -, e na trama não há nada disso, nem a polícia é acionada. O que acontece pós-estupro fica nas mãos de Mário, acompanhado pela narração do mesmo, e a voz de Diana ocupa por volta de ¼ do filme. Por outro lado, é compreensível a escolha dos roteiristas, produtores e diretor, pois o silêncio não deixa de representar o estado de choque e a incomunicabilidade do casal, como o próprio Marco Dutra expressou na coletiva. Assim, há dois jeitos de analisar o filme, a primeira como a ficção que é, carregando profundas análises do psicológico do protagonistas e personagens secundários acompanhado do torpor e medo que o estupro causa. A outra é por meio da arte como política e, nesse caso, como esse filme de grande repercussão pode mudar a visão de mundo do telespectador.

Tags : Carolina DieckmannestreiafilmeO Silêncio do Céu
Thais Monteiro

Sobre Thais Monteiro

Jornalista para contar histórias.