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Cinema e TV

“Alien Covenant” é obra-prima de Ridley Scott

alien covenant

Alien: Covenant é sensacional. Você ouviu o contrário? Já assistiu e está se perguntando se eu entrei na sessão errada? Eu consigo explicar. Não é tão difícil entender porque o filme não atendeu às expectativas de tantos fãs; mesmo sendo uma sequência direta de Prometheus (2012) que, por si só, dividiu o público, o retorno do título “Alien” fez com que muitas pessoas esperassem um filme de terror. O próprio cartaz do filme, com a cabeça do Xenormorfo abaixo da frase “Corra”, indicava que seria uma experiência eletrizante. Ao invés disso, tivemos cenas profundas e diálogos complexos, tudo dentro de uma fotografia linda e cuidadosamente trabalhada.

Vamos analisar os momentos cruciais do filme, o que eles significaram para a saga Alien e porque, por si só, o filme tem seu mérito como uma das maiores produções de Ridley Scott. Mas claro, para isso, haverão MUITOS SPOILERS.

[SPOILERS ABAIXO]

O Prólogo e a Conexão com Blade Runner

O filme inicia com um prólogo. David (Michael Fassbender), aparentemente recém-nascido, conversa com seu criador, uma versão mais jovem do Peter Weyland (Guy Pierce) que vimos em “Prometheus”. Weyland testa as capacidades de David, desde reconhecer objetos até tocar uma sinfonia. Por fim, a situação acaba ficando estranha quando David demonstra inteligência até demais; o andróide diz algo do tipo: “Você procura o seu criador. Eu estou olhando para o meu. Você vai morrer. Eu não”

Weyland interrompe o raciocínio do andróide ordenando-o que lhe sirva chá, o que David faz, resignado.

Esse prólogo é importante para mostrar a personalidade de David. Quem assistiu Blade Runner, lembre que Ridley Scott já confirmou que ambas as sagas se passam no mesmo universo. Os temas de Covenant se aproximam mais do questionamento de identidade e autenticidade apresentados em Blade Runner através do arquétipo dos personagens andróides, ainda mantendo os temas mais existenciais trabalhados em Prometheus. No filme anterior, David já havia expressado, através de vários diálogos, sua insatisfação com sua posição perante a humanidade. Em Covenant, ele toma seu lugar como vilão de maneira majestosa. Não minto que fiquei na ponta da cadeira, mão sobre a boca, pensando “Que filho da $#%*!” quando ele massacrou toda a cidade. Mas isso é mais para frente.

O Plot

O filme propriamente dito começa com o título abrindo da forma clássica, com a tipografia de Alien. O visual da nave, assim como grande parte da trilha sonora, foi construído explorando sci-fi dos anos 80, com os temas originais do primeiro filme. A nave (chamada Covenant, uma referência à arca de Noé) e sua tripulação estão em uma missão colonizadora, carregando milhões de colonos. Uma onda solar abala a nave, e o capitão morre numa explosão em sua câmara criogênica. Quando assisti essa cena, pensei “Quem foi o cara que eles pagaram pra aparecer dentro de um prop e se contorcer como se tivesse em chamas?”.

Cenas depois, descobri que ele era James Franco, e isso me perturba até agora.

O maior problema em si do roteiro está quando, miraculosamente, após a rejeição da tripulação em voltar às câmaras criogênicas, um planeta próximo previamente não-mapeado aparece do nada. Parece bom demais para ser verdade, e é. Mas como ninguém tinha percebido um planeta inteiro nas sondagens? Parece MUITO coincidente que eles estivessem passando perto do tal planeta justo quando a onda solar os atinge. De qualquer forma, não acho que seja o suficiente para caracterizar o roteiro por inteiro como algo mal-feito.
A chegada no planeta é visualmente maravilhosa. Scott impressiona mostrando exatamente o que precisamos ver para nos impressionar: a perspectiva de tamanho entre a nave e as montanhas, o lago, o os tons escuros e misteriosos da floresta. Tudo parece guardar um segredo.

Daí, começa toda a infecção com as quais já estamos acostumados. Criaturas começam a nascer de humanos infectados, para logo depois caçar os que sobreviveram. Essa repetição/reaproveitamento de temas e estruturas anteriores foi alvo de muitas críticas, mas há um detalhe que muitos parecem notar. Como em muitas séries de filmes (Star Wars, James Bond, Harry Potter, filmes da Disney) existe uma “fórmula” a ser usada, tanto para segurar os fãs quanto para tornar a experiência de digerir a narrativa algo familiar e atrativo. Covenant simplesmente fez o que seus antecessores já fizeram: contou sua história dentro da fórmula Alien.

O Vilão

Covenant pega emprestado vários elementos de Paraíso Perdido (Paradise Lost), obra do britânico John Milton, na construção do antagonista. No poema épico, publicado em 1667, Lúcifer lidera uma rebelião contra o Reino dos Céus, falha e torna-se o príncipe sombrio (mais conhecido como “Capeta”). David, por sua vez, serviu aos humanos por toda a sua vida, cada vez mais decepcionado com seus criadores e a condição à qual era relegado. Com a oportunidade de conhecer o criador de seus criadores em Prometheus e a decepção que isso o trouxe, o andróide se vê desacreditado. Relegado à condição de cria de algo abominável, que por sua vez havia sido criado por algo monstruoso, David decide tomar o poder da criação para si.

O que torna o antagonismo e a problemática do filme tão interessante é que, ao invés do clichê “revolta contra a sociedade” ou “revolta contra o sistema”, aqui vemos uma revolta contra a identidade. É muito mais profundo. David é um maluco assassino porque resolveu tomar nas mãos o controle de algo que ninguém deveria controlar: a vida.

Os Dialógos

É difícil criar diálogo de qualidade com personagens que não se fazem muito presentes. Infelizmente, a tripulação da Covenant não fica guardada em nossos corações, salvo, talvez, pela protagonista. Talvez.

Mas aqui há uma exceção para David/Walter. Não foi apenas a atuação de Michael Fassbender que foi fantástica. A edição, que nos permitiu vê-lo fazendo o maravilhoso trabalho de contracenar consigo mesmo várias vezes, também é excelente. E, na minha opinião, a joia do filme: os diálogos. Walter é um personagem amável, disposto a proteger seus companheiros — o típico andróide amigo. Walter apresenta sim, um nível de curiosidade, mas a única emoção humana visualizada em seu comportamento parece ser gentileza e companheirismo. David, por sua vez, é amargo, ressentido, sarcástico. Walter fica fascinado por encontrar um andróide do mesmo modelo que ele, enquanto David diz que “já esperava” eventualmente encontrar um semelhante. Quando ambos interagem, vemos a magia acontecer.

A cena da flauta é uma das melhores cenas que eu já vi. Filmada toda sem cortes, a interação entre David e Walter envolve curiosidade, criatividade e descoberta. David ensina Walter a tocar flauta, de maneira bem mecânica, e ele o faz. Em alguns segundos, ele encontra uma melodia. David o parabeniza, mas ressalta que apesar de sua proficiência técnica, ele nunca poderá compor sua própria obra, pois os humanos não lhe deram criatividade. Tiraram dele a capacidade de pensar por si só.

Tal interação ocorre em diversos momentos ao longo do filme, sempre ponderando reflexões filosóficas importantes. Isso ajuda a pintar bem os personagens e dar o tom reflexivo que contrasta com os elementos de terror da obra.

Expectativa Para a Saga

Por fim, Covenant nos deixou curiosos para saber para onde Ridley Scott planeja levar a série. Com diversas possibilidades de ligar a série atual com os filmes originais, o diretor vai precisar ser muito criativo para responder alguns questionamentos em aberto. Se David criou a forma atual dos xenomorfos, por quê no filme de 89 havia uma nave repleta de ovos? Quem era o space jockey pilotando essa nave? São muitas perguntas e muito tempo para se fazer fan-theories. E os próximos filmes prometem.

 

Tags : alienanálisecinemacovenantcríticafeaturedRIDLEY SCOTT
Victor Andrade

Sobre Victor Andrade

Escritor. Estuda Relações Internacionais, Escrita Criativa e a arte de ser um adulto funcional.

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